Anfitrião da Copa América 2015, o Chile usará seu principal palco para abrir o torneio diante do Equador. O Estádio Nacional, sede do primeiro jogo às 20h30 (de Brasília) desta quinta-feira, viu o bicampeonato mundial da Seleção Brasileira e foi usado pela ditadura do general Augusto Pinochet.
Inaugurado em 1938 com um amistoso entre Colo-Colo e o brasileiro São Cristóvão, o estádio localizado em Santiago viveu seu auge durante a Copa do Mundo de 1962. Depois de receber todos os jogos do Chile na primeira fase, o campo abrigou as semifinais e a grande decisão, além da disputa pelo terceiro lugar.
Na semifinal, em uma partida ríspida, a Seleção venceu o Chile por 4 a 2. Autor de dois gols, Garrincha acabou expulso, mas o Brasil foi favorecido pela organização e contou com o atleta para bater a Tchecoslováquia por 3 a 1 no último jogo, defendendo com sucesso o título conquistado em 1958.
Na definição do terceiro lugar, o Estádio Nacional testemunhou o maior feito da história da seleção chilena. Com um gol de Eladio Rojas nos instantes finais da partida, o time local, empurrado por mais de 66 mil torcedores, venceu a Iugoslávia pelo placar mínimo e ganhou o bronze.
Djalma Santos, Zito, Gilmar, Zózimo, Nilton Santos e Mauro; Garrincha, Didi, Vavá, Amarildo e Zagallo antes da final de 1962 - Credito: Acervo/Gazeta Press
Em maio de 1973, o Colo-Colo, primeiro time chileno a alcançar a final da Copa Libertadores, mandou o jogo contra o argentino Independiente no estádio. Meses depois, os gritos dos torcedores nas partidas de futebol foram trocados por urros de terror.
No dia 11 de setembro de 1973, com apoio decisivo dos Estados Unidos, as Forças Armadas do Chile derrubaram o socialista Salvador Allende, que morreu no palácio presidencial. Após o golpe militar, o poder ficou nas mãos do general Augusto Pinochet.
De setembro a novembro de 1973, a Ditadura usou o Estádio Nacional como centro de detenção, tortura e morte. Sem acusação formal, milhares de pessoas acabaram confinadas no complexo esportivo. O jornalista norte-americano Charles Horman foi executado no local e teve sua trajetória retratada em filmes e livros.
Dois meses depois do golpe militar, de forma insólita, o Chile se classificou para a Copa do Mundo 1974 no Estádio Nacional. Descontente com a situação política no país sul-americano, a União Soviética, no contexto da Guerra Fria, se recusou a disputar o jogo decisivo da repescagem em Santiago.
Estádio foi usado pela ditadura de Augusto Pinochet. No detalhe, memorial abaixo das arquibancadas - Credito: Reprodução
Mesmo sem adversário, o Chile entrou em campo normalmente e marcou um gol com Francisco “Chamaco” Valdes, garantindo sua classificação ao Mundial da Alemanha. Carlos Caszely, famoso opositor de Pinochet, participou do patético episódio. Sem os soviéticos, a organização marcou um amistoso entre o time local e o Santos, que goleou por 5 a 0.
O regime militar chileno vigorou de 1973 a 1990 e, por meio da Operação Condor, interagiu com outras ditaduras sul-americanas, entre elas a brasileira. Milhares de pessoas foram assassinadas e exiladas. Pinochet morreu em 2006, aos 91 anos, enquanto respondia processos por seus crimes.
Nos anos 1980, com o Colo-Colo sob intervenção, o ditador foi nomeado presidente honorário do clube, título eliminado pelos sócios em assembleia geral apenas no último dia 30 de maio. Pinochet teria contribuído financeiramente com a construção do Estádio Monumental David Arellano, fato desmentido pela agremiação e explorado pelos rivais.
| Foto: Acervo Gazeta Press |
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| SÃO PAULO E CRUZEIRO TRIUNFARAM |
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O Estádio Nacional do Chile, palco da abertura da Copa América, traz boas recordações para duas das maiores torcidas do Brasil. Cruzeiro e São Paulo, então defendido por Cafu (foto), ganharam a Libertadores em Santiago. A final da edição de 1976 do torneio continental foi disputada entre Cruzeiro e River Plate. Depois de ganhar em casa (4 a 1) e perder na Argentina (2 a 1), os mineiros foram campeões no jogo de desempate (3 a 2), realizado no Nacional. Em 1993, São Paulo e Universidad Católica disputaram o título. O time brasileiro goleou por 5 a 1 no Morumbi e foi campeão da Copa Libertadores mesmo com a derrota por 2 a 0 em Santiago do Chile. O Estádio Nacional já recebeu o Papa João Paulo II e shows musicais de grandes atrações internacionais, como Michael Jackson, Paul McCartney e Rolling Stones, entre outros astros. |
O Estádio Nacional, usado como campo de concentração pela Ditadura em 1973, também está ligado ao retorno da democracia ao Chile. No dia 12 de março de 1990, o presidente Patricio Aylwin proferiu um histórico discurso no local, e citou seu passado sombrio.
“A partir deste recinto, que em tristes dias de cego e odioso predomínio da força sobre a razão foi para muitos compatriotas lugar de presídio e tortura, dizemos a todos os chilenos e ao mundo que nos observa: Nunca mais! Nunca mais atropelos à dignidade humana! Nunca mais ódio fratricida! Nunca mais violência entre irmãos!”, discursou.
Em 1991, já com a democracia restabelecida, o Estádio Nacional foi usado para abrigar a Copa América, vencida pela Argentina. Em 2015, o velho gramado dos anos 1930, veterano de finais de Libertadores e shows musicais, receberá a decisão de mais um torneio continental.
Localizada atrás de um dos gols do Estádio Nacional, a “Escotilla 8” remete ao passado trágico da área. Nos dias que antecederam o início da Copa América, operários trabalharam na restauração do pequeno memorial mantido por ex-presos políticos embaixo das arquibancadas.
Deteriorado, frio e úmido, o espaço tem imagens de época, painéis informativos e fotos de vítimas. Um pequeno trecho das arquibancadas, ainda de madeira, também foi preservado. “Um povo sem memória é um povo sem futuro”, diz a inscrição no local, sede do jogo de abertura da Copa América.
A exemplo de Dilma Rousseff, Michelle Bachelet, atual presidente chilena, foi presa e torturada pelo regime militar. Em 2010, ela inaugurou em Santiago o Museu da Memória e dos Direitos Humanos, dedicado a dar visibilidade às violações cometidas pelo Estado de 1973 a 1990.
