Quarta-feira, três horas da tarde. Não é o horário mais chamativo para uma partida de futebol. Entretanto, foi quando o árbitro Danilo da Silva apitava o início do Juve-Nal de número 69, no estádio Nicolau Alayon, zona oeste de São Paulo. Dentro de campo, vitória nacionalista por 2 a 0, com dois gols do atacante Jorge Mauá, que, antes de entrar em campo no intervalo do jogo, ouviu de um torcedor: “Você vai decidir esse jogo!”.
Pessoas que deram uma "fuga" do trabalho para acompanhar o clássico, vendedores ambulantes cheios de história, uma "cachorra-torcedora" e provocações dos torcedores. Fora de campo, alguns personagens ajudaram a escrever a história deste Juve-Nal, válido pela 17ª rodada da Série A3 do Campeonato Paulista.
”Na Copa Kaiser, a gente vendia mais”
A declaração acima foi dada por Hilda Bonifácio, dona do bar do Nacional Atlético Clube, que se situa próximo às bilheterias do estádio. Dona Hilda, que administra o local há cinco anos e atende os clientes ao lado de seu filho, deixou claro que o campeonato de várzea, disputado até 2014, gerava mais lucro que os jogos do Nacional na Série A3.
“O movimento está bem fraco. Era bom quando tinha Copa Kaiser, a gente vendia mais. Ainda mais em dia de semana, fica difícil”, lamentou Hilda.
Bar do estádio Nicolau Alayon não vem tendo um grande faturamento com os jogos do time - Credito: Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Juventinos e nacionalistas chegavam ao recinto, cumprimentavam-se, conversavam, e até posavam para fotografias. Em uma das mesas, estava o torcedor grená Luis Augusto Ferreira (47), acentuando a rica história do clássico paulistano.
“(Juve-Nal) É uma das coisas mais antigas do futebol. É São Paulo Railway contra o Cotonifício. É ferrovia contra indústria. Juve-Nal é resgatar o espírito do futebol. Para quem vive futebol, isso aqui é demais”, vibrou, relembrando a história dos dois clubes – São Paulo Railway, empresa ferroviária que deu origem ao NAC; Cotonifício Rodolfo Crespi, indústria têxtil onde trabalhavam os operários que fundaram o Moleque Travesso, em 1924.
“O Juve-Nal é rivalidade dentro de campo. Fora de campo, ninguém bate ninguém. Futebol é harmonia, todo mundo bebe uma cerveja junto”, explicou, apontando para alguns nacionalistas na mesa do lado, e deu uma sugestão para resolver os problemas de violência nos estádios: “Coloquem um setor do estádio misto, com cerveja para o pessoal beber. Quem arranjar briga, coloque na cadeia. Você vai ver como daria certo. Iriam pensar duas vezes antes de criar confusão”, sugeriu.
Entre um gole e outro de cerveja, Luis também exaltava o amor ao Juventus e se orgulhava de seu filho, de 11 anos, que frequenta a Javari desde os cinco: “Não temos essa de segundo time. É só Juventus!”.
Se com os juventinos não existe a história de “segundo time”, para o torcedor nacionalista Rafael Barcelli (29), a realidade é outra. Ele mesmo admitiu ser torcedor palmeirense, mas exaltou o amor pelo NAC como um time do coração. Um dos cerca de 30 membros da Almanac, torcida organizada do clube, Rafael fez um paralelo da falta de popularidade do time com o fato de que a SP Railway acabou há muito mais tempo que as fábricas da Mooca.
Juventinos e nacionalistas dividem o mesmo espaço no bar de dona Hilda - Credito: Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Personagens: o vendedor de cocada bêbado, o juventino ‘disfarçado’ e “Neguinha”, a cachorra nacionalista
Passando pela revista policial na entrada do Nicolau Alayon, o torcedor dá de cara com José Raimundo da Silva (58), vendedor de cocadas. Assumidamente embriagado, o filho de cearenses lembrou que vendia sorvetes no Nacional desde os 12 anos de idade, e que costumava brincar com os amigos nas arquibancadas do estádio, quando o Nacional era “time bom”, como definiu.
Simpático e divertido, o vendedor deu até desconto para a equipe da GE.net. “O preço normal é R$ 3 cada uma (cocada) e duas por R$ 5, mas para vocês eu faço duas por R$ 4”, disse ele, que terminou com um conselho: “Seja um bom repórter”.
