Capitão da Lusa, Valdomiro dispensa faixa e quer sair do "inferno"

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Em 2014, a Portuguesa foi rebaixada para a Série C do Brasileirão pela primeira vez em sua história. A temporada – encerrada na lanterna do Campeonato – foi triste para todos do elenco, mas um jogador específico parece ter sofrido mais do que os outros: o capitão e zagueiro Valdomiro.

A lesão no ligamento cruzado do joelho esquerdo ocorreu no dia 2 de fevereiro, na derrota por 4 a 2 contra o Audax-SP, ainda na disputa do Campeonato Paulista. Dez meses depois, plenamente recuperado, o retorno do beque aos gramados só foi possível no dia 28 de novembro, no revés contra o Vila Nova-GO, quando a Portuguesa já estava rebaixada para a Terceirona e o Canindé vivia clima de velório.

Em conversa com a Gazeta Esportiva.net, Valdomiro revelou suas expectativas para a temporada que se inicia. Aos 36 anos, o beque acredita em uma volta por cima da Lusa, mas avisa: para isso, será necessária a união de todos no clube para deixar, como ele mesmo define, o "inferno". Além disso, o jogador evitou criticar a polêmica gestão do ex-presidente Manuel da Lupa – apesar de admitir que vontade não lhe falta – e, surpreendentemente, mostrou-se indiferente em relação à faixa de capitão, que ostenta na equipe. Quanto ao Paulistão, Valdomiro acredita que nem mesmo a “tempestade” pelos lados do Canindé tira a obrigação que a Portuguesa tem de lutar pelo título estadual – a Lusa não o conquista desde 1973. A estreia no Campeonato está marcada para este domingo, dia 1º de fevereiro, contra a Ponte Preta, no Moisés Lucarelli.

Na Portuguesa desde 2012, Valdomiro foi

Na Portuguesa desde 2012, Valdomiro foi "do céu ao inferno" com o clube - Credito: Fernando Dantas/Gazeta Press

Gazeta Esportiva: O ano passado já começou ruim para você, com a lesão logo em fevereiro e o retorno em um jogo oficial só em novembro, quando o time já estava rebaixado. Enquanto isso, a Portuguesa sofreu 59 gols, o dobro dos 29 que marcou. Até que ponto você acha que a sua ausência como zagueiro-capitão foi determinante pra uma campanha tão ruim da defesa e do time como um todo?

Valdomiro: Nossa, esses números aí são assustadores. Isso que aconteceu foi o resultado de todo um planejamento equivocado do departamento de futebol, cheio de erros circunstanciais. Contratamos dezenas de jogadores na mesma janela, isso tudo contribui para um ano difícil como foi 2014. Infelizmente, tive o azar de me machucar e não pude ajudar, só joguei na última rodada e isso me chateia. Mas paciência, agora é bola para frente.

GE.net: A queda inédita para a Série C te fez chorar?

Valdomiro: É difícil, você pega carinho pelo time e vê uma coisa dessas acontecer. Mas chorar não adianta mais, contra fatos não há argumentos ou lágrimas. Agora é trabalhar para tirar o time dessa situação.

GE.net: Você acha que teria sofrido mais ainda se tivesse jogado a temporada inteira, ou acompanhar o time de longe foi ainda pior?

Valdomiro: Olha, fico triste por ter me ausentado no Campeonato, sem poder ajudar o grupo, mas o futebol é um esporte coletivo. Na minha opinião, não seria a minha presença que mudaria tudo da água pro vinho.

GE.net: Você chegou na Lusa em 2012, no ano seguinte ao grande título da Série B. Qual é a diferença entre o ambiente que você encontrou quando chegou, e o ambiente atual, depois de duas quedas seguidas?

Valdomiro: É do céu ao inferno, né. Quando eu cheguei, encontrei um cenário de festa, com uma boa base montada, o time era chamado de “Barcelusa”. Hoje é o oposto disso, temos um time em reconstrução após muito sofrimento. Mas essa tempestade vai passar, tenho certeza.

Com a faixa de capitão no braço e espírito aguerrido, o zagueiro conquistou a torcida da Lusa mesmo em meio à crise

Com a faixa de capitão no braço e espírito aguerrido, o zagueiro conquistou a torcida da Lusa mesmo em meio à crise - Credito: Fernando Dantas/Gazeta Press

GE.net: Conversei recentemente com o técnico Ailton Silva e, segundo ele, o presidente Ilídio Lico garantiu que a crise política não vai afetar o elenco nesse ano. Em 2014, como foi essa questão? Os jogadores foram afetados pela repercussão do caso Heverton?

