Próximo do fim, time feminino é usado pelo São Paulo para abafar crise

Ana Carolina da Silva e Juliana Arreguy* - São Paulo,SP

25/08/15 | 10:00

Em meio à crise instaurada no futebol masculino, o São Paulo surpreendeu ao divulgar e celebrar os resultados das partidas da equipe feminina, que superou o Santos no último domingo e se classificou para a final do Campeonato Paulista, a ser disputada diante das atuais campeãs do São José. Com pouco destaque ao time composto por mulheres desde a sua criação, o clube decidiu manifestar apoio às jogadoras após o fim da modalidade vir a público.

Antes negligenciado pelo clube, o time feminino do São Paulo voltou a ser assunto nas redes sociais (Foto: Renata Lufti/São Paulo FC)
Antes negligenciado pelo clube, o time feminino do São Paulo voltou a ser assunto nas redes (Foto: Renata Lufti/São Paulo FC)

Enquanto o Tricolor masculino de Juan Carlos Osorio ainda jogava a derrota por 2 a 1 para o Flamengo, no Maracanã, as redes sociais do clube já se ocupavam com a empolgada narração dos principais lances das meninas. Após a partida no Complexo Social do Estádio do Morumbi, o site oficial dos são-paulinos destacava o irrestrito apoio dos torcedores às atletas, além dos dois gols marcados por Carla. O que se ouviu no duelo, porém, foram gritos como “vende o Ganso e paga as meninas!”.

Depois de empatar com as Sereias da Vila por 2 a 2 e se garantir na decisão do torneio pela campanha superior obtida na primeira fase, a equipe não tem qualquer perspectiva para o restante do semestre. Inicialmente inscritas no Campeonato Brasileiro, as atletas ficarão de fora do torneio após o fim do acordo com a Capes (Centro de Apoio Profissionalizante, Educacional e Social), que firmou parceria com o Tricolor em fevereiro de 2015 na empreitada de recriar a equipe feminina depois de 14 anos de inatividade. Mas a regra interna foi clara: sem patrocínio, sem futebol.

Embora o clube ainda não tenha realizado nenhum anúncio oficial, jogadoras e comissão técnica já se preocupam em encontrar novos empregos após o Paulista. Contratadas sob a promessa de permanecer no time até o fim do ano, as atletas não conheceram a estabilidade fora dos gramados: o mês de agosto foi o único no qual o time recebeu os salários no período correspondente.

"Independentemente de tudo o que passamos e estamos passando até agora, fomos profissionais e encaramos isso da melhor maneira. Quando entramos em campo, esquecemos tudo o que está lá fora e jogamos por amor", garantiu a zagueira Ingrid de Paula, conhecida como "Sorriso". Ex-atleta do São Bernardo, a jogadora descarta um retorno para o ABC paulista. "Eu não penso em voltar para o São Bernardo. Gosto muito do time, mas recebi algumas propostas para jogar o Campeonato Brasileiro e estou em negociação", revelou.

A união das jogadoras são-paulinas foi fundamental para superar as dificuldades e atrasos (Foto: Renata Lufti/São Paulo FC)

A união das jogadoras são-paulinas foi fundamental para superar as dificuldades e atrasos (Foto: Renata Lufti/São Paulo FC)

Depois de mais de três meses de atrasos, o São Paulo arcou com os pagamentos das jogadoras e da própria comissão técnica. A folha salarial, que não ultrapassa os R$ 60 mil mensais, foi acumulando juros pelos vencimentos não quitados. Com isso, a Capes viu o prejuízo quadruplicar e alcançar a marca dos R$ 300 mil.

Os atrasos da empresa foram confirmados pela reportagem da Gazeta Esportiva.net e devidamente quitados pelo Tricolor, que encaminhou o imbróglio à ala jurídica da diretoria e deve encerrar a modalidade logo após o término do Paulistão, com ou sem título, e antes de ter a chance de disputar o Brasileiro.

Dentre as agremiações que disputam a Série A masculina, somente Santos e Flamengo têm vaga garantida na edição de 2015 do torneio nacional das mulheres. Amargando a Terceirona entre os homens, a Portuguesa também aparece em destaque na primeira divisão feminina.

História se repete e meninas do São Paulo pagam o preço pela segunda vez

Quinze anos antes, em 2000, o Tricolor fechava as portas de sua equipe feminina. Sucesso nos anos 90, com craques como Sissi e Kátia Cilene, o clube anunciou o fim da modalidade da noite para o dia a uma semana do início da disputa do Paulista daquele ano.

Hoje técnica do São José, próximo adversário das são-paulinas no caminho até o título, Emily Lima foi uma das atletas do São Paulo que precisaram correr atrás de outras equipes para continuar jogando. Ao comparar os momentos distintos que culminaram no fim da categoria no clube paulista, Emily disse à Gazeta Esportiva.net que as decisões diferem na inexperiência atual com o feminino em contraste com a má gestão do século passado.

Hoje no comando do São José, Emily Lima já se viu na situação das tricolores há 15 anos (Foto: reprodução/Instagram)
Hoje no comando do São José, Emily já se viu na situação das tricolores há 15 anos (Foto: reprodução/Instagram)

“É complicado. São pessoas que já estão no futebol feminino há muito tempo envolvidas com pessoas que nunca atuaram no futebol feminino e pegaram o São Paulo de surpresa (em 2015). Infelizmente, isso suja a modalidade e é um clube que já fechou as portas depois do Paulista por conta da má gestão (em 2000). Infelizmente eles não conheciam os gestores que entrariam com o patrocínio, porque se fossem do feminino não teriam feito essa parceria. São coisas que servem como aprendizado”, disse a treinadora.

Com os pagamentos do Tricolor atrasados, muitas jogadoras buscaram ajuda em outros clubes. A própria Emily admite ter levado duas atletas para o São José ao saber das dificuldades financeiras enfrentadas - e consideradas “comuns” no meio em virtude dos baixos salários na categoria. “Nós contratamos duas jogadoras quando não acertaram os salários delas. Elas estavam sem clube porque acabaram voltando para casa. A gente ficou sabendo e entrou em contato com elas através de um convite. Hoje, não falei com ninguém do São Paulo porque estão na competição ainda. Se conversarmos, vai ser quando acabar o Paulista”.

Mesmo com a eliminação após dois empates por 2 a 2, Emily vê futuro para a nova equipe do Santos, também reconstruída neste ano no embalo da gestão do presidente Modesto Roma Júnior. “Com o Modesto, eu tenho a plena certeza de que o Santos continua. E vou torcer muito para que ele fique lá (na presidência) por muito tempo. Tenho a plena certeza de que o Santos feminino tem futuro com o seu Modesto na presidência”, afirmou.

Embora a final ainda não tenha data definida pela Federação Paulista de futebol, a treinadora do São José aposta em triunfo na quarta decisão de estadual consecutiva da equipe - recorde no torneio -, também atual campeã mundial de futebol feminino. “Eu avalio o São Paulo como uma grande equipe, com jogadoras de muita qualidade técnica. Mas eu valorizo muito mais o nosso trabalho do que o deles, e tenho que valorizar muito mais as nossas atletas do que as deles”, finalizou a ex-jogadora, que precisou vencer o Audax por 1 a 0, em Osasco, para avançar à final.

Apesar da queda na semifinal do Paulista, o Santos feminino parece ter futuro na gestão de Modesto (Foto: Pedro Azevedo/Santos FC)
Apesar da queda na semifinal do Paulista, o Santos feminino parece ter futuro na gestão de Modesto (Foto: Pedro Azevedo/Santos FC)

*especial para a GE.net

Deixe seu comentário