O conflito de versões envolvendo a troca na gestão de ingressos do Morumbis se tornou um novo capítulo da guerra política travada nos bastidores do São Paulo. A três meses da eleição presidencial, o presidente do clube, Harry Massis, segue em rota de colisão com Olten Ayres, presidente do Conselho Deliberativo. O pleito está agendado para a primeira quinzena de dezembro deste ano.
A relação entre Massis e Olten Ayres, que nunca foi tida como boa por se tratarem de personagens de grupos políticos opostos, se enfraqueceu ainda no início da gestão do atual presidente, que assumiu o clube em janeiro deste ano após a renúncia de Julio Casares. O acordo do São Paulo com a Ticketmaster para a troca da gestão de ingressos do Morumbis se tornou mais um ponto de desgaste na relação da dupla.
Isso porque o contrato, se aprovado pelos conselheiros, prevê uma antecipação de R$ 140 milhões ao São Paulo ainda este ano. O montante é tratado pela diretoria executiva como fundalmental para quitar os valores em atraso com o elenco. Alguns jogadores possuem direitos de imagem atrasados em mais de dois meses.
(Foto: Divulgação/SPFC)
O contrato com a Ticketmaster já foi aprovado pelo Conselho Administrativo do São Paulo. Contudo, Olten Ayres impôs um 'empecilho' no caminho antes de convocar a reunião para aprovar ou não o acordo no Conselho Deliberativo. Na última terça-feira, o presidente do CD delegou a criação de uma comissão especial, com quatro conselheiros, para analisar todo o documento com a proposta final da ticketeira escolhida pela gestão Massis.
O que motivou o presidente do Conselho a criar tal comissão foi um e-mail recebido de Cesar Sbrighi, gerente de país da NewC no Brasil, ao qual a reportagem teve acesso. A empresa estava na disputa para gerir os ingressos do Morumbis. Em contato com Olten, o representa da companhia questionou como se deu o processo de disputa e da escolha final pela Ticketmaster, que venceu a concorrência para substituir a Total Acesso, cujo contrato se encerra no final deste ano.
A resposta da diretoria foi praticamente imediata. Em nota divulgada na última quarta-feira, Massis repudiou a NewC e o próprio Conselho, alegando que o imbróglio seria uma "tentativa de prejudicar um processo estruturado" no quesito e explicando que a proposta da Ticketmaster passou por todos os crivos exigidos até aqui. Ainda de acordo com o clube, a oferta concorrente não chegou a ser apresentada formalmente de maneira estruturada para avaliação.
Massis pede pressa por votação
A decisão de Olten de criar uma comissão para analisar o contrato com a Ticketmaster não caiu bem na diretoria executiva do São Paulo. Em áudio vazado na última terça-feira e cuja veracidade foi confirmada pela reportagem, Harry Massis pediu o apoio de grupos políticos para apressar o presidente do Conselho a colocar a pauta em votação, uma vez que a quitação dos atrasados dependia dos R$ 140 milhões de adiantamento previstos em contrato.
"Agora eu preciso que vocês ajudem a fazer o presidente [Olten Ayres] do CD [Conselho Deliberativo] colocar a pauta para ser votada. Porque, se segurar e não for votada, não vamos cumprir nada, pô! Não vai ter dinheiro para pagar nada, entende? Então, tem muita gente bocuda que fala o que não deve falar, e daí recai sobre a minha pessoa", afirmou o mandatário.
A antecipação dos recursos é vista pela diretoria como fundamental para reforçar o caixa do clube no curto prazo. Atualmente, o São Paulo possui pendências relacionadas ao pagamento de direitos de imagem do elenco, com alguns casos acumulando mais de dois meses de atraso.
Em julho, dirigentes se reuniram com os jogadores e prometeram regularizar a situação em até um mês, mas a meta não foi cumprida. Por isso, a diretoria entende que os valores previstos no acordo com a Ticketmaster podem ajudar o clube a quitar débitos imediatos e amenizar o cenário financeiro.
Olten x Massis
Olten Ayres e Harry Massis estão em 'pé de guerra' desde o início da gestão do presidente. Em fevereiro deste ano, Christina Massis, filha do atual presidente do clube, se tornou alvo de uma denúncia, na qual estaria supostamente envolvida em revendas irregulares de ingressos para shows no Morumbis. O Conselho Consultivo analisou o caso a pedido do dirigente do CD, mas Massis foi mantido na cadeira presidencial.
