Incentivador do fair play perdoa a violência corintiana, mas não a torcida

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Tite perdeu algumas de suas marcas durante o seu ano sabático. O novo Corinthians do treinador é agressivo – com e sem a bola nos pés. Foram oito gols marcados e três expulsões contabilizadas nas três primeiras partidas oficiais de 2015. Os números contrastam com o passado de um comandante que já brincava com o termo “empatite” e falava com orgulho sobre a disciplina de seus jogadores.

O bom comportamento do antigo Corinthians rendeu até premiações. Em 2010, ainda sob a direção de Mano Menezes, o clube ganhou pela primeira vez o Troféu Fair Play do Campeonato Paulista, oferecido pelo Panathlon Club São Paulo em parceria com a Federação Paulista de Futebol (FPF) desde 1995. Com Tite, a conquista se repetiu em 2011 e em 2013. E só não ocorreu outra vez no ano passado porque o time de Mano acabou derrotado no critério de desempate (levou um cartão vermelho a mais) pelo Audax.

Guerrero, Fábio Santos e Cássio escancararam uma nova faceta do Corinthians em 2015

Guerrero, Fábio Santos e Cássio escancararam uma nova faceta do Corinthians em 2015 - Credito: Montagem sobre fotos Gazeta Press

“As vitórias de 2010, 2011 e 2013 e a brilhante participação em 2014 vão muito em favor da imagem da equipe e não do clube, pois sua torcida é exatamente o antônimo do fair play”, criticou o jornalista Henrique Nicolini, fundador do Panathlon no Brasil e membro de honra do Panathlon Internacional, com a propriedade de quem possui a Ordem do Mérito Esportivo, conferida pela Presidência da República, e o diploma de “Uma vida pelo esporte ético”, do Comitê Internacional do Fair Play do Comitê Olímpico Internacional (COI).

Embora não perdoe os atos de violências de alguns torcedores do Corinthians – no clássico contra o Palmeiras, por exemplo, houve um princípio de briga e vandalismo no setor visitante do Palestra Itália –, Nicolini ainda releva a mudança de postura da equipe de Tite. O jornalista não se deixou levar pelos cartões vermelhos mostrados ao centroavante Paolo Guerrero e ao lateral esquerdo Fábio Santos contra o colombiano Once Caldas, pela Libertadores, e ao goleiro Cássio diante do Palmeiras, no Campeonato Paulista.

“O número de expulsões contra o Once Caldas é simplesmente uma reação a um time que apelou para a violência para tentar vencer o Corinthians. Esse é um instrumento usado com frequência por clubes do exterior, especificamente da América Latina”, argumentou Nicolini. “O caso diante do Palmeiras é uma simples exceção da regra de um Corinthians disciplinado. A polêmica que precedeu o jogo – da torcida única – criou uma situação anômala, que acreditamos que não vai se repetir ao longo do campeonato. Estamos agora somente na terceira rodada, e muita água vai rolar até o final do certame”, acrescentou.

Com a sombra de ter valorizado o jogo limpo no passado, Tite ainda é candidato à conquista do Troféu Fair Play

Com a sombra de ter valorizado o jogo limpo no passado, Tite ainda é candidato à conquista do Troféu Fair Play - Credito: Djalma Vassão/Gazeta Press

Seja como for, Tite está preocupado com o mau comportamento corintiano. “Chega de ter jogadores expulsos. Chega! Precisamos ser mais inteligentes, estando o árbitro certo ou errado”, cobrou o técnico, para quem Guerrero e Fábio Santos fizeram jus às expulsões em Itaquera – o peruano por “dar oportunidade” na disputa pelo alto com Pérez e o lateral porque “poderia ter machucado” Arango ao cometer uma falta mais dura. Já as desculpas de Cássio por retardar o jogo com o Palmeiras foram aceitas. “Independentemente disso, não podemos oferecer a interpretação de que estamos desafiando o árbitro”, advertiu.

O discurso do líder do Corinthians soa bem para Henrique Nicolini. “A ação do técnico Tite tem se destacado nas premiações dos últimos tempos do Troféu Fair Play. É um técnico que não utiliza a violência para sobrepujar os adversários”, elogiou. “Uma coisa é a vitória na técnica, ser campeão por ser mais eficiente do que os demais. Outra é ser vencedor no fair play, que está na essência do esporte. O ideal é ter o slogan do Santos há mais de três décadas: campeão da técnica e da disciplina”, indicou.

Por enquanto, o Corinthians de Tite tem se destacado tecnicamente no Campeonato Paulista, mas se distanciou do título da disciplina. Instituído por sugestão de Moacyr Brondi Daiuto, com a intenção de promover uma das bandeiras do Panathlon em todo o mundo, o Troféu Fair Play tira um ponto para cada cartão amarelo recebido por uma equipe na fase classificatória do Campeonato Paulista e três no caso de vermelho. “Se o Tite impuser sua condição de disciplinador, continuará sendo um forte candidato à vitória e a receber mais uma vez o diploma de fair play”, confiou Nicolini.

Para Henrique Nicolini, incentivador do fair play, a torcida poderá se inspirar em um Corinthians disciplinado

Para Henrique Nicolini, incentivador do fair play, a torcida poderá se inspirar em um Corinthians disciplinado - Credito: Montagem sobre fotos Gazeta Press

Com a devida divulgação da conquista de um eventual tetracampeonato corintiano no Troféu Fair Play, Henrique Nicolini acha que até a torcida teria um incentivo para também se tornar sinônimo de jogo limpo. “Poderíamos contribuir ainda mais com a valorização da ética do esporte se os meios dessem maior visibilidade à iniciativa, passando o exemplo de Tite para a arquibancada. Daí a violência seria reprovada pelos torcedores, os jogadores agressivos não seria mais endeusados e os clubes passariam a considerar ser campeão paulista da disciplina tão importante quanto ser campeão da técnica”, vislumbrou.

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