Gols, elogios, confiança do técnico Diego Aguirre e muito carisma. Nem mesmo o jovem Wanderson Ferreira de Oliveira, o Valdívia do Inter, esperava um início de carreira tão explosivo. O volante, que se assemelha ao seu xará do Palmeiras também na aparência e na posição dentro das quatro linhas, teve importantes exibições e virou ídolo da torcida colorada. Na atual temporada, o meia do clube gaúcho prova que o "genérico" está superando o "original", pelo menos nas estatísticas.
Revelado pelo Rondonópolis na Copa São Paulo de Juniores 2012, quando foi o artilheiro com oito gols, o jogador colorado rumou para o Rio Grande do Sul em maio daquele ano, quando fechou contrato com o Internacional. Na base, foi campeão do Campeonato Gaúcho Juniores de maneira invicta e faturou o Brasileiro sub-20 em 2013. Com a primeira boa impressão, foi promovido para o elenco principal em outubro do mesmo ano.
Desde então, disputou 60 jogos e marcou 13 gols (seis no Gaúcho, quatro na Libertadores, dois no Brasileiro e um Copa do Brasi), conquistando o bicampeonato estadual em 2014 e 2015. Nesta temporada, além ser eleito o Craque do Gauchão, "Poko Pika", como é conhecido, estreou na Libertadores no fim da fase de grupos, balançou as redes quatro vezes e tornou-se o artilheiro da formação do uruguaio Aguirre no torneio.
Natural do Mato Grosso, Valdívia visitou o Palmeiras em 2012 para conhecer o ídolo chileno - Credito: Divulgação
Enquanto isso, o Valdivia alviverde acumulou muitas lesões e raras atuações. Em suas duas passagens pela Academia de Futebol, entre 2006 e 2008, e de agosto/2010 aos dias atuais, o Mago contribuiu com a conquista de somente três taças: Campeonato Paulista (2008), a Copa do Brasil (2012) e a Série B do Brasileirão (2013).
Mesmo com esporádicas boas atuações, como a última diante do Corinthians, nesse domingo, o Mago do Verdão tem números rasos nessa segunda passagem pelo clube, iniciada em agosto de 2010. De lá para cá, foram 17 gols gols marcados, 19 lesões sofridas e uma série de convocações para a seleção do Chile - a mais recente, para a disputa da Copa América.
Dessa forma, participou em apenas 147 partidas desde que retornou ao Palestra, contabilizando 44% das 333 disputadas pela equipe do Palestra Itália. Em 2015, são apenas 10 jogos, com três vitórias, cinco empates e duas derrotas (46,6%). Sem gols, contribuiu com duas assistências e teve duas lesões: uma na coxa e outra no joelho esquerdo. Sem o camisa 10 em campo, são 19 jogos e 75,4% dos pontos para o Palmeiras. Marcado para as 21 horas (de Brasília) desta quinta-feira, no Palestra Itália, o confronto entre Inter e Palmeiras escancara as diferenças entre os xarás.
Carismático, brincalhão e apelidado de “Mágico”, o meia de 20 anos garantiu em entrevista à Gazeta Esportiva.Net que ainda não pensa em desbravar o futebol europeu e reiterou a admiração pelo chileno, que trata como ídolo. Segundo o Valdívia “Poko Pika”, a chegada de Aguirre ao comando do Internacional foi determinante para o início da boa fase, que pode render o tri da Copa Libertadores ao Colorado - na semifinal, a equipe enfrenta o mexicano Tigres, de Rafael Sobis, em julho, depois da Copa América. Vale lembrar que, em quatro aparições no torneio continental, o “Mágico” já balançou a rede quatro vezes.
O garoto do Inter não pretende imitar o "chute no vácuo" do Mago, mas admitiu já ter se apropriado do "chororô" - Credito: Montagem sobre fotos de Djalma Vassão e Divulgação
Gazeta Esportiva.Net: Você é o artilheiro do Inter na Libertadores. Imaginava um início tão bom na sua primeira participação?
Valdívia: É o que eu falo sempre: você tem que aproveitar e dar o máximo no tempo em que está em campo, não importa se são 5 ou 90 minutos. Estreei na Libertadores no fim da primeira fase e consegui uma grande sequência depois, marcando quatro gols. Claro que é um momento especial.
GE.Net: Você acha que o Aguirre foi determinante para essa ótima fase individual?
Valdívia: Sim, ele teve muita participação porque sempre confiou em mim, algumas vezes pra começar, outras pra tentar mudar a cara dos jogos. Ele deu espaço e consegui me afirmar no grupo.
GE.Net: Quais são as principais diferenças e semelhanças entre o trabalho do uruguaio e do Abel Braga?
Valdívia: É difícil de fazer comparações. Cada um tem seu estilo de trabalho, e o Abel foi muito responsável também pela campanha que fizemos ano passado e que nos levou à Libertadores.
Não demorou para que Valdívia se tornasse ídolo do Internacional, recebendo o apelido de "Poko Pika" - Credito: Reprodução/Instagram
GE.Net: Está confiante no título da Libertadores? Acha que o Inter também tem fôlego para brigar por título no Brasileiro e quebrar um jejum de quase 40 anos?
