Entenda por que o Conselho do São Paulo criou comissão para analisar contrato com a Ticketmaster

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(Foto: Léo Sguaçabia/Ag. Paulistão)

Presidente do Conselho Deliberativo do São Paulo, Olten Ayres de Abreu Júnior criou uma comissão especial, na última terça-feira, para analisar o contrato com a Ticketmaster, empresa escolhida pela diretoria para comandar a gestão de ingressos do Morumbis.

O departamento será integrado por quatro conselheiros (Daurio Speranzini Junior, Flavio Angerami Marques Junior, Daniel Dinis Fonseca e Marcel de Siqueira Bonilha) e foi criado após um e-mail enviado por Cesar Augusto Sbrighi, Country Manager (gerente de país) da NewC no Brasil, a Olten Ayres, presidente do Conselho tricolor, no último dia 28 de agosto.

A Gazeta Esportiva teve acesso ao teor do documento. Em suma, Cesar Sbrighi questiona como se deu o processo de disputa e da escolha final pela Ticketmaster, que venceu a concorrência da NewC para substituir a Total Acesso, cujo contrato se encerra no final deste ano.

O que alega a NewC

O clube abriu um edital público em meados de abril deste ano para substituir a Total Acesso, atual gestora de ingressos do Morumbis. Seis empresas apresentaram propostas, entre elas a NewC, que diz não ter sido formalmente convidada para o processo. No e-mail, César Sbrighi menciona que entrou na concorrência após identificar a oportunidade de mercado.

No dia 13 de abril, a ticketeira formalizou o interesse de apresentar uma proposta para ser a nova gestora de ingressos do Morumbis. A empresa usou como referência o documento de tomada de preços que circulava no mercado desde março.

(Foto: Jhony Inacio/Ag.Paulistão/Sua Foto No Jogo)

Contudo, segundo alega o gerente, a NewC só foi autorizada a participar da concorrência dez dias depois, quando o processo de escolha pela Ticketmaster já estava "avançado". O aval de participação foi dado por Eduardo Toni, então diretor de marketing do São Paulo.

Quase um mês depois, em 26 de maio, os representantes da NewC foram convidados para uma reunião e apresentaram a proposta. Contudo, a companhia alega ter sido
surpreendida com a informação de que o documento utilizado como base não correspondia à versão vigente da
concorrência. Com isso, recebeu o instrumento atualizado naquele momento.

A NewC citou a possibilidade da antecipação prevista no instrumento da Ticketmaster, que prevê a entrada de R$ 140 milhões nos cofres do clube até o fim deste ano, como confirmado pela reportagem. Cesar Sbrighi disse, ainda, que o documento atribuiria "pouca relevância aos critérios técnicos relacionados à operação de ticketing propriamente dita".

O gerente também questionou a viabilidade de ofertar o camarote corporativo do São Paulo no Morumbis, condição prevista no contrato com a Ticketmaster e tida como obrigatória e relevante na avaliação da proposta. No entendimento de Cesar, trata-se de um desafio "extremamente complexo, para não dizer polêmico", pois obrigaria qualquer proponente a depender de condições comerciais que seriam impostas futuramente pela controladora de uma das empresas concorrentes.

Os termos da proposta

César Sbrighi também falou sobre valores ofertados pela NewC na proposta. A companhia organizou uma “solução financeira estruturada”, que pudesse antecipar aproximadamente os R$ 90 milhões sinalizados pela diretoria financeira do São Paulo.

A NewC também se mostrou disposta a desenhar uma operação de R$ 500 milhões para atender as necessidades do clube, em conjunto com a Anga Asset, gestora de investimentos parceira. Tal proposta teria sido apresentada ao São Paulo em reunião no dia 6 de julho.

Após a reunião, o São Paulo teria demonstrado interesse na proposta apresentada e se comprometido a analisar seus termos. Segundo César, o clube teria prometido dar um retorno sobre a proposta, até mesmo com um posicionamento da Ticketmaster sobre um interesse na ampliação do escopo das garantias e valores.

Dez dias depois da reunião, porém, não houve retorno do clube. A NewC cobrou uma resposta em e-mail e, uma semana depois, recebeu a sinalização do São Paulo para seguir com as tratativas. A empresa, então, alega ter enviado a proposta final no dia 22 de julho. Pediu, ainda, uma reunião com a presidência para alinhar detalhes e fechar negócio.

O São Paulo, por sua vez, alega que a proposta de R$ 500 milhões da NewC nunca chegou à mesa. Com isso, a cúpula tricolor considerou apenas a primeira proposta apresentada, que seria inferior a da Ticketmaster.

