Portuguesa se planeja para virar clube-empresa e já conversa com três investidores

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(Foto: Acervo/Gazeta Press)

A Portuguesa tem o plano de nos próximos meses se tornar um clube-empresa e já conversa com três possíveis investidores. A tradicional equipe paulista busca deixar para trás os anos de afastamento da elite do futebol brasileiro e já se organiza internamente para aderir à SAF (Sociedade Anônima do Futebol).

Em entrevista exclusiva à Gazeta Esportiva, Antonio Carlos Castanheira, presidente da Portuguesa, falou como o clube está se organizando para essa nova etapa em sua história.

“Nosso interesse em virar clube-empresa é total. Total porque a Portuguesa chegou ao fundo do poço. O clube precisou chegar ao fundo do poço para tomar uma atitude", disse o presidente, que diz defender a modernização da Lusa desde 2015, quando ainda era vice de marketing do clube.

A Portuguesa se prepara para a disputa da Série A-2 do Campeonato Paulista. (Foto: Divulgação/Portuguesa)

Antes da Portuguesa aderir à SAF, é necessário fazer alguns ajustes, especialmente na área administrativa e jurídica. O clube já se movimenta para se organizar nesse sentido e atrair investidores.

“Nossa gestão se iniciou em 2020 e eu fiz a separação operacional administrativa e contábil. Tudo já está no CT, todos os departamentos: administrativo, financeiro, marketing, comunicação, jurídico, além do departamento de futebol e a parte médica. Tudo isso foi acomodado e a gente montou um centro administrativo no CT, até eu estarei lá com a minha sala. A gente vai começar a fazer um organograma diferenciado dos que já existiam aqui, muito ligado ao clube. Esse organograma deve começar a partir de janeiro. Feito isso, que é o primeiro passo, de reorganização administrativa e financeira, a gente vai para o segundo passo, o de segurança jurídica para fazer a separação do clube e do futebol", explicou.

"Essa segurança jurídica passa pelos acordos trabalhistas, que já fizemos, considerado um case no futebol brasileiro. Tivemos o apoio direto da diretoria jurídica da Federação Paulista. Nossa ideia é que a Portuguesa nunca mais tenha bloqueio patrimonial, nem de leilão de estádio, nem de receita."

O presidente Castanheira afirmou que o clube já conversa com três possíveis futuros investidores. Tudo isso ocorre em paralelo com a organização na esfera jurídica.

A torcida da Portuguesa segue acompanhando e incentivando o time. (Foto: Acervo/Gazeta Press)

Para ter o suporte da lei, a Lusa conta com a ajuda do advogado José Francisco Cimino Manssur, especialista em Direito Empresarial e Desportivo e um dos autores do Projeto de Lei do Clube-Empresa no Brasil.

Manssur, que também conversou com a reportagem, explicou as vantagens que a Portuguesa poderia ter aderindo à SAF.

"Hoje, como associação, você não pode receber investimentos que sejam decorrentes da compra de ações. Os investimentos que as associações recebem são de mecenas, gente que faz empréstimo de dinheiro, parcerias, mas que são instrumentos muito frágeis. E a gente já viu no caso da Portuguesa como não está sendo mais atraente para empresários colocar dinheiro na Lusa. Com a SAF, a gente fala para o mercado que agora eles podem comprar ações da Portuguesa, participar ativamente da gestão, dos conselhos, tendo acesso aos números, olhando como o dinheiro está sendo gasto, propondo orçamento, traçar planos… de modo que a gente atraia investidores", disse o advogado.

"A gente espera que a Portuguesa atraia pessoas que gostem da Lusa e tenham capacidade financeira para encarar o futebol do clube como um negócio. Negócio que tem que trazer resultados dentro do campo, porque assim vamos conseguir trazer resultados na parte financeira.  A gente quer que a Portuguesa ande com as próprias pernas, com um investidor que coloque recurso na sociedade anônima, cobre resultado e depois o clube devolva. Mesmo que nos primeiros anos o clube use o dinheiro para pagar dívidas e não ter lucro, mas que, de um determinado momento para frente, a Portuguesa entregue um resultado financeiro. A ideia é que o regaste se dê com segurança e objetivo, tirando o processo político da gestão e trazendo mais o processo empresarial", completou.

Djalma Santos atuou na Portuguesa de 1948 a 1959 e disputou 510 partidas pelo clube. (Foto: Acervo/Gazeta Press)

O presidente Castanheira falou sobre a aceitação do torcedor a respeito do novo projeto e respondeu se seria possível algum ídolo da Portuguesa investir no clube, como foi o caso de Ronaldo com o Cruzeiro.

“A gente conversa com muitos torcedores, hoje recebi alguns na sala da presidência. Todos entendem que a Portuguesa chegou ao fundo do poço pelo modelo varzeano e amador que o clube foi conduzido ao longo dos anos. Não podemos mais lidar com Conselho Deliberativo de mais de 350 pessoas, que sequer vem 50 aqui em dia de reunião. Essas pessoas não podem decidir o futuro da Portuguesa. Não podem colocar aqui qualquer presidente na cadeira da Portuguesa, vide as últimas administrações, que estão aí para todo mundo ver", discursou.

