Contra filho de talismã palmeirense, Cristaldo sonha marcar no Derby

Bruno Ceccon - São Paulo,SP

04-09-2015 09:00:22



“Ele não é titular do Palmeiras, mas sua presença é tão necessária e importante quanto a de um elemento considerado titular absoluto. O costume de entrar nas partidas mais difíceis e nos momentos cruciais fez com que se transformasse no jogador-esperança.” O texto, publicado pelo jornal A Gazeta Esportiva em 1975, descreve Antônio Carlos Fedato, histórico talismã alviverde, mas remete à situação de Jonatan Cristaldo.

Apesar da condição de reserva, o atacante argentino, responsável por 13 gols, divide a artilharia da temporada com Rafael Marques. Recuperado de lesão, ele deve começar no banco o clássico contra o Corinthians, time que atualmente emprega o fisiologista Antônio Carlos Fedato Filho. Na tarde do próximo domingo, Cristaldo espera mais uma vez justificar a fama de “jogador-esperança”, status alcançado pelo velho Fedato nos anos 1970.

“Já estou me sentindo bem e fico à disposição do treinador. Estou na expectativa. Quando tiver a chance de jogar, tenho que corresponder ao que o Palmeiras espera. Todo atleta sempre quer atuar bem e fazer gol nos clássicos. Tomara que domingo eu possa marcar, seria algo muito especial para mim”, afirmou o argentino à Gazeta Esportiva.net ao desembarcar em Guarulhos após a derrota diante do Goiás, partida em que não foi aproveitado.

Em uma briga acirrada, Cristaldo disputa a preferência do técnico Marcelo Oliveira com Alecsandro, Dudu, Gabriel Jesus, Kelvin, Lucas Barrios, Mouche e Rafael Marques – Leandro Pereira foi negociado recentemente com o Brugge, da Bélgica. Ele entrou em campo pela última vez em 19 de agosto, contra o Cruzeiro, pela Copa do Brasil, e não marca desde o dia 9 do mês passado, também diante da equipe mineira, mas pelo Brasileiro.

Autor de um gol no triunfo por 4 a 0 sobre o São Paulo, Cristaldo espera sair do banco para encerrar o jejum diante de outro rival, no melhor estilo Fedato. “Marcar em um clássico é muito importante”, disse o atacante, contente pela fama de talismã. “Qualquer jogador gostaria de ser querido pela torcida como eu sou. Fico grato por isso e espero poder continuar ajudando”, acrescentou o atleta, frequentemente pedido pelo público quando está na reserva.

Antônio Carlos Fedato não conseguiu ser titular, mas teve papel importante na Academia de Futebol. Formado nas categorias de base do Palmeiras, ele defendeu o clube de 1970 a 1975, período em que foi bicampeão paulista (1972 e 1974) e brasileiro (1972 e 1973). Com 269 jogos, é o sexto atacante que mais vestiu a camisa do Palmeiras, atrás apenas de Nei, Edu Bala, Heitor, César Maluco e Servílio. Terminou com 61 gols, à frente de Paulo Nunes, Luizão e Vagner Love.

“O time não vai bem, a solução é Fedato. Ele entra e marca. Na raça, na vontade, no peito. Não é um jogador de grandes recursos, tem em torno de si apenas o poder de decidir. O Palmeiras não está bem, empata ou perde, a torcida logo pede Fedato”, narrou o jornal A Gazeta Esportiva. “É bom a gente sentir que é necessário, embora não jogue todas as vezes. Sei perfeitamente o que fazer quando entro durante uma partida e procuro dar tudo”, dizia o jogador, lembrando o discurso de Cristaldo.

Nos tempos da Academia de Futebol, equipe liderada por Ademir da Guia, o talismã enfrentou concorrência altamente qualificada. Os contemporâneos César Maluco e Leivinha, por exemplo, foram convocados pelo técnico Zagallo para defender a Seleção Brasileira na Copa do Mundo da Alemanha 1974. Antônio Carlos Fedato Filho, atual fisiologista do Corinthians, guarda com orgulho recordações da carreira do pai, falecido em 2000, com apenas 51 anos.

O fisiologista Antônio Carlos Fedato Filho é filho do talismã da Academia. (Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press)
O fisiologista Antônio Carlos Fedato Filho é herdeiro do talismã da Academia. (Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press)

“Eu estou sempre pegando material sobre ele e vou arquivando. Tenho muita coisa em casa. Meu pai costumava contar que era bem complicado jogar naquele time, porque havia atletas de Seleção, com alto nível”, afirmou Fedato Filho, satisfeito pela comparação com Cristaldo. “Converso sobre futebol com os amigos e eles comentam que está parecido, porque também entra e faz gol. É legal a lembrança que o pessoal ainda tem do meu pai até hoje”, completou.