Valdívia: Claro, o nosso grupo é muito qualificado. Mesmo mudando a equipe, o nível segue lá em cima. A gente quer e pode brigar pelos dois títulos, buscando um de cada vez. O pensamento de todo mundo é manter o ritmo da Libertadores no Brasileiro, até para entrar bem nas semifinais, em julho.
GE.Net: Em uma possível final de Mundial, prefere enfrentar Barcelona ou Juventus?
Valdívia: Temos uma caminho difícil pela frente ainda. É muito cedo para pensar ou falar disso.
GE.Net: De onde surgiu a brincadeira do #PokoPika? Quem foi o primeiro a surgir com isso?
Valdívia: Eu mesmo. O Pika é uma gíria do futebol que todo mundo conhece. Significa que o cara é fera no que faz, e o Poko é uma brincadeira que criei. Na verdade, quer dizer muito. Isso vem comigo desde a base no Inter e agora pegou, todo mundo adotou. É legal.
O reencontro com Douglas, seu treinador no Rondonópolis, não passou em branco no Instagram do craque - Credito: Reprodução/Instagram
GE.Net: Como o Valdivia do Palmeiras reagiu quando soube do seu apelido? Tem o sonho de jogar ao lado dele algum dia?
Valdívia: Eu pedi autorização, né! Foi de boa, ele disse que eu estava liberado pra usar, me recebeu muito bem quando nos encontramos no Palmeiras. Seria uma honra jogar ao lado dele, mas acho difícil de acontecer.
GE.Net: Você se inspirava no estilo de jogo do Valdivia do Palmeiras quando era mais novo?
Valdívia: Sempre gostei de acompanhar. Ele joga demais, gosto muito do estilo dele, tem habilidade, sabe controlar o jogo, puxa sempre no mínimo dois marcadores. Ele decide, é diferenciado.
GE.Net: Como é ter mais gols e bem mais minutos em campo do que o ídolo que deu origem ao seu apelido?
Valdívia: Ah, não levo por esse lado. Não concorro contra ele. Tento fazer o melhor pelo Inter, é assim que penso.
GE.Net: Você planeja imitar a provocação do "chute no vácuo" do chileno?
Valdívia: Não, não. Gosto mais é da do chororô mesmo, que ele fez depois de marcar num clássico. Essa já usei várias vezes, não deixa de ser uma homenagem também.
GE.Net: Acha que o “genérico” superou o “original”?
Valdívia: Nada, estou iniciando minha carreira. Subi em 2013 para os profissionais do Inter e agora estou conseguindo a afirmação que sempre busquei. As comparações ficam pra vocês. Eu vou sempre respeitar e admirar o Valdívia, que é um ídolo pra mim.
Em excelente fase, Valdívia adia até os planos de atuar no futebol europeu: "Tudo tem seu tempo" - Credito: Alexandre Lops/Divulgação/Internacional
GE.Net: Você foi eleito o Craque do Gauchão. Espera repetir o feito e ser destaque ou revelação no Brasileiro?
Valdívia: Vai ser muito gratificante se acontecer. Eu tenho consciência de que a dificuldade e o nível técnico são bem maiores, mas a ideia é seguir jogando assim para ser um dos destaques.
GE.Net: Você pretende ficar muito mais tempo no Brasil antes de rumar para a Europa? Oscar falava que queria ficar, mas acabou saindo e está muito bem no Chelsea.
Valdívia: Pretendo ainda jogar bastante tempo aqui. Tenho 20 anos, é cedo para planejar atuar na Europa, pelo menos na minha cabeça. Tudo tem seu tempo, vamos com calma.
GE.Net: Como é a sua relação com a torcida do Inter?
Valdívia: Ótima, não tem nem o que falar. Sempre me tratou com carinho, e eu tento retribuir da melhor maneira possível. Tenho muito a agradecer a eles; desde que surgi no Inter sempre acreditaram no meu potencial. É uma torcida fantástica.
GE.Net: E a torcida do Grêmio? Como eles te tratam nas ruas de Porto Alegre?
Valdívia: Tranquilo, com respeito. Muita gente pede pra tirar foto também, é bacana. A rivalidade fica dentro do campo, lá na hora do jogo, nos 90 minutos.
Inter visita Palmeiras nesta quinta, mas reencontro de Valdivias não ocorrerá pois o chileno está a serviço de sua seleção - Credito: Divulgação
GE.Net: Você foi criticado pelo jornal chileno El Grafico, do Chile. Eles disseram que você joga com a 10, acredita ser o Valdívia, mas “não tem magia”. O que você acha disso? Já foi assediado pela torcida chilena? Como foi?
Valdívia: Ah, foi ano passado, eles falaram isso de um jogo que entrei. Esse ano já fiz até gol lá, contra a La U, com o estádio lotado. Aí comecei a ter uma sequência positiva.
GE.Net: Você faz muito sucesso no Instagram pelas piadas e gracinhas. Já era brincalhão na internet e na vida real antes de virar um jogador famoso? Como é ter essa fama de pessoa tão carismática?
Valdívia: Sim, é de família. Lá em casa todo mundo tem esse jeito descontraído, procura levar as coisas na boa. É legal poder transmitir isso às pessoas também, me deixa feliz. Espero continuar levando alegria pra todo mundo.