Sonhando com liga, beisebol não receberá repasse do COB em 2017

André Garda, especial para a Gazeta Esportiva - São Paulo , SP
10/02/2017 10:37:51 — 30/05/2017 12:31:42

Em: Mais Esportes, Notícias
Campo principal do CT Yakult, em Ibiúna, onde os MLB Academy treinam (Foto: André Garda)
Campo principal do CT Yakult, em Ibiúna, onde os MLB Academy treinam (Foto: André Garda)

Beisebol e softbol, surfe, skate, caratê e escalada se tornaram esportes olímpicos no ano passado. Contudo as confederações dessas modalidades não irão receber o repasse de verbas da Comitê Olímpico Brasileiro (COB). O reflexo da falta de dinheiro é o fracasso do projeto de liga da Confederação Brasileira de Beisebol e Softbol (CBBS).

“Desde agosto do ano passado, a gente sabia que o beisebol e o softbol seriam aprovados para as Olimpíadas e nós fizemos um projeto junto ao COB, só que o eles nos informaram que não seríamos contemplados com verba para esportes olímpicos no ano de 2017”, afirmou Jorge Otsuka, presidente da CBBS, em entrevista exclusiva à Gazeta Esportiva. “Então teremos que continuar na mesma toada que a gente vinha porque não temos um patrocinador oficial. Esse ano de 2017 vai ser dificílimo, mas nós não podemos ficar chorando. Estamos tentando aumentar o número de vagas para as Olimpíadas, porque ela só será disputada por seis países e fica difícil a classificação do Brasil, porque a América só vai ter duas vagas”.

“O Ministério do Esporte, através da lei Agnelo Piva, repassa a verba para o COB, que repassa o dinheiro para as confederações olímpicas. Como o beisebol e o softbol e os outros quatro esportes que entraram agora. Neste primeiro ano, o Comitê falou que, dentro do projeto de 2017, essas modalidades novas não serão contempladas”.

Otsuka também revelou sobre o “sonho antigo” de se fazer uma liga no Brasil, entretanto ele destacou a falta de estrutura e de dinheiro como os principais entraves para a concretização do plano.

“A ideia é fazer uma liga semiprofissional. Disputada em, no mínimo, três meses. Se a gente não conseguir um estádio iluminado, fica impossível a disputa de um torneio dessa natureza”, disse o presidente. “É difícil realizar a liga se a gente não tiver apoio financeiro do Comitê Olímpico e do próprio Ministério do Esporte”.

“Nossa ideia era escolher entre quatro a seis equipes já existentes e traríamos dois reforços internacionais (por time). A confederação faria a distribuição desses atletas. As equipes jogariam cinco partidas (contra cada time) e a gente faria toda noite um jogo em um estádio iluminado. Duraria de três a quatro meses, dependendo no número de equipes que a gente conseguir formar”, explicou. “A princípio a gente destinaria uma ajuda de custo para os atletas brasileiros”.

Apesar de a ideia ter sido aprovada inclusive por Caleb Santos Silva, coordenador internacional de desenvolvimento do beisebol da Major League Baseball – principal liga de beisebol dos Estados Unidos –, Thiago Ramos, olheiro do Houston Astros, tem algumas ressalvas.

“Vai ser ótimo para o beisebol brasileiro padronizar e profissionalizar o esporte. Acho que nos próximos meses e anos vão ter conversas para a MLB ajudar”, disse o coordenador da Major League. “Vamos estar ajudando melhorando nossa academia aqui e tentando fazer coisas paralelas, por exemplo, fazer de novo a capacitação de técnico para eles poderem ensinar o esporte nos clubes igual na academia, para que os jogadores dos clubes possam ser mais preparados e mais treinados para talvez entrarem no programa da MLB”.

