Torcedor realiza sonho de crianças em vitória emocionante do Corinthians

Por Guilherme Serrano* - São Paulo,SP

22/02/19 | 16:31 - 25/02/19 | 08:33

Foto: arquivo pessoal

Há quem diga que a construção das novas arenas multiuso elitizam a torcida e afastam os torcedores mais pobres do estádio. Com preços muito elevados, o novo modelo acaba privilegiando os sócio-torcedores e fãs com melhor condição financeira, em detrimento daqueles que costumavam comparecer graças aos preços mais populares.

Na Arena Corinthians, por exemplo, local que tem por objetivo ser a casa do “Time do Povo”, algumas crianças que não têm condições de adquirir ingressos costumam ficar nos arredores do estádio, na expectativa de entrarem no jogo de alguma forma.

O empresário Alexandre Barros, de 40 anos, é torcedor fanático, e costuma observar isso de perto. Frequentador assíduo do estádio, o corintiano conta que ele e seu grupo de amigos sempre tentam ajudar os meninos, embora isso nem sempre seja possível.


“Nós temos um grupo que frequenta a esquina do setor sul, e quando sobra ingresso a gente sempre tenta colocar um dos meninos para dentro. Porque sempre tem uns garotos ali pedindo, na angústia de tentar um dia entrar na Arena...São casos particulares de cada um. Mas eles vão e tentam a sorte, né? Tentam estar em um dia inspirado. Eles vão com o espírito do próprio Corinthians, que não desiste”, explica.

Na última quarta-feira, o Corinthians recebeu o Avenida, do Rio Grande do Sul, pela segunda fase da Copa do Brasil. Como de costume, Alexandre foi ao estádio, e diante de um adversário de pouca tradição, esperava um jogo tranquilo. No entanto, a partida acabou por ser uma das emocionantes de sua vida. Dentro de campo e, principalmente, fora dele.

“Nesse dia eu acabei indo sozinho, e vi um desses meninos na chuva, debaixo do pé d’água que caía. Ele estava tentando se aproximar ali da lojinha, e a polícia, talvez entendendo que ele estava ali só para tumultuar, empregava um tratamento um pouco mais bruto”.

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Alexandre tinha três ingressos em mãos e entrou na loja oficial do clube para entregar um deles a seu amigo, quando acabou sendo abordado pelo garoto. Perguntado se sabia de alguém que estava dando entradas, o torcedor resolveu ajudar o menino e cedeu-lhe o bilhete que tinha a mais.

“Eu falei para ele vir comigo, pois tentaria colocá-lo para dentro. Estava ventando muito, e o garoto falou para mim que estava com frio. Ele estava tremendo. Aí eu fui lá dentro, comprei um moletom do Corinthians e dei para ele”.


Tensão fora de campo

Messias, de 12 anos, estava prestes a realizar seu sonho, mas havia deixado dois amigos para trás. Mikael, de 10 anos, e Miguel, de 11, entraram na loja, viram o companheiro naquela situação e perguntaram se ele ia deixá-los sozinhos. Alexandre, então resolveu agir.

Restavam poucos minutos para o início da partida, mas a bilheteria ainda estava aberta. O torcedor então comprou mais dois ingressos e partiu com Messias, Mikael e Miguel para a fila de entrada. No entanto, havia um problema: menores de idade só podem adentrar o estádio com um responsável legal ou com alguma autorização formal.


Alexandre tentou argumentar com os policiais na entrada do estádio, mas os meninos sequer estavam com documentos, e acabaram sendo barrados. Nesse momento, já com 10 minutos de bola rolando, a tensão não era apenas fora de campo. Isso porque o Corinthians já perdia por 2 a 0, e a classificação ficava um pouco mais distante.

“Eu pensei ‘se ainda estiver vendendo ingresso, eu vou comprar!’ Então eu arrisquei. Na hora que a polícia falou que não ia dar para entrar eu fiquei muito triste, mas ainda tentei uma última cartada”.

Alexandre então procurou um funcionário do clube, e nitidamente emocionado, acabou comovendo a segurança e conseguindo a liberação após tirar xerox do seu RG e assinar um termo de compromisso.

Eu só fui uma peça chave para que eles continuem buscando o sonho deles. Eu segui um pouco o meu coração e a coisa aconteceu.

Resultado adverso

Já dentro do estádio, o problema era outro. Depois da tensão para conseguir colocar Messias, Mikael e Miguel para dentro, a preocupação agora era o Corinthians, que perdia de 2 a 0 para um adversário pouco expressivo.

O Timão precisava da vitória para avançar, e um empate levava a decisão para os pênaltis. Mas, para os meninos, a parada não era lá tão difícil. Depois de verem os seus sonhos serem realizados, acreditavam que a vitória era questão de tempo.

“Não, tio, vai dar Corinthians. Vamos virar! ”, disse um deles. E assim foi.

Sonho realizado e Corinthians classificado

Aos 45 minutos do primeiro tempo, Henrique diminuiu para o Alvinegro. Na segunda etapa, Danilo Avelar empatou, Júnior Urso virou, e Gustagol, nos acréscimos, fechou em 4 a 2. Um gol para cada um dos corintianos que dividiam ali uma noite inesquecível. “Você é o melhor tio do mundo”, agradeciam os garotos.

O sonho de Messias, Mikael e Miguel, porém, ainda não tinha acabado. Antes de levar os garotos até a estação de metrô, Alexandre ainda proporcionou mais surpresas.

“Na saída, como eu tinha comprado a blusa só para um, decidi comprar algo para os outros dois. Mas quando olhei, um deles estava com o chinelo rasgado pela metade. Olhei para os outros, estavam todos com chinelos estourados, então comprei um chinelo para cada um. Além dos copos da partida, como recordação”.

O torcedor, todavia, não vai parar por aí. Ele está em contato com as famílias dos meninos, e deseja fazê-los ainda mais felizes.

“Agora eu estou tentando ver com o Corinthians para a gente dar de presente uma entrada deles em campo, conhecer o museu, fazer o tour. Alguma coisa nesse sentido”

Por fim, Alexandre ainda deu um conselho para os meninos, e os ensinou algo essencial para todo torcedor: não desistir nunca. Tanto dentro quanto fora de campo.

Não desistam nunca dos sonhos de vocês, porque a vida é assim. É igual ao Corinthians: às vezes parece que não vai dar, mas a gente vai lá e ganha.

Alexandre Barros relata a emoção

 

*Especial para a Gazeta Esportiva

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