*Por Alexandre Ribeiro e André Raucci
Símbolo da cultura da Nova Zelândia e uma das tradições mais marcantes do rugby mundial, o haka foi um dos momentos mais aguardados pelo público presente no Estádio do Pacaembu. A famosa dança de origem indígena antecedeu o amistoso entre a Seleção Brasileira e o Classics New Zealand, equipe formada por ídolos neozelandeses, realizado no último sábado.
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Para Hosea Gear, um dos líderes do grupo e campeão mundial de rugby pela Nova Zelândia em 2011, o haka carrega um peso histórico que vai muito além do esporte.
"É obviamente algo único e especial para a Nova Zelândia e poder executá-lo aqui no Brasil, contra o Brasil, é especial para nós", afirmou o ex-jogador em entrevista exclusiva à Gazeta Esportiva.
O que é o haka?
O haka é uma dança tradicional de origem maori, povo indígena da Nova Zelândia, marcada por movimentos vigorosos, batidas fortes dos pés no chão, gritos ritmados e expressões faciais intensas.
Historicamente, era executado pelos guerreiros maoris antes de entrar em combate, para intimidar o adversário e, ao mesmo tempo, unir e preparar psicologicamente o próprio grupo para a batalha.
Com o tempo, o gesto se transformou em símbolo da identidade cultural neozelandesa e passou a ser incorporado ao esporte, popularizado mundialmente pelos All Blacks, que o executam diante do adversário antes de cada partida.
Foto: Gabriel Avino
Tipos de haka
O Ka Mate, executado pelos Classics no Pacaembu, é a variação mais famosa. Composto na década de 1820 pelo chefe Te Rauparaha, líder da tribo Ngati Toa, a história por trás da dança remonta a uma perseguição: fugindo de inimigos havia semanas, Te Rauparaha buscou proteção do chefe Te Wharerangi, temendo que sua morte significasse o fim de seu próprio povo.
Escondido em um buraco enquanto os perseguidores se aproximavam, ele murmurava: "Ka mate! Ka mate!" ("Eu morro! Eu morro!"). Ao perceber que tinha enganado os inimigos, em seguida sussurrava: "Ka ora! Ka ora!" ("Eu vivo! Eu vivo!").
Hosea Gear (ao centro) é um dos sete campeões mundiais que estiveram presentes no Pacaembu. Foto: Gabriel Avino.
O também neozelandês Hoani Matenga reforçou o significado simbólico do ritual. Para o país, o haka é uma demonstração de respeito antes de enfrentar um grande adversário.
"Quando fazemos isso antes de uma partida esportiva, antes de uma partida de rugby, é um sinal de respeito. É lançar o desafio para o adversário. Então é dizer que estamos aqui, respeitamos vocês, mas é também um grande desafio. É preciso estar preparado e é muito sobre respeito", disse.
"Jogamos duro, mas, depois do jogo, mostramos amor também. Então, tem toda uma história por trás disso", afirmou Matenga.
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O brasileiro que fez história ao lado do Classics New Zealand
Um dos momentos mais emocionantes da preparação para o jogo veio de João Luiz “Ige”, convidado para integrar os Classics da Nova Zelândia, algo inédito para um brasileiro - ele é recordista em partidas pela Seleção Brasileira (72).
Defendendo a seleção neozelandesa, Ige teve pela frente um adversário especial: o próprio filho, Francisco das Ros, capitão da seleção juvenil e estreante pela equipe principal do Brasil.
"Fazer o haka era algo que eu jamais imaginei viver. Receber o convite de um time da Nova Zelândia para vestir a camisa deles e representar não apenas o time, mas também a sua cultura, por si só, já seria algo impossível de explicar. Mas, fazer isso de frente para o meu filho não tem explicação", afirmou Ige.
Ige é o primeiro brasileiro da história a atuar com os New Zealand Classics. Foto: @gubba.arw / Brasil Rugby
Já Hosea Gear, questionado sobre o desempenho do brasileiro na dança, foi generoso. "Se você esquecer as palavras, tudo bem. Só precisa deixar sair o que está sentindo por dentro, seja gritando, seja berrando. O mais importante é que você se expresse", declarou.
A seleção masculina do Brasil nunca participou de uma edição de Mundial - ao contrário das Yaras, que disputaram sua primeira Copa do Mundo em 2025. Por conta disso, para os "Tupis" o confronto diante dos neozelandeses, apesar de amistoso, simbolizou um grande momento para o rugby nacional. Ao final, a seleção de ídolos dos All Blacks superou os brasileiros por 62 a 35.
Para Ige, a despeito do placar, a sensação no final do dia foi de vitória. "Um privilégio enorme, uma emoção que vou levar comigo para o resto da vida. Foi um sonho viver isso. E, acima de tudo, foi um privilégio gigante poder viver esse momento ao lado do meu filho", concluiu.