Renegado no Brasil e ídolo na Áustria, zagueiro busca espaço no Leverkusen

*Leonardo Moric e *Pedro Cardoso - São Paulo,SP

28-09-2017 09:00:24

Se tornar um jogador de futebol profissional é o sonho de muitos jovens brasileiros. As poucas oportunidades, porém, fazem com que apenas poucos consigam concretizar este objetivo, necessitando de um grande esforço pessoal em busca do sucesso. Um dos bons exemplos desta persistência é o zagueiro André Ramalho.

Com passagens sem êxito por categorias de base de grandes clubes brasileiros, como Palmeiras e São Paulo, o atleta teve que mudar de país com apenas 18 anos de idade para manter o sonho de se tornar um jogador profissional. E ele conseguiu. Agora no Bayer Leverkusen, um dos clubes mais tradicionais da Alemanha, o zagueiro falou em contato com a Gazeta Esportiva sobre sua grande volta por cima no mundo do futebol.

A carreira do zagueiro, que apesar da grande rodagem possui apenas 25 anos, foi repleta de provações. Após passagens frustradas por São Paulo, Palmeiras e São Bento, André Ramalho foi contratado pelo Red Bull Brasil. Por conta das diversas filiais que o clube possui, ele ganhou uma oportunidade ainda jovem no Red Bull Salzburg, equipe do futebol austríaco.

Ainda muito novo em sua chegada à Áustria, André Ramalho teve que demonstrar maturidade para se adaptar ao novo país. “Obviamente chegando lá é outra história. Você fica sozinho, sem os pais e o resto da família. O clima, a língua e a cultura são totalmente diferentes. Na época, o (Carlos) Furinha, diretor do Red Bull Brasil, foi comigo. Ele me ajudou muito, me deu bons conselhos. Tudo muda demais, mas cabe a você acreditar que aquele é o melhor caminho e persistir. Foi o que eu fiz. Procurei aprender a língua da melhor maneira possível. Isso me ajudou muito na adaptação. Hoje falo muito bem o alemão”, contou o brasileiro.


Além das dificuldades de adaptação, André Ramalho teve que superar também a desconfiança. Apesar de afirmar ter sido bem recebido, o zagueiro admitiu haver uma visão diferente a respeito dos brasileiros.

“Fui sempre bem recebido. A única coisa que não posso negar é que você nota que tem ‘um certo pé atrás’. Infelizmente devido a um ou outro jogador, sem generalizar, que escutou sobre algum brasileiro que fez alguma coisa errada, eles começam a ter um pré-julgamento. Um exemplo é o cara chegar tarde no treino. Eles pensam: ‘Ah, normal, ele é brasileiro’, algumas brincadeiras deste tipo. Por isso é muito importante se adaptar ao lugar para mudar esta noção. Eu sinto que eu colaborei com isso. Depois de um tempo eles não me olhavam mais de um jeito diferente, sabiam que eu fazia as coisas de forma correta, chegava no horário e cumpria a programação. Eu não sofri, mas você vê que existe sim um certo pré-julgamento”, revelou.

Após vencer a desconfiança no clube, André Ramalho teve somente êxitos na equipe do Red Bull Salzburg. Ganhando espaço no elenco, o zagueiro evoluiu ao longo dos anos e se tornou ídolo da equipe, marcando gols, atuando em diversos jogos e conquistando quatro títulos: dois Campeonatos Austríacos, em 2013/14 e 2014/15, e duas Copas da Áustria, também em 2013/14 e 2014/15. As boas atuações e o patamar alcançado fizeram até com que o atleta fosse homenageado com a produção e utilização de perucas por parte da torcida, fazendo alusão ao grande cabelo do brasileiro.

“Eu achei fantástico. Vieram me perguntar se podiam fazer uma peruca em minha homenagem. Aí eu aproveitei a oportunidade para brincar: ‘Beleza, está permitido, mas eu vou querer 10% das vendas para mim’. Eu fiz cara de sério e os caras começaram a ficar sem jeito (risos). Depois falei que estava brincando, agradeci a todos pela iniciativa e disse que ia adorar. Tem até uma foto que eu guardei com um monte de crianças com a camisa do time usando esta peruca. Na festa do título também distribuíram. Tinha um monte de gente usando e tirando fotos. Acho que reconhecimento maior que este não existe. É muito legal e gratificante ver uma situação dessas. É o reconhecimento materializado naquilo ali. Muito legal”, enalteceu.

Após ganhar tudo por seu clube, o zagueiro projetou a conquista de novos objetivos em sua carreira. Nisto surgiu uma proposta do Bayer Leverkusen, time tradicional e de bom retrospecto recente no futebol alemão, que foi prontamente aceita pelo jogador. Lá, o atleta teve bons momentos, inclusive disputando pela primeira vez uma partida de fase de grupos da Liga dos Campeões, quando atuou no empate em 1 a 1 contra o BATE Borisov, na temporada 2015/16.

“Escutar o hino da Champions dentro do campo é uma sensação única. Acho que é o sonho de todo jogador. É uma coisa que você para e pensa no que está acontecendo na sua vida. Guardo esta camisa até hoje, tenho pendurada em um quadro. Ela tem um significado muito grande para mim. Como disse, tive que dar muitas voltas no futebol para poder chegar aonde cheguei. Isto com certeza foi uma das maiores premiações que pude receber de mim mesmo”, declarou.

Os momentos de Bayer Leverkusen, porém, não tiveram só boas notícias. Em sua primeira temporada no clube, André Ramalho conseguiu ter sequência na parte final do Campeonato Alemão, sendo inclusive titular na arrancada da equipe rumo à vaga na Liga dos Campeões. No entanto, após este período, o atleta perdeu espaço, e no ano seguinte e foi emprestado para o Mainz, também da primeira divisão alemã.

Já de volta do período de empréstimo, o defensor segue com poucas oportunidades na equipe, tendo atuado nesta temporada por apenas 13 minutos em empate em 2 a 2 contra o Hoffenheim, pelo Campeonato Alemão. No entanto, André Ramalho segue esperançoso em ter de volta o espaço uma vez já conquistado no Bayer Leverkusen. E ninguém melhor que ele para ser paciente e esperar o momento certo para as chances aparecerem.

“Espero ter mais oportunidades. Em todas as vezes que eu joguei no Leverkusen na minha temporada antes de ser emprestado, fiz um bom papel. Provei não só para mim, mas para o clube e os torcedores de que posso jogar em alto nível. Espero uma oportunidade para mostrar meu valor, tive uma ótima pré-temporada, desde o início venho bem. Mas claro que tudo é da opção do treinador, ele que define, e são somente 11 que jogam. Espero que possa em breve ter chances para mostrar o meu valor. Fiz uma vez e acredito que posso fazer de novo, e ainda melhor ainda”, projetou.

*Especial para a Gazeta Esportiva

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