Jornal divulga carta interna de Blatter à Fifa: “Seguirei lutando”

São Paulo, SP

14-12-2015 23:19:50

Suspenso das atividades relacionadas ao futebol, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, encontra maneiras de se comunicar com a entidade. Nesta segunda-feira, o suíço enviou carta aos colaboradores reafirmando sua inocência e pedindo “tranquilidade”. Pelo menos foi o que publicou o jornal argentino La Nación, que inclusive divulgou foto de versão do documento em espanhol.

“Nossa federação deve recuperar a tranquilidade. Uma tranquilidade que também desejo para mim. Me sinto consternado pelas acusações dirigidas a mim pela Câmara de Investigação e pelo Comitê de Ética. Sempre desempenhei minhas funções com lealdade e boa fé, levando a cabo minhas tarefas com respeito, honestidade e correção”, diz o mandatário.

Além de ser investigado pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, que deflagrou escândalo de corrupção na Fifa em maio e segue apurando denúncias de ilegalidades, Blatter foi afastado por inquérito interno da entidade. O suíço é acusado de fazer pagamento “desleal” de 2 milhões de francos suíços (cerca de R$ 3,5 mi na cotação de 2011, quando foi efetuada a transação) ao mandatário da Uefa, Michel Platini.

Esse foi o principal motivo do afastamento dos dois pelo Comitê de Ética da Fifa em outubro. A suspensão, de 90 dias, vai até o dia 5 de janeiro de 2016. Assim, o mandatário se despedirá de maneira melancólica do cargo que ocupa desde 1998, uma vez que as eleições para a escolha de seu sucessor estão marcadas para o dia 26 de fevereiro. Já Platini vê sua candidatura em tal pleito comprometida.

“No meu caso atual, o Comitê de Ética deve decidir se o pagamento de dois milhões de francos suíços, resultado de acordo celebrado em 1998 entre a Fifa e Michel Platini cujo valor (restante) não foi pago até 2010/2011, era legal. Pode-se assegurar-lhes que sim, era, pois se baseava em um contrato verbal, e os contratos devem ser cumpridos”, defende-se o político, que ainda encerra a carta em tom combativo e esperançoso.

“Seguirei lutando pelo meu direito, e ao final desta semana exporei meu ponto de vista diante do órgão competente, baseado em minha plena convicção e em minha fé na justiça. Estou suspenso, sim, mas não isolado, e muito menos impedido de falar. Quero agradecer aqui os sinais de solidariedade que recebi de vocês. Esperamos que 2016 seja um ano melhor para a Fifa”, conclui.

Confira a tradução da carta revelada pelo jornal argentino na íntegra:

Queridos amigos,

Na quinta-feira 10 de dezembro começou no Japão o Mundial de Clubes, último ponto culminante de um ano agitado para a família do futebol. Ainda que a Fifa viva atualmente uma de suas crises mais graves, posso constatar com satisfação que as atividades diárias seguem desenvolvendo-se perfeitamente. Todas as competições da Fifa foram levadas a cabo sem nenhum inconveniente, todos os programas de desenvolvimento seguem em curso conforme previsto. Quero expressar aqui meu reconhecimento e meu agradecimento a toda a equipe da Fifa em Zurique, e a todas as associações-membro.

Nossa federação deve recuperar a tranquilidade. Uma tranquilidade que também desejo para mim. Me sinto consternado pelas acusações dirigidas a mim pela Câmara de Investigação e pelo Comitê de Ética. Trabalho na Fifa há 40 anos, e presido esta Fifa desde 1998. Sempre desempenhei minhas funções com lealdade e boa fé, levando a cabo minhas tarefas com respeito, honestidade e correção. Estes são os valores que aprendi com meus pais e que sempre me serviram de guia em minha vida privada e profissional:

- Nunca receba dinheiro que não tenha ganho por esforço próprio
- Pague sempre suas dívidas

No meu caso atual, a Câmara de Decisão e o Comitê de Ética deve decidir se o pagamento de dois milhões de francos suíços, resultado de acordo celebrado em 1998 entre a Fifa e Michel Platini cujo valor (restante) não foi pago até 2010/2011, era legal. Pode-se assegurar-lhes que sim, era, pois se baseava em um contrato verbal, e os contratos devem ser cumpridos. Para a efetuação do pagamento citado foram seguidos todos os passos do processo administrativo, cuja correção foi confirmada por todas as instâncias competentes da Fifa, o Congresso inclusive.

Não obstante, a forma em que a Câmara de Investigação e a Comissão de Ética informa acerca do processo, solicitando pena máxima e reforçando a atitude publica que leva a pré-julgar, expõe uma dimensão perigosa e tendenciosa. Esse processo me faz recordar as práticas da Inquisição.

Seguirei lutando pelo meu direito, e ao final desta semana exporei meu ponto de vista diante do órgão competente, baseado em minha plena convicção e em minha fé na justiça.

Estou suspenso, sim, mas não isolado, e muito menos impedido de falar. Quero agradecer aqui os sinais de solidariedade que recebi de vocês. Esperamos que 2016 seja um ano melhor para a Fifa.

Muito obrigado e cordiais saudações.

Um abraço,

Joseph Blatter

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