Contratado pelo Náutico, Fedato encerrou a carreira de jogador em Pernambuco e, nos anos 1980, teve passagens como técnico-tampão do Palmeiras. Do pai, formado em educação física, Fedato Filho herdou, além do nome, o gosto pelo esporte. Ele não chegou a tentar a carreira de atleta, mas permanece ligado ao futebol. Após passar pelo clube alviverde, o fisiologista trabalha desde 2011 no Corinthians e participou da série de títulos dos últimos anos, do Paulistão ao Mundial.

No Corinthians, o herdeiro do histórico talismã palmeirense tem contato frequente com o técnico Tite. Como fisiologista, Antônio Carlos Fedato Filho oferece informações detalhadas sobre as condições de cada atleta antes dos treinamentos e partidas, influenciando até mesmo na escalação da equipe. O treinador, experiente, costuma levar em conta os dados fornecidos, conta o profissional, formado em educação física e pós-graduado em fisiologia do exercício.

Foto: Acervo/Gazeta Press

"É IGUALZINHO", DIZ CÉSAR

"Eu e o Fedato fomos muito amigos, tínhamos uma relação de irmãos. Eu sempre falava: 'Quando faltar uns 20 minutos, você avisa.' O Fedato fazia o sinal do banco, eu pedia para sair e ele sempre entrava para fazer o seu gol. A presença do Fedato me deixava motivado. Sabia que, se vacilasse, havia um concorrente em condições de entrar e fazer gols. A gente não podia nem ficar machucado. O único que tinha lugar garantido era o Ademir da Guia. Existe jogador que rende mais se entra no segundo tempo e acaba resolvendo. O Cristaldo tem o mesmo estilo guerreiro do Fedato. É um excelente atacante, com uma visão de gol maravilhosa. Igualzinho ao Fedato. É o Fedato-Cristaldo."
César Maluco (180 gols e 324 jogos)

“O Tite é um treinador com conhecimento muito grande e busca todas as informações das distintas áreas dentro do clube. Ele valoriza bastante qualquer tipo de detalhe que ajude a ter uma leitura melhor de cada jogador. É um técnico que não fica com medo ou melindre de receber algum dado que não consiga entender. A gente sempre senta na sala dele para conversar sobre as condições dos atletas. É uma relação diária”, explicou.

Fedato Filho não acompanha os jogos do banco de reservas ao lado da comissão técnica corintiana, mas participa da preparação para as partidas com suplementação e hidratação aos jogadores. Minutos antes do final do primeiro tempo, ele desce para os vestiários e faz o mesmo durante o intervalo. Ao final dos confrontos, o fisiologista já inicia a coleta de dados dos atletas para planejar os treinamentos dos dias seguintes.

Às 16 horas (de Brasília) do próximo domingo, o herdeiro do antigo talismã da Academia de Futebol estará no reformado estádio Palestra Itália para o Derby pelo Campeonato Brasileiro. Se o Palmeiras conta com Jonatan Cristaldo, o novo “jogador-esperança”, o Corinthians terá os seus reservas na ponta dos cascos. “Todos vão estar 100% para o jogo. Não apenas os 11 titulares, mas também os atletas do banco”, avisou Fedato Filho.

Fedato (à esquerda) e Picerni foram companheiros nos aspirantes do Palmeiras. (Foto: Acervo/Gazeta Press)
Fedato (à esquerda) e Picerni foram companheiros nos aspirantes do Palmeiras. (Foto: Acervo/Gazeta Press)

FEDATO JOGOU XADREZ COM PICERNI ANTES DE DERBY DE 1984

Antônio Carlos Fedato, então técnico do Palmeiras, e Jair Picerni, à época no comando do Corinthians, disputaram uma partida de xadrez antes de um Derby da edição de 1984 do Campeonato Paulista. O jogo, realizado a convite do jornal A Gazeta Esportiva, terminou empatado.

"Durante cerca de 90 minutos, eles ficaram sérios, tensos, às vezes sorriram, um atento às reações do outro. Todos os gestos foram levados em consideração. Silêncio respeitoso na sala bem iluminada. Entre uma jogada e outra, Jair e Fedato trocaram ideias e provocações", diz o texto, intitulado "O duelo dos grandes mestres".

A matéria, publicada no dia 4 de novembro de 1984, cita Garry Kasparov e Anatoly Karpov, verdadeiros mestres do xadrez, e relata que a partida entre Rato e Porpeta, apelidos de Fedato e Picerni, terminou sem ganhador. Dentro de campo, o Corinthians aplicou o xeque-mate venceu o Palmeiras por 2 a 1.

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