Em 2020, o São Paulo disputou a elite do Campeonato Brasileiro feminino pela primeira vez. Seis anos depois, as Soberanas do Tricolor paulista superaram o ano turbulento vivido pelo clube nos bastidores, quebraram a hegemonia do Corinthians e sagraram-se campeãs inéditas da Série A1 diante do maior público da história do futebol feminino de clubes da América do Sul.
O São Paulo empatou em 1 a 1 com o Corinthians neste sábado, com direito a pênalti defendido por Carlinha, no Morumbis, e coroou a grande campanha no Brasileirão feminino com o primeiro título ao fechar o agregado em 3 a 2. Taticamente muito organizado e com uma resiliência invejável, o time do técnico Thiago Viana ergueu a taça pela primeira vez depois de bater na trave em 2024.
Com o título inédito, o São Paulo garantiu uma vaga na fase de grupos da Copa Libertadores feminina de 2027. Mesmo com o vice, o Corinthians também se classificou.
"Muito feliz por poder estar fazendo isso, mostrando ao torcedor e dando essa oportunidade de entender o futebol feminino. Quando falamos do futebol feminino, é muito mais essa questão do amor. Já sofremos muito durante os anos, então sabemos muito bem como trabalhar nesse sofrimento. Com os pészinhos nos chão, vamos nos apoiando cada vez mais, construindo um projeto sólido, e isso nos levou a dar essa alegria para o torcedor são-paulino", disse Aline Milene, uma das lideranças do elenco do São Paulo.
Ano de dificuldades
O ano de 2026 não foi fácil para o torcedor do São Paulo. O Tricolor começou a temporada estampando as páginas policiais devido às apurações internas e externas envolvendo Julio Casares, então presidente. O agora ex-dirigente é investigado pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) por possível gestão temerária e supostas irregularidades financeiras cometidas durante o período em que presidiu o clube, entre 2021 e janeiro de 2026.
No dia 16 de janeiro, Casares teve o impeachment aprovado pelo Conselho Deliberativo do clube. Cinco dias depois, publicou uma extensa carta para renunciar ao cargo de presidente do São Paulo. Posteriormente, em setembro deste ano, viria a ser expulso do quadro associativo após votação do CD. Com isso, Harry Massis Júnior, vice-candidato eleito pela mesma chapa, assumiu o comando do clube.
Em campo, as coisas também não iam bem no masculino. A demissão do técnico Hernán Crespo, seguida pela contratação de Roger Machado, aumentou a pressão sobre a cúpula são-paulina. O trabalho do gaúcho durou dois meses e foi interrompido em maio, com a queda na quinta fase da Copa do Brasil. Pouco tempo depois, o clube decidiu pela saída de Rui Costa, então diretor de futebol. Ainda em julho, o São Paulo também sofreu um transfer ban da Fifa pelo não pagamento da dívida com a Lazio pela compra de Marcos Antonio, retirado no início de agosto.
Uma crise sem precedentes se instalou no clube do Morumbi. Em meio à resultados ruins dentro de campo e notícias negativas fora dele, como uma guerra política nos bastidores relacionada à Ticketmaster e uma eleição presidencial no final do ano, o São Paulo ainda atrasou, pela primeira vez na gestão Massis, os salários em carteira do elenco profissional referentes ao mês de agosto.
Os vencimentos foram quitados três dias depois do prazo, mas contribuíram para aumentar a crise no São Paulo. Junto a isso, somam-se os direitos de imagem atrasados em três meses e a eliminação nas quartas da Sul-Americana, que poderia ser mais uma fonte de renda. O clube passa por um momento delicado financeiramente e acumula uma dívida que já está na casa do R$ 1 bilhão.
O São Paulo, inclusive, está com um transfer ban ativo na Fifa no momento. O clube foi punido pela entidade máxima do futebol na última sexta-feira por uma dívida com os agentes de Giuliano Galoppo, que defendeu o Tricolor entre 2022 e 2025. A pendência gira em torno de 300 mil dólares (R$ 1,5 milhão na cotação atual).
Feminino foi na contramão e se organizou
O time feminino do São Paulo, porém, resistiu ao momento ruim vivido pelo clube, se reforçou no início da temporada e manteve a organização do departamento mesmo em meio aos problemas. A crise financeira não chegou a atingir o departamento, comandado pela diretora Cléo Prado desde 2024.
No começo do ano, o São Paulo apresentou 12 novas contratações para 2026. Foram elas: Anita, Camila Barbosa, Clara, Cris, Gadu, Maricel Pereyra, Mylena Carioca, Rafa Soares, Soraya, Tayla, Vanina Preininger e Yasmin. As jogadoras Elu e Luiza Calazans, que estavam com a equipe sub-20, passaram a integrar o elenco profissional.
Além das chegadas, o São Paulo também garantiu a manutenção de atletas importantes do elenco, o que foi fundamental para o título. O clube firmou renovações com as jogadoras Carol Gil, Ravena, Vi Amaral, Karla Alves, Camilinha e Aline, peças que seguiram como base da equipe para 2026.