Guerra de versões

Já em agosto, após a mudança no departamento de marketing do São Paulo, o clube enviou um e-mail à NewC por meio de André Marques, novo diretor da área. Contudo, Cesar Sbrighi afirmou que o texto estava "absolutamente dissociado de tudo o que vinha sendo tratado até então". Mesmo assim, o dirigente teria sido prontamente respondido.

No meio disso tudo, porém, Cesar citou informações divulgadas pela imprensa sobre a escolha pela Ticketmaster. Informações estas que teriam sido confirmadas pelo próprio clube, conforme alega o gerente. Com isso, disse entender o motivo da demora e da ausência de retorno à NewC.

"A impressão que fica é que o projeto não recebeu a profundidade de análise compatível com sua dimensão e potencial de transformação", escreveu Cesar em trecho do e-mail, ao qual a reportagem teve acesso.

A NewC também se colocou à disposição para enviar fotos, vídeos e mensagens que comprovariam tudo mencionado no e-mail. Além disso, a empresa também informou o desejo de retomar as negociações caso o São Paulo demonstre tal interesse.

As propostas

A proposta da norte-americana Ticketmaster, escolhida pelo São Paulo, abrange a possibilidade de uma antecipação de R$ 110 milhões para o clube utilizar como bem entender. A liberação do valor seria feita 45 dias após a assinatura do contrato. O acordo funcionará como uma espécie de empréstimo, uma vez que o montante adiantado será devolvido pelo Tricolor à empresa em cinco anos, com taxa de juros seguindo o CDI (Certificado de Depósito Interbancário) mais 1,99%.

Além disso, a nova empresa pagará cerca de R$ 30 milhões pelo uso de um camarote no Morumbis, e investirá R$ 6 milhões para reformar o museu do São Paulo no local.

O novo contrato com a ticketeira também adiciona um "limite" da verba a ser devolvido pelo São Paulo: apenas R$ 1,8 milhão por mês será retornado à empresa, independente do valor total da renda somada ao fim do mês. Contudo, esse repasse também será feito em meses sem grandes rendas com bilheteria no estádio, como aconteceu durante a pausa da Copa do Mundo este ano, por exemplo.

A negociação entre as partes envolveu, ainda, a gestão do programa de sócio-torcedor do São Paulo, que atualmente é administrado pela Feng. Com isso, a diretoria tende a reduzir custos, além de entender que pode oferecer um serviço melhor aos torcedores.

E a NewC? 

Do outro lado, a proposta da dinamarquesa NewC previa a antecipação de R$ 90 milhões, com juros de CDI mais 5,5% ao ano, e o mesmo processo de devolução. Além disso, a empresa também pagaria R$ 13 milhões pelo uso do mesmo camarote.

Após a primeira proposta, o São Paulo chegou a se reunir com a NewC, que apresentou um novo projeto de arrecadação. Representantes da empresa indicaram que poderiam arrecadar R$ 500 milhões por meio de um fundo de investimentos. O clube reembolsaria o valor em até 10 anos, também com juros de CDI. No entanto, isso exigiria cinco tipos de receitas envolvendo o Morumbis, como publicidades, camarotes e cadeiras cativas, bilheterias e aluguel do estádio, por exemplo.

O que diz a diretoria do São Paulo?

Em nota divulgada nesta quarta-feira, a diretoria do São Paulo, na figura do presidente Harry Massis, repudiou a NewC e o próprio Conselho, alegando que o imbróglio é uma "tentativa de prejudicar um processo estruturado" no quesito e explicando que a proposta da Ticketmaster passou por todos os crivos exigidos até aqui (leia mais abaixo). Ainda de acordo com o clube, a oferta concorrente não chegou a ser apresentada formalmente de maneira estruturada para avaliação.

Confira a nota na íntegra:

“O Presidente da Diretoria Executiva do São Paulo Futebol Clube repudia veementemente a postura do Presidente do Conselho Deliberativo e da NewC, empresa derrotada no processo de escolha da nova tiqueteira do MorumBIS.

Trata-se de uma tentativa de prejudicar um processo estruturado, conduzido ao longo de mais de quatro meses, com análise das áreas responsáveis e submissão às instâncias competentes de governança do São Paulo Futebol Clube.

Após aprovação unânime pelo Conselho de Administração, a proposta da Ticketmaster foi encaminhada ao Conselho Deliberativo, no dia 27 de agosto, para análise e deliberação. Ontem, o Presidente do Conselho Deliberativo decidiu instaurar uma comissão formada por três membros identificados com a oposição e apenas um integrante da situação, estabelecendo evidente desequilíbrio em sua composição e criando mais uma etapa que, na prática, retarda a apreciação do contrato.