Valdomiro: Por mais que a diretoria também tenha prometido isso no ano passado, é claro que o elenco fica abalado. Principalmente pela questão financeira, que acabou prejudicando até mesmo o pagamento dos nossos salários.

GE.net: Dentro de campo, você acha que uma reformulação é necessária ou o elenco atual é capaz de dar conta do recado? Até onde você acredita que o time consegue ir nesse Paulista?

Valdomiro: A reformulação que precisávamos está acontecendo, mas não pode parar por aí. Precisamos ver se o time vai dar “liga”, se vai funcionar. Até os times grandes têm dificuldades no Paulista, mesmo com bases sólidas já montadas. Veremos muitos times badalados patinando, pode ter certeza. Se até eles vão sofrer, imagina um time como o nosso que está se reconstruindo? Não consigo prever até onde chegaremos porque não tenho bola de cristal, mas posso garantir que empenho não vai faltar.

GE.net: Qual é a sua avaliação sobre o polêmico mandato do ex-presidente Manuel da Lupa?

Valdomiro: Eu acho covardia criticar a gestão sendo que ele não está aqui para se defender, mas se algum dia eu o encontrar, posso falar na cara dele sem problema algum. Prefiro assim, acho mais correto. De resto, eu sou um jogador de futebol, e era subordinado a ele, ao chefe. Por mais que eu queira falar muita coisa, não vou fazer isso, preciso respeitar essa hierarquia.

GE.net: Você surgiu como um dos líderes do Bom Senso FC, mas acabou se afastando do movimento. Houve algum motivo específico para isso?

Valdomiro: Não teve um motivo específico, eu simplesmente vi que as coisas não se resolviam. As reuniões acontecem, mas o movimento é carregado de utopia. Respeito muito o trabalho e o envolvimento dos atletas que estão lá, mas percebi que não era para mim.

GE.net: Vocês estreiam no Paulista contra a Ponte Preta, que vem com uma boa base após o vice na Série B. Qual é a sua avaliação do primeiro adversário?

Valdomiro: Olha, a Ponte tem um treinador muito competente (Guto Ferreira, ex-técnico da Portuguesa), e vem com uma base sólida depois do bom trabalho na Série B. Mas o futebol é 11 contra 11. A gente pode tentar analisar o quanto quiser, mas na hora é olho no olho.

Tranquilo, Valdomiro não tratou a faixa de capitão como prioridade

Tranquilo, Valdomiro não tratou a faixa de capitão como prioridade - Credito: Fernando Dantas/Gazeta Press

GE.net: Já sabe se continua sendo o capitão da Lusa em 2015? Já teve essa conversa com o Ailton Silva?

Valdomiro: Isso não muda nada, sinceramente. Não me importo. O meu perfil de liderança vai continuar o mesmo de qualquer forma, com ou sem a faixa. Na verdade, é até melhor ficar sem ela, assim a responsabilidade cai menos sobre mim. Então é isso: estou c... e andando para a faixa de capitão. Posso ficar sem ela.

GE.net: Aos 36 anos, você tem planos de encerrar a carreira ou ainda tem muita lenha para queimar?

Valdomiro: Tenho lenha para queimar sim, com certeza. Enquanto eu aguentar os treinamentos, estarei à disposição. Posso dizer que estou aguentando muito bem, a preparação para o Paulista tem sido muito boa.

GE.net: Por quantos anos você acredita que consegue contribuir em alto nível com a Lusa?

Valdomiro: Em alto nível? Se tudo der certo, por mais dois anos.

GE.net: Para finalizar, se você pudesse escolher uma das duas opções agora, escolheria levar a Lusa de volta para a Série A do Brasileiro ou ganhar o Paulista, algo que não acontece com a Portuguesa desde 1973?

Valdomiro: Eu não trato o Paulista como um sonho, porque eu acho que é a obrigação de todos os grandes times brigarem por esse título ano após ano. Com a Portuguesa não deve ser diferente nunca, independente da fase. Por isso, trato o título como obrigação, objetivo. Quanto à Série A, sonhar é muito bom, mas precisamos nos recuperar passo a passo. Primeiro vamos buscar o acesso para a Série B, e depois pensamos na elite. No processo de renovação em que estamos, é fundamental não darmos um passo maior do que a perna.

Valdomiro torce por dias melhores para a Portuguesa, mas mantém os pés no chão

Valdomiro torce por dias melhores para a Portuguesa, mas mantém os pés no chão - Credito: Sergio Barzaghi/Gazeta Press

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