"Eu blindei completamente [o departamento]. O futebol feminino nem sente muito isso [a crise], porque graças a Deus nunca tivemos problemas. As meninas nunca tiveram salário atrasado, bicho atrasado, nada. Sempre receberam em dia. Tudo que levamos à diretoria financeira, fomos atendidos em absolutamente tudo. Essa relação foi muito bem construída. Para o São Paulo, foi um ano muito difícil, aconteceram coisas terríveis e temos que rever muitas coisas que foram feitas, colocando metas do que não fazer", afirmou Cléo Prado em entrevista à Gazeta Esportiva na zona mista do Morumbis.
O caminho para o sucesso do time feminino, porém, não foi construído de um dia para o outro. A modalidade profissional foi reativada em 2019, em uma parceria com o Centro Olímpico, após ser encerrada por ausência de patrocínios. Naquele mesmo ano, o time disputou a Série A2 do Brasileiro e, em 2020, retornou à elite do Brasileiro feminino.
Desde então, trilhou um caminho de evolução. Em 2022, o clube contratou o técnico Thiago Viana e deu continuidade ao trabalho. Recentemente, diante de um possível interesse do rival Palmeiras, o São Paulo correu para valorizar o treinador e renovou seu contrato até dezembro de 2027.
O trabalho da comissão técnica, diretoria feminina e elenco começou a dar resultados. O Tricolor paulista alcançou a final do Brasileiro feminino em 2024, mas perdeu para o Corinthians. Já em 2025, o time conquistou o primeiro grande título após a reativação da modalidade: a Supercopa de 2025, quando bateu as Brabas nos pênaltis. Um ano depois, coroou a grande campanha na primeira fase do Brasileiro com o título inédito.
"Não dá para comparar o masculino com o feminino. Eles sentem muito o peso de ter que ter resultados, então não tem muito tempo para trabalhar. Creio que, se respirar, criar um plano, um projeto, e colocar na mesa, independente de quem grita fora, vamos conseguir. Agora, se ficarmos ouvindo quem está gritando do lado de fora do portão, aí não vamos sair do lugar. Temos que ter projeto. Tendo projeto, ele será executado", completou a diretora.
ÉÉÉÉÉÉ, CAMPEÃÃÃÃÃO! 🏆⁰⁰No MorumBIS lotado, o São Paulo superou o Corinthians e conquistou o Brasileirão Feminino de 2026!⁰⁰COMEMORA, TORCIDA TRICOLOR!⁰⁰#EssaHistóriaÉFeitaPorNós⁰#FutebolFemininoTricolor⁰#VamosSãoPaulo 🇾🇪 pic.twitter.com/3PaknJ1O68
— São Paulo Feminino (@SaoPauloFC_Fem) October 3, 2026
A campanha do título
O São Paulo foi o time mais consistente do Brasileiro feminino e teve sua campanha consagrada com o título. O Tricolor tomou a liderança do Corinthians na última rodada, quando venceu o Mixto-MT por 1 a 0 e assistiu o rival perder para o Internacional por 3 a 1, em casa.
As Soberanas terminaram a primeira fase na liderança, com 41 pontos. Foram 13 vitórias, dois empates e somente duas derrotas, com 31 gols marcados e apenas 11 sofridos. A defesa sólida e o ataque efetivo se tornaram dois pontos fortes da equipe tricolor.
Como líder, o São Paulo avançou às quartas de final e enfrentou o Grêmio, oitavo colocado. No jogo de ida, no Sul, empatou em 0 a 0. Já na volta, no Brinco de Ouro, em Campinas (SP), o Tricolor paulista venceu por 2 a 0 e carimbou vaga nas semifinais.
Nas semis, as Soberanas encararam o Flamengo. No primeiro jogo, a equipe são-paulina saiu atrás no placar, mas virou o jogo e venceu por 3 a 1 no Luso Brasileiro. Depois, novamente em Campinas, o time voltou a bater o Flamengo, desta vez por 1 a 0, e garantiu a vantagem de decidir a final em casa por ter uma campanha superior a do Corinthians.
Já na grande decisão, o São Paulo voltou a mostrar resiliência. Saiu perdendo, mas virou o duelo para 2 a 1 em plena Neo Química Arena, encerrando uma invencibilidade de 32 jogos do rival em casa. No jogo de volta, que pôde ser disputado no Morumbis, segurou o empate, com direito à redenção de Carlinha, e teve a grande campanha coroada com o título inédito.
O São Paulo feminino, assim, superou o ano turbulento do clube fora dos gramados e deu, ao menos, uma alegria ao torcedor nesta altura da temporada — que ainda não acabou. O Tricolor paulista disputa, também, a Copa do Brasil e o Paulista feminino, nos quais enfrenta Bahia e Santos nas respectivas fases de mata-mata.
Próximos jogos do São Paulo feminino
Bahia x São Paulo (jogo de ida das quartas de final da Copa do Brasil feminina)
Data e horário: 16/10 (sexta-feira), às 19h (de Brasília)
Local: Arena Batistão, em Aracaju (SE)
São Paulo x Bahia (jogo de volta das quartas de final da Copa do Brasil feminina)
Data e horário: 21/10 (quarta-feira), às 19h (de Brasília)
Local: a definir