Atletismo/São Silvestre

Corredor cego e guia celebram inclusão na Corrida de São Silvestre

Bruno Ceccon - São Paulo, SP - Brasil
12/12/2014 10:00:19

Em: Atletismo, Corrida Internacional de São Silvestre, Mais Esportes

A corrida de rua, modalidade essencialmente individual, vira parceria para os deficientes visuais. Há sete anos juntos, o competidor Valdelício Pinheiro e o guia Genesi Cavalcante celebram a inclusão na Corrida Internacional de São Silvestre.

A prova tradicionalmente disputada pelas ruas de São Paulo no último dia do ano contará com um total de 30 mil corredores em 2014. Criada pelo jornalista Cásper Líbero em 1924, a corrida hoje oferece uma série de categorias para deficientes (visuais, físicos, intelectuais e auditivos).

“A participação dos deficientes em provas de rua é importante do ponto de vista da inclusão dessas pessoas na sociedade, para que todos vejam que temos limitações, mas que elas não nos impedem de praticar esporte”, disse Valdelício, mais conhecido como Val.

O esporte paralímpico brasileiro está em franca evolução e terminou os Jogos de Londres 2012 na sétima colocação do quadro de medalhas (21 ouros, 14 pratas e oito bronzes). No Rio de Janeiro 2016, o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) espera alcançar o quinto lugar.

Na Corrida Internacional de São Silvestre, os deficientes largam às 6h55 (de Brasília), em um pelotão único, enquanto os atletas da categorial geral (masculino e feminino) partem às 9 horas. A medida da organização é elogiada por Genesi Cavalcante, o Barba.

“Fazer a largada dos deficientes com antecedência é uma iniciativa excelente, porque a gente pode correr despreocupado e com segurança. Em alguma provas, temos que largar 30 segundos antes do pelotão geral, o que acaba sendo muito perigoso”, explicou Genesi.

Valdelício (à esquerda), mais conhedico como Val, e Genesi, o Barba, treinam no Parque da Independendência
Valdelício (à esquerda), mais conhedico como Val, e Genesi, o Barba, treinam no Parque da Independendência – Credito: Fernando Dantas/Gazeta Press
Valdelício ficou cego aos 10 anos em consequência de um glaucoma. O regulamento da São Silvestre determina que todos os deficientes visuais, independentemente do grau, corram acompanhados por guia e unidos por um cordão de no máximo 50cm de comprimento.

“O importante na relação entre o deficiente e o guia é a confiança mútua. Isso só vem com o tempo. Como vamos completar sete anos de treinamento e corrida juntos, nossa parceria virou algo agradável. Um confia no outro e respeita o limite do outro”, contou Val.

Aos 61 anos, o aposentado Genesi atua como guia de maneira voluntária há 13 anos e mantém um arquivo detalhado de sua participação em corridas. Segundo os dados reunidos em um caderno, escrito de próprio punho, a São Silvestre será a 199ª prova ao lado do amigo Val.

Durante o percurso, Genesi fala constantemente com o corredor. Além de controlar o ritmo no cronômetro, o guia avisa com antecedência as mudanças do percurso (curvas, subidas e descidas, por exemplo) e alerta sobre eventuais obstáculos, como piso irregular, lombadas e valetas.

A confiança mútua entre o corredor e o guia é fundamental na categoria de deficientes visuais da São Silvestre
A confiança mútua entre o corredor e o guia é fundamental na categoria de deficientes visuais da São Silvestre – Credito: Fernando Dantas/Gazeta Press
Em alguns momentos, é necessário interagir com outros competidores. “Minha preocupação maior é com o povão. Para evitar qualquer imprevisto, eu grito: ‘Abre, estou com deficiente’. Hoje em dia, a maioria dos atletas corre ouvindo música no fone de ouvido, o que nos atrapalha”, contou Genesi.

Val iniciou a carreira no ano de 1993, em provas de pista. Nos Jogos Pan-americanos de Cegos 2001, disputados nos Estados Unidos, ganhou a prata nos 10 mil metros e o bronze nos 5 mil. Hoje com 49 anos, participa apenas de corridas de rua e trabalha como auxiliar de apoio à pesquisa científica.

Sem a visão, Valdelício usa os sons e a experiência para se orientar. “A audição é fundamental não só para ouvir as orientações do guia, mas também para escutar as passadas dos outros corredores. Quando a prova tem sempre o mesmo percurso, como a São Silvestre, você acaba decorando o caminho”, explicou.

Prestes a disputar sua 199ª prova, a dupla espera completar a 90ª edição da Corrida Internacional de São Silvestre em um período de 1h00min a 1h15min. “Meu objetivo é sempre fazer o melhor e terminar a prova sem acidentes”, afirmou Valdelício, precavido.