Atletismo/São Silvestre

“A São Silvestre mudou minha vida”, diz único tetracampeão consecutivo

Bruno Ceccon - São Paulo, SP - Brasil
18/12/2014 10:00:23

Em: Atletismo, Corrida Internacional de São Silvestre, Entrevistas, Mais Esportes

Com apenas 1,57m, Rolando Vera Ruedas é um dos maiores personagens da história da Corrida Internacional de São Silvestre. O pequenino fundista equatoriano reinou pelas ruas de São Paulo nos anos 1980 e considera que a prova, prestes a completar 90 anos, mudou sua vida.

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Em 89 edições da corrida, Vera foi o único a vencer quatro vezes consecutivas (1986 a 1989) – o belga Gaston Roelants (4), o colombiano Victor Mora (4) e o queniano Paul Tergat (5) ganharam em anos alternados. “A São Silvestre mudou a minha vida e a história do esporte no Equador”, define o ex-fundista.

Rolando Vera disputou as edições de Seul 1988, Barcelona 1992 e Atlanta 1996 dos Jogos Olímpicos. Após encerrar a carreira como atleta, chegou a atuar como deputado. Atualmente, mantém uma pousada no Equador e trabalha como cônsul de seu país na cidade de Ottawa, capital canadense.

De origem indígena, Rolando Vera ganhou o apelido de “Chasqui de Oro” no Equador. Os chasquis eram os mensageiros do soberano do Império Inca, conhecidos pela resistência e velocidade para percorrer longas distâncias, a exemplo do soldado ateniense que originou a maratona.

Gazeta Esportiva – Você dominou a São Silvestre na segunda metade dos anos 1980. Quando lembra dessa época, quais são as principais recordações?
Vera – A São Silvestre mudou a minha vida totalmente. Naquela época, o Equador não tinha esportistas com conquistas de destaque no exterior. Entre esses poucos, estava o tenista Andrés Gomez. No futebol, não possuíamos resultados e no boxe, tampouco. Quando ganhei a São Silvestre, todos começaram a me acompanhar. Assim, a corrida começou a ser difundida massivamente, por todos os meios do país.

Gazeta Esportiva – Até 1988, a prova era disputada à noite, na virada do ano. Aliás, você é o único a ganhar antes e depois da mudança de horário…
Vera – No Equador, a São Silvestre começou a ser acompanhada pelas famílias. Os parentes estavam reunidos para terminar o ano, e todos esperavam que Rolando Vera participasse da corrida em São Paulo. Ou seja, praticamente o Equador inteiro ficava à espera desse evento. O povo fazia uma celebração dupla: pelo final do ano e pelos triunfos de Rolando Vera.

Rolando Veras é o único atleta a conquistar a Corrida Internacional de São Silvestre quatro vezes consecutivas
Rolando Veras é o único atleta a conquistar a Corrida Internacional de São Silvestre quatro vezes consecutivas – Credito: Acervo/Gazeta Press
Gazeta Esportiva – Por que você tinha tanto sucesso na São Silvestre? Gostava do percurso, do clima, da altitude de São Paulo (760m)? 
Vera – A São Silvestre é a corrida perfeita para um atleta que treina em cidades com certa altitude, como Quito (2.850m), porque não há grandes oscilações no percurso. Muita gente teme a subida e para mim também era um pouco difícil, mas em comparação com as subidas que existem em Quito, não é nada.

Gazeta Esportiva – Em 89 anos de disputa, você foi o único a ganhar quatro vezes consecutivas…
Vera – Eu me sinto abençoado e honrado por ter vencido quatro vezes seguidas, sem dúvida. Muita gente no Equador ainda recorda esse feito. Às vezes, quando me encontram na rua, as pessoas lembram, porque se sentem muito orgulhosas de que um equatoriano tenha vencido a São Silvestre quatro vezes consecutivas.

Gazeta Esportiva – Você acha que seu recorde vai acabar sendo quebrado?
Vera – Eu acredito que sim. Os recordes existem para serem quebrados. Talvez surja algum africano ou até latino-americano que possa superá-lo. Adoraria que fosse um latino-americano, de preferência um equatoriano. Independentemente da origem do corredor, em algum momento vão quebrar o recorde.

Gazeta Esportiva – Em 1987, você ganhou entre os homens e a também equatoriana Martha Tenório triunfou na prova feminina. Imagino que esse ano tenha sido marcante…
Vera – Sim. Nessa ocasião, foram aproximadamente 20 meios de comunicação do Equador para São Paulo acompanhar a corrida. Era muitíssimo, como se fosse uma cobertura de um jogo da Seleção Brasileira, algo inédito no Equador para uma corrida. Tivemos a felicidade de ganhar entre mulheres e homens.

