Sidcley relata perrengues na Ucrânia, lembra título e não descarta volta ao Corinthians

Tiago Salazar - São Paulo,SP

08-04-2019 09:00:06

Sidcley Ferreira Pereira, ou apenas Sidcley para o futebol, é de Vila Velha, no Espírito Santo, e hoje vive em Kiev, famosa cidade da Ucrânia, onde fica a sede do Dínamo, seu atual clube. Perto de completar 26 anos (faz aniversário em 13 de maio), o lateral esquerdo está passando por uma experiência nova e inusitada.

Nessa entrevista exclusiva à Gazeta Esportiva, Sidcley lembrou, com detalhes, o título do Campeonato Paulista conquistado com a camisa do Corinthians em pleno Allianz Parque, em cima do Palmeiras.

Aliás, Sidcley não escondeu que voltar ao Brasil é um desejo, e relatou como é viver em um país de cultura tão diferente da de sua terra natal e superar as dificuldades de um estrangeiro ainda em fase de adaptação para conseguir sobreviver profissionalmente.

O lateral também prometeu que ficará acordado até às 2 horas (a diferença é de 6h em relação a Brasília) da madrugada para torcer pelo seu ex-clube na semifinal contra o Santos, com direito a palpite para o clássico. Danilo Avelar e Guilherme Arana foram outros temas abordados na entrevista por telefone.

Breve histórico
Sidcley chegou ao Corinthians por empréstimo, com passe fixado em R$ 13 milhões. Ele se apresentou em março e saiu em julho do ano passado. O clube paulista ainda embolsou R$ 2 milhões dos R$ 20 milhões recebidos pelo Atlético-PR na aquisição do Dínamo de Kiev devido a taxa de vitrine. Seu contrato com os ucranianos vale por cinco temporadas.

Pelo Corinthians, Sidcley fez 28 jogos, marcou três gols e se consagrou campeão estadual. No Dínamo, foram 17 partidas, com direito a dois gols, em 11 vitórias e seis derrotas.

Leia a entrevista exclusiva com Sidcley:

Como é a vida na Ucrânia? Já se acostumou?
“Sou bem tranquilo. É bom de morar, f... é a língua. A família toda aqui agora, para eles é mais difícil ainda, porque eles não sabem falar nem inglês nem russo, só fica no tradutor.

Mas a vida é tranquila, depois do jogo não tem aquela pressão, dá para sair, ir no restaurante. Os torcedores são fanáticos, mas não fazem essas besteiras que no Brasil se faz”.

Sidcley tem contrato de cinco anos com o Dínamo de Kiev (Foto: Divulgação/DK)

E do que você sente mais falta aqui do Brasil?
“Minha filha! Ela está longe de mim, vi agora no Natal, no Ano Novo, mas ficar longe da minha filha é complicado. Ela é muito nova para ficar viajando, acabo ficando pouco, sabe como é a saudade”.

*Ana Clara vive em Curitiba com a mãe, fará três anos em julho e é fruto de um relacionamento que durou quatro anos. Ela passa as férias com Sidcley.

Quem está morando você agora?
“Minha mãe, meu padrasto, minha irmã e minha namorada. Eles estão há um mês só.

E ficam até quando?
Até a próxima janela (de transferências).

E no campo, é muito diferente de trabalhar no Brasil?
“Aqui é meio complicado, porque a gente não entende muito a língua e não sabe o que está acontecendo no ambiente, você fica meio perdido, não sabe se vai jogar, se gostam de você... Ano passado terminei jogando, esse ano nem entrei na Liga Europa, aí contra o Chelsea fui titular”.

Mas não tem tradutor no clube?
“Eu falo lá com o tradutor, mas sei lá o que ele está traduzindo. Você fala para ele falar uma coisa e vem outra” (risos).

Sidcley foi contratado para suprir a saída de Arana e a má fase de Capixaba (Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press)

Como você faz para entender o que o técnico quer no jogo?
“Aí é fácil, porque tem a folhinha lá e o tradutor traduz, mas pelo tom da voz do cara você vai conhecendo o cara melhor”.

*Nem sempre há um tradutor que fale português. Em dias de jogos, por exemplo, o tradutor fala em espanhol com Sidcley.

Antes de fechar com o Dínamo você buscou informações?
“Eu perguntei para o Maycon (volante ex-Corinthians), que jogou comigo, e ele falou que era legal, cidade boa, f... era a língua. Eu pensei: isso a gente dá um jeito” (risos).

