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Para manter Jesus em Lagoa Santa, Isaquias quer 1º pódio da canoagem

Em Mais Esportes, Olimpíadas 2016
Atualizado em 11/08/2015 - 09:04:04 Compartilhe
Bruno Ceccon - São Paulo , SP
Esperança para 2016, Isaquias perdeu um rim em acidente na infância. (Foto: Sergio Dutti/Divulgação)
Esperança de medalha em 2016, Isaquias Queiroz perdeu um rim em acidente na infância. (Foto: Sergio Dutti/Divulgação)

Uma parceria entre um espanhol e um baiano pode render a primeira medalha olímpica da história da canoagem brasileira nos Jogos do Rio de Janeiro 2016. Para manter o trabalho ao lado do técnico Jesus Morlan no município mineiro de Lagoa Santa, Isaquias Queiroz espera operar o milagre.

Pensando em terminar as Olimpíadas de 2016 entre os dez primeiros colocados pelo quesito número de medalhas, o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) aposta na contratação de técnicos estrangeiros, principalmente em modalidades com pouca tradição no País, como a canoagem.

Jesus fez parceria de sucesso com David Cal, maior medalhista olímpico do esporte espanhol, dono de quatro pratas e um ouro. Em 2013, com o país de origem em crise econômica, o técnico aceitou oferta para treinar a equipe brasileira no ciclo dos Jogos do Rio de Janeiro 2016.

A principal esperança na modalidade é o jovem Isaquias Queiroz, nascido em Ubaitaba, conhecida como “Cidade das Canoas”, às margens do Rio de Contas. Hoje com 21 anos, ele é o atual bicampeão mundial na categoria C1 500m (não olímpica) e tem bronzes na C1 1.000m (olímpica) e, com Erlon Souza, na C2 200m (não olímpica).

Metódico e exigente, Jesus Morlan condiciona sua permanência no Brasil após 2016 à conquista de uma medalha nos Jogos do Rio de Janeiro. A menos de um ano da competição, Isaquias Queiroz usa a promessa do treinador espanhol como motivação.

“O Jesus exerce um papel fundamental para a canoagem brasileira desde 2013. Como ele já disse, se no ano que vem não tiver medalha olímpica, não ficará no Brasil. Por isso, estou me empenhando ao máximo para conquistar uma e para que possamos dar continuidade no trabalho após os Jogos de 2016”, afirmou Isaquias.

O técnico Jesus Morlan deixou filha e e esposa na Colômbia para treinar o Brasil. (Foto: Divulgação)
A esposa e a filha do exigente treinador espanhol Jesus Morlan atualmente vivem na Colômbia. (Foto: Divulgação)

Pouco depois de chegar ao Brasil, insatisfeito com as condições encontradas na represa de Guarapiranga, então usada pela equipe nacional para treinamento, o exigente espanhol resolveu experimentar a raia olímpica da USP, espaço que também não agradou. Assim como as grandes distâncias e o trânsito de São Paulo.

Jesus Morlan não precisou fazer uma via-crúcis para encontrar o lugar ideal. Em busca de um local com condições semelhantes às da Lagoa Rodrigo de Freitas, sede da canoagem velocidade nas Olimpíadas 2016, o espanhol elegeu o pacato município de Lagoa Santa.

Frequentada pela equipe brasileira desde 2014, a cidade possui pouco mais de 50.000 habitantes. Recebeu esse nome porque a sua grande lagoa central, com mais de 6km de perímetro, teria poderes medicinais. Atualmente, Jesus Morlan, Isaquias Queiroz, Nivalter Santos, Ronilson Oliveira e Erlon Souza dividem uma casa no município.

“O lugar é bem tranquilo. Não tem o trânsito e a poluição das cidades grandes e o objetivo é que o foco seja apenas nos treinamentos. As condições são boas. Contamos com moradia, alimentação, academia e a lagoa está à nossa disposição”, contou Isaquias.

A lenda em torno da Lagoa Santa surgiu com aquele que seria o primeiro morador da região, o fazendeiro Felipe Rodrigues. Por volta de 1730, ele teria se curado de feridas crônicas no corpo apenas com mergulhos. Depois, usou a mesma receita contra uma surdez, e relatos como o dele começaram a se avolumar.

A Lagoa Santa, adotada pelo técnico Jesus Morlan, teria poderes medicinais. (Foto: Sergio Barzaghi/Gazeta Press)
Lagoa Santa, adotada pelo técnico espanhol Jesus Morlan, teria poderes medicinais. (Foto: Sergio Barzaghi/Gazeta Press)

Os moradores têm outras histórias para justificar as propriedades terapêuticas da lagoa. Há quem diga que existia uma igreja no local, engolida por uma enchente – quando o nível está baixo, alguns dizem enxergar a ponta de uma torre. A Coroa Portuguesa, curiosa, chegou a importar barris com amostras da água.

Isaquias (junção dos nomes bíblicos Isaac e Isaías) diverte-se quando questionado sobre a lenda que ronda o pacato município mineiro. “Acredito que treinando em Lagoa Santa, com o técnico Jesus, teremos forças religiosas para ganhar!”, brincou o atleta.

Em 2016, sob os olhares do Cristo Redentor, Isaquias brigará pela medalha na Lagoa Rodrigo de Freitas, sede que, assim como a Baía de Guanabara, está poluída. Ele frequentou o local na época em que vivia no Rio de Janeiro e relata não ter enfrentado maiores inconvenientes.

“Os atletas virão aos Jogos com o objetivo de competir e dar o melhor em busca das medalhas, independentemente da água poluída. Se alguém cair do barco, basta tomar um banho desinfetante. Agora, se beberem a água, podem vir a ter algum problema”, ponderou.

Nos recentes Jogos Pan-Americanos de Toronto, Isaquias, radicado em Lagoa Santa, mostrou estar bem preparado física e espiritualmente. O baiano conquistou a medalha de ouro na C1 1.000m e na C1 200m, além da prata na C2 1.000m em parceria com Erlon Souza.

ISAQUIAS BRILHA EM UBAITABA

A cidade baiana de Ubaitaba completou 82 anos de emancipação política no último dia 27 de julho. Ídolo local, Isaquias Queiroz subiu ao palco durante show do cantor Binho Alves e foi homenageado.

“É sempre bom voltar para a casa e ainda melhor quando a cidade, além de prestar uma homenagem pelos meus resultados, completa 82 anos de existência e 30 anos de canoagem. Eu também faço parte dessa história”, afirmou.

Localizada às margens do Rio de Contas, Ubaitaba tem tradição na canoagem. Isaquias Queiroz, atual campeão mundial e pan-americano, iniciou a carreira em um projeto social local.

Apesar do sucesso, Isaquias trata o evento realizado no Canadá apenas como uma escala. “Os Jogos Pan-Americanos de Toronto faziam parte do planejamento de competições para alcançar o objetivo principal da temporada, que é o Campeonato Mundial”, explicou.

A edição de 2015 do Mundial será realizada na cidade italiana de Milão entre os dias 19 e 23 de agosto. No ano passado, em Moscou, Isaquias Queiroz perdeu um lugar no pódio da C1 1.000m (prova olímpica) ao cair nos metros finais, algo em que ele procura nem pensar.

“O que aconteceu já ficou no passado. Agora o que importa é treinar bastante para competir bem nos grandes eventos que estão por vir”, declarou Isaquias, premiado nas duas últimas edições do Mundial, realizadas em Duisburg 2013 e Moscou 2014.

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