Cristian Oliveira é pai, marido, pastor, escritor e professor de hermenêutica. No dia 31 de dezembro, porém, ele será um dos milhares de participantes entusiasmados na Corrida Internacional de São Silvestre, mais tradicional prova de rua da América Latina. No entanto, sua história revela uma relação de vida com o esporte.
A vontade de correr veio em 2011, quando iniciou os treinos com caminhadas e, em pouco tempo, já estava correndo nas ruas da cidade visando mais saúde.
“Comecei a ganhar peso e, nas minhas atividades diárias, comecei a perceber mais cansaço fazendo o que eu sempre fazia. Fui ler sobre e decidi começar algum tipo de atividade física. Conversei com meu médico e ele recomendou fazer caminhada três vezes por semana. Comecei com a caminhada, depois passei a correr um quilômetro, depois dois e passei a ganhar gosto pela coisa”, relatou Cristian.
Com o tempo, o que era apenas uma atividade, passou a se tornar uma paixão e, com a ajuda de um amigo mais experiente no esporte, vieram as primeiras competições.
“Descobri na igreja onde sou pastor um rapaz que gostava de correr e comecei a treinar com ele”, contou. “Um dia ele falou para mim: ‘Esse ano eu vou fazer a São Silvestre, porque quem corre tem que fazer a São Silvestre, é a cereja do bolo de todo corredor’. E eu falei ‘Mas a São Silvestre? Aquela que passa na TV?’. E eu fiquei impressionado com a possibilidade de correr uma”, comentou sobre a corrida que já havia conhecido.
“Em 2016 eu passei a ouvir sobre a São Silvestre e comecei a me preparar. Em 2017, já iniciei o ano de olho nas inscrições”, relatou.
O diagnóstico
No entanto, o sonho da primeira São Silvestre em 2017 precisou ser deixado de lado. Em meio à sua preparação e pouco antes de poder se inscrever na corrida, Cristian descobriu um tumor maligno de nível 4 no reto.
Com a descoberta da doença gravíssima, o pastor trocou as corridas pela rádio e quimioterapia. Após o diagnóstico no dia 2 de agosto de 2017, foram cinco cirurgias, cateter no peito para realizar o tratamento, bolsa de colostomia por quase um ano e cerca de 20kg perdidos. Além disso, a distância do esporte foi uma barreira a ser superada.
“Fiquei por mais de um ano e meio sem escorrer uma gota de suor, para um corredor isso é uma tragédia”, contou Cristian. “A pessoa quando ouve o diagnóstico do câncer é quase uma sentença de morte. Em alguns momentos do meu tratamento, eu pensei que eu não iria me recuperar e que eu iria até morrer, porque foi muito duro meu tratamento”, relatou.
Para Cristian, porém, correr a São Silvestre e recuperar a oportunidade perdida em 2017 foi um fator de motivação para superar o câncer. “Em outros dias eu pensava: ‘Ainda vou conseguir correr uma São Silvestre’”, disse.
Um sonho possível
O tratamento foi bem-sucedido e, em maio de 2018, o corredor se preparava para suas últimas sessões de quimioterapia. Foi aí que uma dúvida surgiu, envolvendo a possibilidade de, enfim, concluir o objetivo que fora deixado de lado no ano anterior.
“Eu usava um cateter no peito para poder receber medicação e o médico não tiraria meu cateter até o final de 2018. Eu perguntei se poderia correr com o cateter e ele disse que eu poderia tentar, mas que só me liberaria para treinar em outubro”, relatou Crisitian.
Mais de um ano parado, sem poder correr e sem suar, o pastor decidiu tentar.
“A primeira São Silvestre que eu corri, em 2018, foi com o cateter no peito. Foi uma experiência fantástica, porque foi ali que eu vi que eu estava voltando a ser quem eu era. A São Silvestre provou para mim que eu estava voltando. Eu ainda estava abaixo do meu peso, me recuperando, mas consegui fazer. Foi um marco para mim”, contou.
“Indescritível. Marcou a minha volta e foi extraordinária e eu propus nunca mais perder uma São Silvestre”, disse o corredor que participou das edições seguintes, em 2019 e 2021 (a corrida de 2020 foi cancelada devido à pandemia de covid-19).
“Tem sido indescritível a cada ano. Não foi só a primeira, foi na segunda, na terceira e espero que seja agora de novo”, concluiu.
A história de Cristian virou livro em 2020, quando ele publicou sua obra “Pronto Para Viver”. O livro foi escrito durante o tratamento e compartilha suas histórias durante o período, trazendo dificuldades enfrentadas e suas maneiras de superá-las.
Corrida em família
Em 2022, os 15km percorridos pelas ruas de São Paulo serão ainda mais especiais para Cristian. Além de manter a promessa desde sua recuperação, será o primeiro ano em que ele correrá ao lado de sua filha.
“As minhas filhas passaram comigo esse processo e a minha filha mais velha começou a correr se inspirando na minha história, o que me deixa muito feliz, porque a gente quer tocar o coração de quem está mais perto da gente”
“Ela disse para eu fazer a inscrição porque ela queria correr a São Silvestre comigo. Eu fiz e esse ano vou ter a satisfação de correr com ela, que vem me pedindo dicas e está preparada para correr”.
Como de costume, a São Silvestre de 2022 será disputada no dia 31 de dezembro, com largadas a partir das 7h25 (de Brasília).