Raimundo, vendedor de cocadas, arranca risadas dos torcedores perto do acesso às arquibancadas - Credito: Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Quem também ganhava dinheiro nas arquibancadas do Nicolau Alayon nesta quarta era Pedro Izioli, de 83 anos, vendedor de bandeirolas e flâmulas do Nacional. O sr. Pedro é juventino assumido, e costuma fazer seu trabalho na Rua Javari. Ao passar por um grupo de nacionalistas, ouviu-se um “não compra isso não, esse cara é lá da Mooca”. Porém, a resposta veio logo em seguida, de outra voz: “Está vendendo coisa nossa, então não tem problema nenhum”.
Uma das faixas vendidas por ele neste grupo de torcedores foi destinada a um torcedor não-humano. Ou melhor, uma torcedora. Neguinha, a “cadela oficial do Nacional”, que vive no estádio sob os cuidados da administração do clube, foi enfeitada com o artefacto, e definida por um torcedor como “uma grande atração, mais famosa que os jogadores do Nacional”.
Neguinha, a "cachorra nacionalista", é um dos símbolos do Nicolau Alayon - Credito: Sergio Barzaghi/Gazeta Press
"Se você filmar aqui, metade perde o emprego"
Quando alguma equipe de fotografia ou filmagem se aproximava, a reação era a mesma: esconder-se e tentar sair do foco das lentes. Ou então soltar alguma frase como a descrita acima. Com o fato de o jogo ter acontecido em um horário normal de expediente, alguns torcedores deram “um pulo” de seus empregos para conseguir assistir ao clássico, uns até de camisa e calça social.
Um nacionalista, no início do segundo tempo de jogo, entrava correndo no estádio, colocava uma camisa do clube sobre o uniforme de trabalho e ia, de sapato e tudo, para atrás do gol situado ao lado direito das tribunas, onde fica situada a Almanac.
Cerca de 30 torcedores acompanhavam a partida como membros da torcida ferroviária, entretanto, pouco barulho faziam. A não ser para comemorar os dois gols marcados por Jorge Mauá, aos 18 e aos 31 minutos da etapa complementar, para xingar o goleiro adversário e os árbitros, ou então para entoar um cântico carinhoso destinado a Carlinhos, maqueiro do estádio.
“P... que pariu, é o melhor maqueiro do Brasil, Carlinhos!”, cantaram, fazendo uma paródia com o que é entoado por palmeirenses e são-paulinos para se referirem aos seus ídolos Marcos e Rogério Ceni, “melhores goleiros do Brasil”.
Em menor número, organizados do Nacional comemoraram muito a vitória sobre o rival - Credito: Sergio Barzaghi/Gazeta Press
O silêncio que muitas vezes domina a torcida nacionalista é quebrado pelo barulho feito do outro lado, pelos juventinos. Menos popular, a torcida Ju-Jovem ficou atrás do gol, com cerca de cinco membros, apenas batucando. Já o Setor 2, grupo grená mais numeroso e famoso, não parava de cantar nem mesmo com o placar negativo, e ainda aproveitava para tirar sarro dos rivais da Barra Funda.
“Ô Nacional, muito diferente somos, vocês ficam em silêncio, enquanto isso nós cantamos. Ô Nacional, que diferença que há, a sua torcida é muda, e a nossa não vai parar”, orgulhavam-se os juventinos. “Aprende, Nacional!”, dizia periodicamente uma voz no meio do grupo.
Juventinos orgulham-se de seus cantos, e provocam "silenciosa" torcida do Nacional - Credito: Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Ao apito final, começaram as provocações de forma mais acintosa. Separados por duas grades, que formavam uma espécie de “gaiola”, além do túnel de entrada para o vestiário mandante, nacionalistas e grenás trocaram farpas. De um lado, o orgulho pela vitória. De outro, o orgulho pela cantoria interminável. Tudo isso sem nenhum conflito físico. A máxima de “futebol é só dentro de campo” foi cumprida, e os torcedores que se provocavam deixaram o estádio sem maiores problemas.
Este foi o Juve-Nal de número 69. Enquanto a maioria dos paulistanos frequentavam seus ambientes de trabalho, seiscentas e quarenta e cinco pessoas acompanhavam de perto um dos mais carismáticos clássicos de São Paulo.