Em ano de dificuldades, São Paulo e Corinthians duelam por alívio com título no feminino

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(Foto: Rodrigo Gazzanel / Agência Corinthians)

São Paulo e Corinthians têm uma das últimas oportunidades de trazer alegrias às suas respectivas torcidas em um ano repleto de dificuldades para ambas as instituições. Os dois clubes sofreram com complicações políticas e financeiros, mas possuem a chance de deixar os problemas para trás por um momento com o título do Campeonato Brasileiro feminino.

O último capítulo da decisão está marcado para este sábado, às 16h30 (de Brasília), no Morumbis. O São Paulo garantiu o mando do jogo de volta por ter feito uma campanha superior a do rival.

Mais do que uma final entre dois rivais tradicionais do futebol brasileiro, o título do Brasileiro feminino representa uma oportunidade de alívio para clubes que passaram boa parte de 2026 convivendo com dificuldades, sobretudo financeiras, do lado de fora dos gramados.

Quem fica com a taça? São Paulo e Corinthians decidem o título do Brasileiro feminino neste sábado (Foto: Fabio Souza/CBF)

Final constrasta com momento do clubes

Apesar dos obstáculos enfrentados em 2026, São Paulo e Corinthians alcançaram a decisão do Brasileiro feminino. As Soberanas buscam o título inédito, enquanto as Brabas querem o octacampeonato da Série A1, o hepta consecutivo.

Quem saiu na frente foi o São Paulo. O Tricolor paulista bateu o Timão de virada por 2 a 1, no último sábado, na Neo Química Arena, e tem a vantagem do empate no jogo deste fim de semana. Em caso de uma igualdade no agregado, a decisão do título será nos pênaltis.

A decisão contrasta com o momento vivido pelos clubes. Em 2026, tanto Corinthians como São Paulo conviveram com problemas financeiros, entre atrasos salariais, pendências com os elencos profissionais e transfer bans. Além disso, ambos os clubes figuraram em páginas policiais e vivem um ano eleitoral, com eleições presidenciais marcadas para o fim do ano.

São Paulo passou por turbulências

O ano de 2026 não foi fácil para o torcedor do São Paulo. O Tricolor começou a temporada estampando as páginas policiais devido às apurações internas e externas envolvendo Julio Casares, então presidente. O agora ex-dirigente é investigado pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) por possível gestão temerária e supostas irregularidades financeiras cometidas durante o período em que presidiu o clube, entre 2021 e janeiro de 2026.

No dia 16 de janeiro, Casares teve o impeachment aprovado pelo Conselho Deliberativo do clube. Cinco dias depois, publicou uma extensa carta para renunciar ao cargo de presidente do São Paulo. Posteriormente, em setembro deste ano, viria a ser expulso do quadro associativo após votação do CD. Com isso, Harry Massis Júnior, vice-candidato eleito pela mesma chapa, assumiu o comando do clube.

Em campo, as coisas também não iam bem no masculino. A demissão do técnico Hernán Crespo, seguida pela contratação de Roger Machado, aumentou a pressão sobre a cúpula são-paulina. O trabalho do gaúcho durou dois meses e foi interrompido em maio, com a queda na quinta fase da Copa do Brasil. Pouco tempo depois, o clube decidiu pela demissão de Rui Costa, então diretor de futebol.

Uma crise sem precedentes se instalou no clube do Morumbi. Em meio à resultados ruins dentro de campo e notícias negativas fora dele, como um transfer ban da Fifa (quitado no início de agosto), uma guerra política nos bastidores relacionada à Ticketmaster e uma eleição presidencial no final do ano, o São Paulo ainda atrasou, pela primeira vez na gestão Massis, os salários em carteira do elenco profissional referentes ao mês de agosto.

Os vencimentos foram quitados três dias depois do prazo, mas contribuíram para aumentar a crise no São Paulo. Junto a isso, somam-se os direitos de imagem atrasados em quatro meses e a eliminação nas quartas da Sul-Americana, que poderia ser mais uma fonte de renda. O clube passa por um momento delicado financeiramente e acumula uma dívida que já está na casa do R$ 1 bilhão.

Em meio a tudo isso, o time feminino do São Paulo resistiu ao momento ruim vivido pelo clube, se reforçou no início da temporada e manteve a organização. A crise financeira não chegou a atingir o departamento, comandado pela diretora Cléo Prado. Seis anos depois da reativação da modalidade, a equipe vai em busca de seu primeiro título da Série A1.

No começo do ano, o São Paulo apresentou 12 novas contratações para 2026. Além das chegadas, o São Paulo também garantiu a manutenção de atletas importantes do elenco, o que foi fundamental para o título. O clube firmou renovações com as jogadoras Carol Gil, Ravena, Vi Amaral, Karla Alves, Camilinha e Aline, peças que seguiram como base da equipe para 2026.

E o trabalho passou a dar resultados. O Tricolor paulista alcançou a final do Brasileiro feminino em 2024, mas perdeu para o Corinthians. Já em 2025, o time conquistou o primeiro grande título após a reativação da modalidade: a Supercopa de 2025, quando bateu as Brabas nos pênaltis com brilho de Carlinha.

Feminino do Corinthians foi afetado por dificuldades financeiras

Do lado do Corinthians, a crise financeira é tamanha que chegou a afetar o elenco feminino — diferente do que aconteceu no São Paulo. Em determinado momento do ano, o clube devia dois meses de direitos de imagem às Brabas, além de ter atrasado valores de premiação por competições disputadas ainda em 2025, como a Libertadores e o Mundial de Clubes feminino, e também de 2026, como a Supercopa do Brasil.