A sua saída do Corinthians pegou muita gente de surpresa, né?
“Até a mim (risos). Fiquei sabendo em um dia e no outro dia tinha que ir embora. Eu falei: ‘não, vou ver minha filha, me dê dois dias’. Fui para Curtitiba. Estava voltando do treino, no trânsito e tinha ido minha família toda lá para conhecer São Paulo. Eles chegaram e eu estava indo embora” (risos).

Ficou sabendo de alguma procura para você voltar?
“Me ligar, para falar comigo, ninguém. Agora, não sei com meus empresários. Para mim não passaram nada, só que tinham interesses de alguns clubes do Brasil, mas não falaram nome”.

Com a camisa do Corinthians, foram três gols marcados (Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press)

Mas você tem vontade de voltar?
“Vontade a gente sempre tem. Brasileiro gosta do Brasil, mas não sei se agora ou depois, deixo na mão de Deus”.

Muitos torcedores lembraram de você na última janela. Ficou sabendo?
“Você tem que ver meu Instagram como ficou: ‘volta, volta’. Não parou, mas procurar mesmo ninguém procurou, não”.

Você é muito amigo do Danilo Avelar, que chegou para suprir sua saída, certo? Soube das dificuldades que ele enfrentou até se formar por aqui?
“Soube, sim. Ele é um grande amigo. Mas é normal. Está pensando que é fácil vir de fora, chegar no Brasil e dar conta do recado? Tem gente que precisa de um processo, mas agora ele está bem, está dando certo, está fazendo gol importante”.

Quando você chegou ao Corinthians lembra de ter sentido alguma pressão extra? O torcedor ainda tinha o Guilherme Arana na cabeça e estava bem irritado com o Juninho Capixaba.
“A gente trabalha para isso, para estar jogando. Quando eu fiquei sabendo, falei ‘vou dar meu máximo. Não quero sair do time, não’. Eu estava para ir para o jogo (ainda no Atlético-PR). Se eu jogasse eu não ia poder jogar a Copa do Brasil (pelo Corinthians). Chegou a informação no vestiário: ‘Não joga, não, que você vai amanhã para o Corinthians’. Eu estava de roupa, para aquecer. É o sonho de todo jogador jogar no Corinthians, eu expliquei lá e eles me liberaram”.

Nessa segunda, o título paulista de 2018 completa 1 ano. É uma conquista que vai ficar para sempre marcada na memória do corintiano por todas as circunstâncias. O que mais te marcou naquele jogo contra o Palmeiras?
“Até me arrepiei agora. É f..., porque desde que eu cheguei no Corinthians vinha falando que eu ia fazer história ali dentro, e para alguns pode ser só um Paulista, mas para mim foi importante. Um clube que eu sempre sonhei em jogar, joguei e fiz história, ganhamos dentro do Palmeiras. Vai sempre ser lembrado e o meu nome escrito”.

Tem algum lance da partida que você pensa até hoje?
“Depois que eu perdi aquele gol no finalzinho... bati chapado e foi para fora, fiquei pensando: ‘Por que não entrou e já acabava logo’ (risos). Mas, graças a Deus, o título veio depois”.

Teve algo de diferente no jogo de ida que justifique a atuação do Corinthians tão abaixo?
“Nós trabalhamos, sabíamos como o Palmeiras ia vir, o Carille passou para a gente, mas tem dia que não dá certo, tem dia que você tenta e não vai. Quem já jogou sabe como é. Demos nosso máximo, corremos o que tinha de correr. Era o dia do Palmeiras. Lutamos, tivemos chance boa para empatar, mas, a bola não entrou”.

Muita gente não acreditava na virada dentro do Allianz Parque...
“Todo mundo falava que não íamos conseguir, mas treinamos, vimos os vídeos, para chegar lá dentro, fazer o gol no começo e sair no contra-ataque. Conseguimos fazer em jogada minha, com Rodriguinho e o Mateus Vital, e aí a gente entrou no jogo”.


Vai assistir Santos x Corinthians?
Vou, sim. Que horas vai ser?

Às 2 horas aí na Ucrânia.
Ah, mas dá para fazer um esforço. Vou assistir, sim.

E o que você espera?
“Espero que o Corinthians entre focado. O Santos está evoluindo bastante, no Paulista a gente sabe como está forte o Santos, mas, focado do jeito que o Corinthians joga é aproveitar a oportunidade. Vai sair com a vitória no Pacaembu. Vou dar meu palpite: 1 a 0. A cara do Corinthians (risos)”.


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