“O Cruzeiro teve o privilégio de ter um dos maiores jogadores da história do futebol, formado lá, que resolveu assumir essa operação. É um privilégio. Os grandes ídolos da Portuguesa, os que mais ganharam dinheiro, não fariam esse tipo de coisa pelo clube. Então, esse modelo do Cruzeiro, para nós, esquece." O mandatário disse que o exemplo do Botafogo se encaixaria mais com o que tenta a Lusa.

Além do plano da SAF, a ideia da Portuguesa é modernizar o espaço do Canindé, o que também ajudaria na atração de futuros investidores.

O estádio do Canindé foi inaugurado no dia 11 de novembro de 1956. (Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press)

O objetivo do presidente da Lusa é ter uma área que receba shows e eventos ao ar livre. A parte social e esportiva também seria reformulada, com ativação de quadras (tênis e society) e piscinas para os sócios.

O estádio, inaugurado em 1956, deve sofrer mudanças. A ideia passa por introduzir ao Canindé uma área coberta, tornando-o multiuso.

A Portuguesa é um dos clubes mais tradicionais de São Paulo. O time rubro-verde, que vai disputar o próximo Paulista da A-2, foi vice-campeão brasileiro em 1996, possui três títulos estaduais e conquistou a Série B em 2011. O clube contou com ídolos históricos, como Djalma Santos, Leivinha, Roberto Dinamite, Dener e Zé Roberto.

A partir do polêmico rebaixamento em 2013, o clube entrou em um novo momento na sua história e chegou a ficar sem divisão nacional para atuar. “Eu me tornei presidente da Portuguesa para trazer ela de volta ao cenário grande do futebol brasileiro. O que aconteceu no caso Héverton foi sim um divisor de águas. Foi o tiro de misericórdia. A Portuguesa estava no terceiro ano consecutivo no Campeonato Brasileiro, estava conseguindo respirar em um momento difícil depois da queda pra Série B e tiram a Portuguesa da primeira divisão daquela forma. Como você monta o time no ano seguinte sem saber se vai jogar a A ou B?", protestou o presidente.

Com a escalação irregular de Héverton, a Portuguesa acabou rebaixada em 2013. (Foto: Acervo/Gazeta Press)

"A gente até tirou nosso time de campo na estreia da B, em Joinville. Aí, vieram outras gestões, uma pior que outra, e não souberam lidar com essa situação. Da B para C, da C para D, foi tudo muito rápido, uma atrás da outra", complementou.

Quando o presidente Castanheira assumiu o clube, a dívida da Portuguesa era de R$ 480 milhões. Atualmente, o clube possui R$ 152 milhões de dívidas trabalhistas, R$ 130 milhões de civil e R$ 160 milhões de fiscal, de acordo com o próprio presidente.

A Lusa conta com mais de 70 ações pequenas com reduções de até 85% do valor da dívida trabalhista. Nesta próxima segunda-feira, o clube vai protocolar um acordo para a pendência civil e no meio do ano iniciará o planejamento do acordo para a questão fiscal.

Apesar dos momentos de turbulência, o mandatário comemora as conquistas recentes do clube, que chegou a vencer a Copa Paulista de 2020. "Viramos a chavinha dos últimos seis anos de brigar para não cair, o time só lutava para não cair. Nesses últimos quatro campeonatos, brigamos para subir o tempo todo, inclusive em um fomos campeões (Copa Paulista), que nos trouxe de novo para o futebol brasileiro", disse.

A Portuguesa perdeu a final do Brasileirão de 1996 para o Grêmio (Foto: Acervo/Gazeta Press)

"A Portuguesa tem nome, história, valor de marca, uma grande torcida ainda. Ela não é um time pequeno, é grande. Não é gigante como Corinthians e Flamengo, mas é grande, tem sua grandeza. Dá, sim, pra trazer ela de volta, com força", afirmou Castanheira.

Na última Série D, a Lusa liderou seu grupo na primeira fase, mas caiu para o Caxias no mata-mata, em disputa de pênaltis no Canindé.

Apesar da alta expectativa com a SAF, o advogado Manssur alerta que virar clube-empresa por si só não é garantia de sucesso. "A SAF tem uma vida paralela com a política do clube, acho que com tudo isso e com o trabalho do presidente, tenho muita esperança. A SAF não é uma varinha mágica, mas, alinhada com um bom trabalho, tenho certeza que será uma solução para a Portuguesa e para outros clubes na mesma situação ou até em pior. A SAF busca colocar os clubes em outra prateleira, em outro patamar", afirmou, esperançoso.

O primeiro jogo da Portuguesa no ano será contra o Volta Redonda, no dia 15 janeiro, em amistoso no Canindé. A estreia da equipe na A-2 será contra o Primavera, no dia 27, fora de casa.

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