Pouco tempo depois, foi Massis quem buscou o afastamento de Olten Ayres da presidência do CD. Em abril, o presidente protocolou um pedido de expulsão de Olten do quadro associativo do São Paulo por suposta gestão temerária. No início de junho, a votação foi realizada, e os conselheiros reprovaram uma medida cautelar, sugerida pela Comissão de Ética, que poderia afastar Olten pelo período de 120 dias.
Massis, por sua vez, também enfrentou um pedido de expulsão, mas não protocolado por Olten Ayres. Um grupo de conselheiros requeriu a exclusão do presidente do quadro de associados do clube, além do afastamento liminar do dirigente, principalmente com base no transfer ban sofrido pelo clube em 21 de julho, o que poderia configurar possível gestão temerária. Contudo, a representação foi arquivada pela Comissão de Ética.
Rejeição da reforma estatutária
A rejeição da reforma estatutária também foi tratada internamente como uma vitória da gestão Massis, uma vez que muitos conselheiros da situação eram contrários à ideia. A pauta, defendida por Olten Ayres e pela oposição, foi colocada para votação no último dia 27 de agosto, mas reprovada pelo Conselho. Todas as 54 alterações propostas no novo documento foram rejeitados pelos membros do órgão.
Entre as principais mudanças sugeridas pela comissão responsável, estavam alterações na estrutura de governança, como a divisão mais clara entre as funções institucionais e executivas, e mudanças na composição do Conselho de Administração. De acordo com a proposta, o órgão passaria a ter nove integrantes, sendo cinco membros independentes.
A reforma também previa o fortalecimento dos mecanismos de controle e fiscalização do clube. O texto, agora reprovado, estabelecia estruturas de compliance, gestão de riscos e auditoria interna, além de ampliar o acompanhamento dos resultados administrativos e financeiros.
"A guerra política é pior, porque é uma guerra contra o São Paulo. As pessoas estão colocando o poder pelo poder sem olhar a instituição. Imagina você movimentar todos os conselheiros que te apoiam para se colocar contra uma reforma estatutária que pede mais transparência, mais governança, que estabelece critérios onde o presidente perde os poderes absolutistas? Uma coisa está clara: a maneira como o São Paulo vem usando hoje as regras existentes não é adequada para administrar um time da grandeza do São Paulo", afirmou Olten Ayres em entrevista ao portal Metropóles.
(Foto: Reprodução/SPFC TV)
Lados opostos na eleição
Atualmente, seis dos nove grupos políticos são apoiadores da gestão Massis: Vanguarda, Legião, Participação, Sempre Tricolor, Somos SPFC e Super. Já a oposição é formada por Força São Paulo — chapa de Olten Ayres —, Salve o Tricolor Paulista e Novo São Paulo. Massis e o presidente do Conselho Deliberativo, portanto, também aparecem de lados opostas na corrida pela cadeira presidencial.
Nos últimos meses, Olten Ayres chegou a declarar apoio publicamente à candidatura de Rogério Caboclo, ex-presidente da CBF e conselheiro vitalício do clube, que chegou a se reunir com conselheiros e conselheiras. Após sinalizar que estaria aberto a concorrer ao posto, o advogado, entretanto, avaliou o cenário político interno e entendeu que a união da oposição deve estar acima de projetos individuais, o que levou a desistir da eventual candidatura.
Com isso, o nome mais forte para concorrer ao pleito pela oposição é o de Marcelinho Portugal Gouvêa, também advogado, conselheiro vitalício e integrante do grupo Salve o Tricolor Paulista. Ele tenta seguir os mesmos passos de seu pai, homônimo, que presidiu o clube entre 2002 e 2006.
Do lado da situação, não está descartada uma possível candidatura de Massis. Outros nomes, porém, também tem sido debatidos, como o de Adilson Alves Martins, conselheiro vitalício do São Paulo.
Próximos jogos do São Paulo
São Paulo x Atlético-MG (26ª rodada do Campeonato Brasileiro)
Data e horário: 05/09 (sábado), às 18h30 (de Brasília)
Local: Morumbis, em São Paulo (SP)
Boca Juniors x São Paulo (jogo de ida das quartas de final da Copa Sul-Americana)
Data e horário: 08/09 (terça-feira), às 21h30 (de Brasília)
Local: La Bombonera, em Buenos Aires (ARG)
☑️ Mais uma etapa de trabalho concluída para o confronto com o Atlético-MG pelo Brasileirão!
🏟️ Adquira seu ingresso para a partida do próximo sábado (5), às 18h30, no MorumBIS > https://t.co/iCz5soyxBF#VamosSãoPaulo 🇾🇪
📸 Erico Leonan / São Paulo FC pic.twitter.com/nnYYp25L4l
— São Paulo FC (@SaoPauloFC) September 3, 2026