Durante todo o processo, nenhum participante questionou as regras do edital da concorrência, que recebeu seis propostas de diferentes empresas. Lamentamos que essas indagações tenham surgido somente após a escolha da Ticketmaster, cuja proposta apresentou, de forma inequívoca, as melhores condições para o São Paulo Futebol Clube.

É fundamental esclarecer que o processo não tinha como objeto a negociação de ativos imobiliários ou do direito de superfície do MorumBIS.

A suposta segunda “proposta”, divulgada como uma operação de até R$ 500 milhões, não consistiu em uma oferta formal dessa natureza. O material apresentado pela NewC limitava-se a um conjunto de slides com uma ideia preliminar envolvendo uma estrutura financeira vinculada ao estádio.

O São Paulo Futebol Clube rejeita a tentativa de apresentar um projeto embrionário como se fosse uma proposta diretamente comparável dentro da mesma concorrência.

O MorumBIS pertence ao São Paulo Futebol Clube. Qualquer operação envolvendo um patrimônio dessa magnitude exige análise rigorosa, segurança jurídica e absoluta proteção dos interesses da instituição.

A estrutura apresentada previa a participação da Lu Arenas, empresa presidida por Bruno Balsimelli. O PowerPoint sugeria a criação de uma operação financeira por meio de fundo de investimento imobiliário que poderia levantar ATÉ R$ 500 milhões, sem qualquer garantia de que esse montante seria efetivamente alcançado.

Além disso, o modelo envolveria receitas futuras do Clube e o Estádio do MorumBIS, nossa casa e um de seus principais ativos patrimoniais.

Por diversas vezes, a Diretoria solicitou que a NewC apresentasse formalmente uma proposta completa e detalhada sobre essa operação. Isso nunca ocorreu.

Em vez de conduzir o tema exclusivamente pelos canais institucionais, representantes ligados à Lu Arenas optaram por pressionar o Clube e promover a circulação de informações que não correspondem aos fatos.

Também é necessário que o torcedor conheça o histórico da Lu Arenas e as controvérsias públicas relacionadas à sua atuação. Entre elas está a extinção da concessão da Arena Independência pelo Governo de Minas Gerais, que declarou a caducidade do contrato por descumprimento de obrigações da concessionária. Segundo comunicado oficial do próprio Governo de Minas, a empresa deixou de repassar ao poder público, desde 2015, valores que já somavam aproximadamente R$ 36 milhões.

A participação da Lu Arenas também foi apontada pela área de Compliance do Clube como um obstáculo à continuidade das negociações.

Causa estranheza, ainda, que somente agora representantes da NewC tenham passado a assumir diretamente a comunicação sobre o tema, inclusive com o envio de e-mails ao Conselho Deliberativo, quando, durante o processo, essa interlocução foi conduzida por terceiros.

É igualmente preocupante que uma empresa multinacional dinamarquesa tente reverter, por meio de pressão política e institucional, o resultado de uma concorrência na qual sua proposta foi amplamente superada pela de outra participante.

O São Paulo Futebol Clube entende, de forma definitiva, que a proposta apresentada pela Ticketmaster, uma das maiores empresas globais do setor de ingressos, atende aos requisitos estabelecidos pelo Clube, contempla investimentos garantidos, oferece segurança jurídica à instituição e tem potencial para ampliar as receitas de bilheteria e do programa de sócio-torcedor, além de aprimorar significativamente o serviço prestado aos são-paulinos.

Estamos certos de que os membros do Conselho Deliberativo cumprirão sua missão de defender os interesses do São Paulo Futebol Clube e preservar a instituição de disputas políticas e manobras de natureza eleitoral.

O patrimônio, a reputação e o futuro do São Paulo Futebol Clube devem estar acima de interesses individuais, empresariais ou circunstanciais”.

Proposta da Ticketmaster ainda precisa passar pelo Conselho

A diretoria do São Paulo encaminhou, nos últimos dias, o contrato com a Ticketmaster ao Conselho Deliberativo. O acordo, se aprovado pelos conselheiros, trocará a gestão de ingressos do Morumbis.

O documento já está nas mãos do presidente do Conselho Deliberativo, Olten Ayres de Abreu. Agora, cabe ao dirigente agendar uma data e convocar a reunião que decidirá pela aprovação ou rejeição do novo acordo, que prevê uma antecipação de R$ 140 milhões aos cofres do clube. O contrato já foi aprovado pelo Conselho de Administração.

O agendamento da reunião para votação, porém, só será feito após a conclusão das análises da comissão criada pelo presidente do Conselho.

Se aprovada pelo Conselho, a parceria do São Paulo com a Ticketmaster será válida a partir do dia 1º de janeiro de 2027. A diretoria tricolor, porém, tem pressa pela aprovação, uma vez que conta com a antecipação dos R$ 140 milhões para quitar os atrasados com o elenco.

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