A rápida conversa e o aperto de mão de Carlos Miguel Aidar, na terça-feira à tarde, não passaram de uma situação convencional, na opinião de Muricy Ramalho. O encontro com o presidente do São Paulo, no CT da Barra Funda, ocorreu dias depois de o treinador dar indiretas para aqueles que aparentemente o queriam fora do time.
"Numa boa, ele como presidente foi lá abraçar o técnico dele, porque é assim que tem que ser. Têm umas malas que não estão comigo, mas ele é o primeiro que tem que estar. Porque sou o cara de confiança dele. É simples. Eu não tenho nenhum problema de ele chegar e falar que não sirvo. Mas se estou aqui, ele tem que estar comigo. Foi uma coisa natural de presidente para técnico", disse, já na madrugada desta quinta-feira, depois do triunfo por 4 a 0 sobre o uruguaio Danubio, quando foi novamente ovacionado pelos torcedores no Morumbi.
O papo entre eles, com duração de menos de um minuto, foi um cessar-fogo público por conta da troca de declarações de ambos os lados. No início do ano, Aidar cobrou Muricy por títulos, alegando ter dado a ele as contratações pedidas para formar um elenco campeão. O treinador não gostou da pressão através da imprensa, e a relação entre eles ficou cada vez mais pior, principalmente depois que a principal torcida organizada do clube - que recebeu apoio financeiro do mandatário do clube recentemente - pediu a saída do treinador.
Muricy Ramalho recebeu apoio da torcida são-paulina na vitória por 4 a 0 sobre Danubio - Credito: Djalma Vassão/Gazeta Press
"As pessoas têm que deixar de pensar individualmente, têm que pensar no São Paulo. Todos nós temos manias, mas aqui o único pensamento tem que ser no São Paulo. Mas, infelizmente, futebol é complicado. Existem muitos interesses, vaidade. As pessoas não gostam de você e não tem coragem, ficam de ondinha. Já sei tudo aqui. As pessoas são as mesmas há 20 anos. Sempre a mesma coisa, e não muda. Tem que mudar um pouco o negócio. Já não me importo mais com isso, quero o São Paulo organizado. A gente tem que parar de pensar na gente, tem que pensar no clube", comentou.
"Fico triste às vezes porque futebol é coletivo, não é individual. Tem muita gente. Então, as pessoas têm que estar junto, não podem se separar. Esse negócio de eu ganho e ele perde, eu não aceito. Mas já passou. Está tudo certo. Importante é que a gente mantém os jogadores focados", destacou.
Passada a polêmica com a diretoria, Muricy comemorou os primeiros três pontos na Copa Libertadores e se disse agradecido pelo apoio vindo das arquibancadas. "A torcida realmente é sempre assim. Foi a torcida que me trouxe de volta. Muito legal, por isso trabalho muito duro. O que puder fazer no clube para a torcida eu faço. É muito legal ouvir isso, é o reconhecimento do trabalho da gente. Fico contente", disse o técnico, que encerrou a entrevista fazendo um pedido à gestão de Aidar, em nome dos torcedores que nesta quarta-feira protestaram contra o preço do ingresso (R$ 120).
"Realmente é difícil vir ao estádio e não poder entrar porque o preço realmente é alto. A gente tem que lembrar, ser grato a esse torcedor. Há um ano e pouco, a gente estava indo para a segunda divisão e eles nos trouxeram de volta para a primeira. Todo jogo era com Morumbi lotado. É claro que futebol precisa de dinheiro, mas torcedor é o principal ativo da gente, é quem sofre, quem vai para casa de ônibus, tarde. A gente tem que olhar com carinho esse preço", observou.