Em luto eterno, Colo-Colo tem ídolos brasileiros e torcedor fantasma

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Dos três jogos da Seleção Brasileira na primeira fase da Copa América, dois serão realizados no estádio do Colo-Colo, em Santiago. O time mais popular da Chile, em luto eterno pela morte trágica de seu fundador, tem brasileiros entre os ídolos históricos e um célebre fã, conhecido como “hincha (torcedor) fantasma”.

O uniforme do Colo-Colo leva permanentemente uma tarja preta acima do escudo como homenagem a David Alfonso Arellano Moraga. Fundador do clube e seu primeiro capitão, o ex-jogador ganhou status de mártir após morrer em campo e é citado no hino.

Arellano, com passagem pela seleção chilena, defendia o Magallanes até deixar a equipe após um desentendimento no começo de 1925 ao lado se seus companheiros mais próximos. Em abril do mesmo ano, o grupo fundou o Colo-Colo, nome de um sábio indígena da etnia mapuche.

Em 1927, com a finalidade de ganhar experiência e reconhecimento, o time realizou uma excursão de sete meses pelo exterior. Na Espanha, durante jogo contra o extinto Real Unión Deportiva de Valladolid, Arellano recebeu uma pancada acidental e no dia seguinte faleceu como consequência de uma peritonite.

David Arellano, fundador do Colo-Colo, batiza o estádio que receberá o Brasil. Ao fundo, a Cordilheira dos Andes

David Arellano, fundador do Colo-Colo, batiza o estádio que receberá o Brasil. Ao fundo, a Cordilheira dos Andes - Credito: Divulgação

Os restos mortais do fundador foram repatriados em 1929 e atualmente estão no Mausoléu dos Velhos Craques do Colo-Colo, localizado no Cemitério Geral de Santiago. O estádio do clube, sede dos jogos do Brasil contra Colômbia e Venezuela na Copa América, leva o nome de Monumental David Arellano.

Apesar da sentida e prematura perda do fundador, o Colo-Colo ao longo dos anos consolidou uma posição entre os grandes clubes do futebol chileno. Em sua galeria de ídolos históricos, o time de maior torcida do país conta com alguns jogadores brasileiros.

Autor de 119 gols, Elson Beyruth foi bicampeão nacional (1970 e 1972) e vice da Libertadores (1973). Após encerrar sua trajetória como jogador, passou a trabalhar nas categorias de base do Colo-Colo e chegou a treinar o palmeirense Jorge Valdivia. O ídolo morreu em 2012 por complicações decorrentes de diabetes.

Já o brasileiro Severino Vasconcelos, responsável por 83 gols, marcou época ao formar uma das melhores duplas ofensivas da história do clube com Carlos Caszely. Tricampeão nacional (1979, 1981 e 1983), ele foi cogitado para defender a seleção local como naturalizado em 1982 e também fincou raízes no país - até hoje, defende o time de masters. 

Já nos anos 1990, o meio-campista Emerson Pereira defendeu o Colo-Colo com sucesso. Campeão nacional em 1996, 1997 e 1998, ele é lembrado por um gol no clássico contra a Universidad de Chile. Na época, além da tarja preta em homenagem a David Arellano, o símbolo já tinha uma estrela para lembrar a Copa Libertadores 1991.

Ídolo brasileiro Severino Vasconcelos posa com o time de masters do Colo-Colo. Foto: Alejandra Fassi

Ídolo brasileiro Severino Vasconcelos posa com o time de masters do Colo-Colo. Foto: Alejandra Fassi - Credito: Divulgação

A conquista do mais importante título da história do Colo-Colo teve contornos folclóricos. Na semifinal da edição de 1991 do torneio continental, depois de perder do Boca Juniors por 1 a 0 na Argentina, o time chileno ganhou por 3 a 1 o jogo de volta, marcado por uma batalha campal no estádio David Arellano.

Durante a briga generalizada no gramado, um cão da polícia chilena mordeu a nádega do goleiro Navarro Montoya, companheiro de Batistuta no Boca Juniors. O pastor alemão, chamado Ron, permaneceu a serviço da polícia e foi enterrado no cemitério canino da entidade, convertido em local de peregrinação pelos torcedores do Colo-Colo.

Apesar da confusão da semifinal diante do Boca Juniors, o jogo decisivo contra o Olímpia foi mantido no estádio David Arellano. O policiamento redobrado, no entanto, não impediu que um garoto invadisse o gramado para entrar na história do Colo-Colo de maneira inusitada.

Com uma espécie de carrinho preciso, o menino deslizou pelo gramado e, instantes antes da foto oficial, se posicionou diante dos 11 jogadores que 90 minutos depois conquistariam a única Libertadores do futebol chileno. No dia seguinte, o garoto de tênis brancos, calça azul e blusa amarela, com uma bandeira amarrada ao pescoço, apareceu nos pôsteres do time campeão.

Antes de se posicionar, o menino tocou o ombro de Luis Perez, que marcou dois gols na vitória por 3 a 0 contra os paraguaios. Intrigados, os torcedores passaram a considerar a misteriosa aparição do garoto, chamado de “hincha fantasma”, como motivo de sorte.

O garoto Luis Mauricio Lopez Recabarren entrou para a história do Colo-Colo de forma inusitada em 1991

O garoto Luis Mauricio Lopez Recabarren entrou para a história do Colo-Colo de forma inusitada em 1991 - Credito: Reprodução

A imprensa local procurou pelo menino nos meses seguintes ao histórico título continental, sem sucesso. Anos depois, um impostor disse ser o torcedor fantasma e teve sua história publicada por um jornal chileno de grande circulação, mas acabou desmentido.

O verdadeiro hincha fantasma, chamado também de "jogador número 12", é Luis Mauricio Lopez Recabarren. Morador das imediações do Estádio Nacional, o pai do menino gostava de tirar fotos com jogadores famosos, entre eles Pelé, e passou o costume ao filho.

Luis Mauricio tinha problemas com a lei e por isso preferiu fugir do assédio da imprensa. Em 1999, aos 24 anos, morreu de leucemia em uma prisão enquanto cumpria pena por roubo. A invasão de gramado derradeira foi na Copa América 1991, antes do jogo entre Chile e Argentina, na última vez em que seu país recebeu o torneio continental.

Atualmente, o Colo-Colo é treinado por José Luis Sierra, que passou pelo São Paulo como jogador e disputou três edições da Copa América (1993, 1995 e 1999), além do Mundial da França 1998. O goleiro Paulo Garces e Jean Beausejour foram cedidos pelo clube à seleção de Jorge Sampaoli.

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