Gazeta Esportiva – Você foi o último equatoriano a vencer a São Silvestre, no ano de 1989. Por que não apareceram sucessores entre os seus compatriotas?
Vera – Eu nunca pensava primeiro nas premiações. Esse é o problema. Atualmente, no atletismo e em alguns outros esportes, os atletas pensam primeiro em quanto vão receber. No meu caso, queria ganhar porque através da São Silvestre podia transcender, deixar o nome do Equador no alto. Ganhar a São Silvestre é um feito notável para um país.

Apenas o equatoriano venceu a Corrida Internacional de São Silvestre antes e depois da mudança de horário
Apenas o equatoriano venceu a Corrida Internacional de São Silvestre antes e depois da mudança de horário – Credito: Acervo/Gazeta Press
Gazeta Esportiva – Como era a emoção da chegada? 
Vera – Ouvir o hino nacional do Equador era uma coisa maravilhosa. Lembro muito bem que tocavam ‘Carruagem de Fogo’ na chegada e em seguida você subia rapidamente ao pódio para ouvir o hino nacional. Isso para mim era muito mais importante do que a premiação, algo que não tinha preço.

Gazeta Esportiva – No Equador, você é conhecido como “Chasqui de Oro”. Imagino que se sinta honrado com o apelido, já que os chasquis eram os mensageiros dos soberanos do Império Inca… 
Vera – Eu sou índio e acredito que um dos meus antepassados sem dúvida veio diretamente desse grupo de mensageiros. Como explicar que uma pessoa com menos de 1,60m possa superar atletas estrangeiros, possivelmente com grandes vantagens físicas? Isso não tem explicação. É um tema genético e acredito que tenha relação direta com os chasquis. Para mim, é uma honra ser chamado de chasqui, é algo que deve ser tomado com muita honra.

Gazeta Esportiva – Ao ver um homem com baixa estatura, franzino e com pele morena triunfar no exterior, imagino que milhares de equatorianos tenham se sentido representados…
Vera – Você tem razão. Muita gente, muitas crianças, que hoje são pais e têm suas próprias famílias, cresceram com isso, vendo que uma pessoa de baixa estatura e origem humilde conseguiu se destacar fora do país. É algo que foi incorporado por uma geração. Atualmente, no Equador o atletismo pode ser considerado um esporte massivo, o segundo mais praticado no país.

Gazeta Esportiva – Sua última participação na São Silvestre foi em 1989…
Vera – Sim. Ganhei pela última vez no ano de 1989 e todos esperavam um quinto triunfo, mas sempre tive o feeling de sair no melhor momento. Mesmo ficando em segundo ou terceiro, a série seria rompida, e não estaríamos conversando agora.

Gazeta Esportiva – Eu teria ligado para você de qualquer maneira…
Vera – (Risos)

Gazeta Esportiva – Atualmente, você ainda procura acompanhar a corrida no último dia do ano?
Vera – Sim, sobretudo quando vão atletas equatorianos. No Equador ainda há a tradição de tomar a São Silvestre como referência. Existem grupos que participam da corrida, mas com resultados muito modestos.

TRAVESSURA INICIOU CARREIRA

Quando eu tinha 11 anos, um treinador ligado ao exército foi à minha escola em busca de novos talentos, em Cuenca. Os garotos, enfileirados no pátio, eram escolhidos de acordo com o biotipo. Os altos seriam encaminhados para o basquete, os fortes para a velocidade, e assim sucessivamente. Eu era pequeno, estava com o cabelo desarrumado e usava um par tênis velhos. Não fui escolhido, mas aproveitei um descuido do professor e passei para o grupo dos selecionados. Fui atleta por pura travessura.
– Rolando Vera é tetra da SS (1986-1989)

Gazeta Esportiva – Você participou de três edições dos Jogos Olímpicos (Seul 1988, Barcelona 1992 e Atlanta 1996). Mesmo assim, trata a São Silvestre como uma das principais provas da carreira…
Vera – Foi uma prova importante, que catapultou o Rolando Vera internacionalmente. O fato de ter vencido a São Silvestre quatro vezes é uma referência e eu procurava aproveitar isso. Quando viajava para alguma corrida, me perguntavam: ‘O que você já fez? Qual é o seu currículo?’. Eu podia responder que havia vencido uma das corridas mais importantes da América do Sul e do mundo. Agora, existem mais de mil provas, mas até os anos 1980 era diferente. Mesmo assim, a São Silvestre continua tendo o seu espaço muito importante.

Gazeta Esportiva – Como único tetracampeão consecutivo, que mensagem você gostaria de deixar na ocasião dos 90 anos da São Silvestre?
Vera – Primeiro, gostaria de cumprimentar o comitê organizador e desejar o maior dos êxitos. Quero dizer que graças a São Silvestre o esporte do meu país mudou. A partir dessa corrida e das vitórias alcançadas, minha vida também mudou. Inclusive, ela é uma das razões pela qual nesse momento me encontro representando o Equador como cônsul no Canadá.