Os dois meses de direitos de imagem foram quitadas pouco antes da semifinal do Brasileiro feminino, em setembro. Contudo, a diretoria ainda não pagou as parcelas referente às premiações. Assim, as Brabas do Timão chegam à final da competição, pelo décimo ano seguido, mas com atrasos nos pagamentos prometidos pela cúpula alvinegra.

Além disso, o Corinthians feminino também passou por uma fase de instabilidade dentro de campo. Em fevereiro deste ano, após um empate contra o Fluminense na Neo Química Arena, o técnico Lucas Piccinato foi demitido do cargo apenas na segunda rodada do Brasileiro. Diante disso, o clube precisou buscar um novo comandante e assinou com a técnica Emily Lima, que teve seu trabalho questionado pela torcida em alguns momentos do ano, sobretudo após perder a liderança para o São Paulo na última rodada da A1.

O time também não teve grande atuação no mercado e trouxe somente cinco reforços para a temporada: Ana Vitória, Agustina, Paola García, Rhaizza e Belén Aquino. Destas, apenas Aquino conseguiu se firmar como titular. Apesar disso, a diretoria feminina, sob comando de Íris Sesso, garantiu renovações importantes, como da meia Gabi Zanotti, da goleira Nicole e das laterais Tamires e Gi Fernandes.

Gabi Zanotti é a vice-artilheira do Corinthians na temporada, com 11 gols marcados (Foto: Rodrigo Gazzanel / Agência Corinthians)

Enquanto isso, no masculino, o clube fechou o mês de julho com um déficit de R$ 278,7 milhões, resultado 258% superior ao prejuízo de R$ 77,8 milhões previsto no orçamento para o período. Além disso, o Timão sofreu três transfer bans ao longo da temporada, relacionados a dívidas que somam cerca de R$ 21,5 milhões, e ficou impossibilitado de contratar durante a janela do meio do ano. As sanções resultaram na formação de um elenco mais curto, o que virou um problema especialmente em momentos de lesões de atletas importantes, como Yuri Alberto e Memphis.

Por falar em Memphis, a novela pela permanência do atleta se arrastou e gerou uma pequena crise. O Corinthians chegou a anunciar, por meio de nota oficial, que o holandês não seguiria no clube, mesmo com o contrato pronto, pois o presidente Osmar Stabile havia desistido do acordo por questões financeiras. O jogador criticou a decisão da diretoria nas redes sociais e chamou a atitude de "inaceitável". Dias depois, mesmo sob pressão do Parque São Jorge, Stabile impôs novas condições financeiras no acordo, reduziu valores e, com o aceite do camisa 10, assinou a renovação.

O futebol masculino também não correspondeu às expectativas após o título da Supercopa, em fevereiro. O Corinthians amargou eliminações nas quartas da Libertadores, nas oitavas da Copa do Brasil, e está brigando contra o rebaixamento no Campeonato Brasileiro, vindo de uma sequência de seis derrotas seguidas na competição. Paralelamente, salários, direitos de imagem e premiações ficaram pendentes em diferentes momentos do ano. Neste momento, o time acumula dois meses de atraso nos direitos de imagem do elenco profissional, além de uma parte das férias e premiações.

Politicamente, o Corinthians também passou por turbulências. O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) conduz um inquérito civil para apurar a gestão administrativa e financeira no clube e avalia a necessidade de uma eventual intervenção judicial, que é apoiada por parte da torcida. Além disso, o MP-SP ofereceu peça acusatória à Justiça contra Armando Mendonça, vice-presidente do Timão, em agosto deste ano. O dirigente foi denunciado pelos crimes de tentativa e apropriação indébita agravada continuada, furto qualificado pelo abuso de confiança e coação no curso do processo no caso que investiga possíveis irregularidades na distribuição de materiais esportivos fornecidos pela Nike.

Ainda assim, as Brabas do Corinthians fizeram jus ao apelido e, mesmo com uma temporada sem o brilho usual, alcançaram a decisão do Brasileiro feminino e buscam a virada no Morumbis para conquistar o oitavo título.

Ineditismo ou dinastia?

Para o São Paulo, a conquista significaria o primeiro título brasileiro feminino de sua história. O sentimento de revanche também se faz presente após a derrota para o próprio Corinthians na decisão de 2024. Naquela ocasião, as Brabas venceram os dois jogos da final e ficaram com a taça.

Para o Corinthians, o desafio é evitar que uma temporada marcada por problemas financeiros e desempenho irregular no futebol, como um todo, termine sem uma grande conquista no feminino. O octacampeonato manteria uma dinastia iniciada em 2020, quando o time ainda estava sob o comando de Arthur Elias, atual técnico da Seleção Brasileira feminina.

São Paulo e Corinthians passaram 2026 administrando dívidas, pressão, cobranças e dificuldades esportivas. Agora, resta saber qual dos times conseguirá levar alegria para seus torcedores neste fim de ano.

A expectativa é de casa cheia no Morumbis, com mais de 35 mil ingressos vendidos para a decisão. O São Paulo, inclusive, desafia o recorde do Corinthians, que é detentor da melhor marca de público do futebol de clubes feminino nacional. Em 2024, 44.529 acompanharam a final do Brasileiro feminino, na Neo Química Arena.

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