“Vai demorar um pouco para isso acontecer. Primeiro a gente tem que organizar o beisebol amador. O nível técnico está anos-luz do que seria em uma Venezuela, nos Estados Unidos e até no México. A gente tem que ir passo a passo, devagar. É importante ter a liga profissional, mas antes disso a gente tem que estruturar as ligas amadoras que temos hoje, passar para ligas semiprofissionais com alguns atletas remunerados e daí sim passar para profissional. Isso tem que partir dos clubes e tem que integrar mais times nas ligas principais para que estruture melhor os campeonatos”, afirmou Ramos, em entrevista exclusiva. “Uma Taça Brasil (principal torneio adulto da modalidade) com três times é uma piada. A partir de um momento que se aproxima de uma República Dominicana com seis a oito times, já começa a se desenhar um cenário interessante para se assistir”.

“Amador todos são, federados ou não. Os federados têm times tradicionais, mas eu não digo que são times estruturados. A grande maioria está falido, não tem sede social, com algumas exceções”, completou.

Mesmo apontando diversos problemas, o scout dos Astros aprovou a ideia de ter mais um local para se observar atletas e ainda incentivou a possibilidade de atletas estrangeiros serem trazidos.

“Seria muito legal se os times conseguissem convidar estrangeiros para jogar nesses times e eu não digo os que já moram aqui há algum tempo, mas trazer realmente o prospecto e jogadores profissionais desses países como Venezuela, Panamá, República Dominicana e México para reforçar a liga e torná-la mais interessante para quem assiste”, comentou. “Seria muito interessante para os olheiros ter mais um local para ver os jogadores atuando, porque hoje, como olheiro do Houston Astros, tenho o Elite Camp e a outra forma é a gente ser criativo para achar atleta. Seria excelente. Uma liga profissional no Brasil seria muito bem vista e haveria investimento da MLB, assim como aconteceu na Austrália, que tem uma liga muito bem estruturada, tem boa média de público e exposição na mídia apesar das limitações de estrutura”.

Atuação do Ministério do Esporte no beisebol

O Ministério do Esporte mantém o programa Bolsa Atleta, que contempla em torno de 350, 400 atletas do beisebol e softbol, somando um volume de R$ 5 milhões, o que atinge um terço dos atletas federados da modalidade. “Além do Bolsa Atleta, a gente tem um projeto pequeno de aproximadamente 200 mil reais relacionada a lei de incentivo ao esporte, no qual a gente faz a captação através das empresas que tem imposto de renda a pagar e um 1% desse valor é destinado ao nosso projeto. Esse valor é destinado para pagar os treinadores dos atletas do nosso CT”, disse Jorge Otsuka.

Investimento da MLB no Brasil

Durante seis anos, a MLB promoveu seletivas com jovens de 14 a 17 anos. Eram selecionados em torno de 40 jovens, que participavam de uma clínica com técnicos norte-americanos. Até olheiros de equipes profissionais estavam incluídos no projeto. Mas os resultados ficaram longe do esperado e o projeto acabou sendo modificado. Agora há uma nova tentativa, com o Academia MLB. ” É o mesmo centro de treinamento nosso e eles estão bancando o custo de 11 atletas de destaque e enviaram dois treinadores estrangeiros. Eles estão buscando um resultado em curto prazo e, dentro esses 11 atletas, a gente acredita que no meio do ano saiam dois ou três atletas contratados”, comentou Jorge Otsuka.

A MLB garante que pretende continuar incentivando o beisebol no Brasil, através da doação de materiais e a capacitação de profissionais. “A ideia é que eles possam usar essa academia como incentivo para jogar sonhando em entrar nesse programa, que terá os melhores jogadores amadores no Brasil. Vamos estar estudando como podemos ajudar diferentes iniciativas. A cada mês e a cada ano, estão aumentando de número de praticantes. É um momento muito empolgante para o beisebol brasileiro e estamos aqui para ajudar o esporte crescer ainda mais”, afirmou Caleb Santos Silva.

Além disso, a MLB – que pode ser vista como uma empresa com 30 investidores (número de equipes) – apoia principalmente projetos de ligas infantis, por exemplo, o “Base”, em Indaiatuba, que ensina o beisebol em escolas do ensino público. Com isso, a liga visa buscar expandir o esporte no país e conseguir novos talentos para possivelmente jogarem profissionalmente.