Após prometer virar ídolo, Valdivia deixa títulos, dívida e polêmicas

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Por Valdivia, clube gastou cerca de R$ 25 milhões com salários e luvas e tem até 2016 para quitar dívida próxima de R$ 40 milhões (Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press)
Por Valdivia, clube gastou cerca de R$ 25 milhões com salários e luvas e tem até 2016 para quitar dívida próxima de R$ 40 milhões (Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press)

Valdivia chegou em agosto de 2010  querendo se equiparar a Marcos e Ademir da Guia (Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press)

"O Palmeiras é a minha casa. O filho voltou à sua casa. Assinei contrato de cinco anos e pretendo me tornar um verdadeiro ídolo, como Marcos e Ademir da Guia." A declaração foi dada por Valdivia em sua apresentação, em 12 de agosto de 2010. Seu vínculo acaba nesta segunda-feira, com dois títulos conquistados (um deles de Série B do Brasileiro), uma série de polêmicas e uma dívida que o clube ainda precisa pagar.

Para trazer o chileno, o então presidente Luiz Gonzaga Belluzzo disse que "tudo vale a pena quando a alma não é pequena" e fez dele o jogador mais caro do elenco - foram gastos cerca de R$ 25 milhões com salários e luvas, e o meia ainda cobra R$ 1 milhão de comissão ao seu pai. Para pagar € 6 milhões (na época, R$ 14 milhões) ao Al Ain, dos Emirados Árabes Unidos, conseguiu cerca de € 2 milhões do conselheiro Osório Furlan Junior, que ficou com 36% dos direitos econômicos e termina a passagem sem lucrar nada, além dos recursos de uma carta de crédito do banco Banif.

Mas o Verdão não honrou os pagamentos, e a dívida com o banco ficou próxima dos R$ 40 milhões, por conta dos juros. A diretoria atual paga parcelas mensais dentro do prazo estabelecido para quitar a conta, que terminará em 2016. Um ano depois de o camisa 10 sair jogando menos da metade das partidas que poderia.

O meia só esteve em 148 dos 336 jogos do clube em cinco anos - excluindo as nove partidas realizadas após a diretoria anunciar que ele apenas treinaria até o fim de seu contrato. Devido a lesões, suspensões, convocações e problemas extracampo, Valdivia atuou apenas em 44,04% dos compromissos da equipe desde sua reestreia, em agosto de 2010.

Meia atuou em menos da metade dos jogos e sai indignado com oferta de produtividade (Foto: Djalma Vassão)

Meia atuou em menos da metade dos jogos e sai indignado com oferta de produtividade (Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press)

Em 2012, superou sequestro para ser campeão da Copa do Brasil, mas, no segundo semestre, deu apenas uma assistência, não fez gol e pouco atuou na campanha do rebaixamento no Brasileiro. Começou o ano seguinte dizendo que tinha a seleção chilena como prioridade e acabou ajudando o time a conquistar o pouco honroso título da Série B.

Nessas cinco temporadas, o meia enfrentou a sina de problemas em jogos decisivos. Como números positivos, porém, Valdivia virou o estrangeiro com mais vitórias pelo clube (122) e o segundo que mais atuou (com 241 jogos, ficou a dois do paraguaio Arce, que defendeu o clube por cinco anos, dois a menos do que o chileno na soma de suas duas passagens).

Antes de sair, Valdivia se indignou com a proposta de renovação por salário fixo de R$ 120 mil, somados a R$ 60 mil por cada jogo como titular, e chegou a negociar com o São Paulo na última semana, após prometer que nunca jogaria por um rival. Vai para o Al Wahda, dos Emirados Árabes Unidos. Ainda admirado por alguns palmeirenses, odiado por outros, e certamente longe da idolatria de Ademir da Guia e Marcos - uma rara unanimidade envolvendo o chileno.

Relembre as histórias acumuladas por Valdivia em cinco anos no Palmeiras:

2010: Festa e fibrose

Fibrose e lesão na coxa esquerda atrapalharam primeiro semestre do meia  (Foto: Marcelo Ferrelli/Gazeta Press)

Fibrose e lesão na coxa esquerda foram os primeiros obstáculos do chileno (Foto: Marcelo Ferrelli/Gazeta Press)

Valdivia começou a nova passagem perdendo voo nos Emirados Árabes Unidos e frustrando 20 torcedores que o esperavam em Guarulhos. Mas foi apresentado com duas festas, uma para imprensa e convidados no Salão Nobre do Palestra Itália e outra para a torcida, dando volta olímpica abraçado a Ademir da Guia, no Pacaembu. Reestreou em 22 de agosto, entrando no intervalo de empate sem gols diante do Guarani, em Campinas.

Mostrou problema muscular logo em seu terceiro jogo, mas arremessou copos d'água e agasalho e fez xingamentos duas vezes por irritação ao ser substituído por Luiz Felipe Scolari. O técnico passou a deixá-lo na reserva e retirá-lo dos jogos com menos de 20 minutos, garantindo que não havia contusão, apenas uma fibrose (como se fosse uma cicatriz muscular) na coxa esquerda. Em novembro, o departamento médico detectou lesão de meio centímetro, com edema e sangramento, e o meia não jogou mais na temporada - ficou fora da eliminação na semifinal da Copa Sul-Americana e da reta final do Brasileiro.

No ano, Valdivia chegou a receber homenagens por seu centésimo jogo pelo clube, mas, em dezembro, ameaçou sair por se sentir desrespeitado: a diretoria queria que ele assinasse um termo no qual garantia se cuidar durante as férias. "Se o Palmeiras quiser que eu volte em 2011, tem que me respeitar, incluindo o técnico", disse o meia à rádio Estadão/ESPN. Recentemente, reclamou que Felipão pedia para ele atuar com dores, mas não cumpria a promessa de assumir a responsabilidade publicamente.

Saldo de Valdivia no ano: 19 jogos (63,3% do time desde sua reestreia), dois gols e uma assistência.

2011: Lesões, Carnaval e suspensão na seleção

Meia virou desfalque de última hora e foi ao Sambódromo à noite  (Foto: Amauri Nehn/News Free/Gazeta Press)

Meia virou desfalque de última hora e foi ao Sambódromo à noite (Foto: Amauri Nehn/News Free/Gazeta Press)

Valdivia só estreou no fim de fevereiro e, no sábado de Carnaval, queixou-se de incômodo muscular horas antes do jogo contra o Santo André - nos últimos cinco anos, não entrou em campo durante o feriado nenhuma vez. À noite, estava no sambódromo para acompanhar o desfile das escolas paulistanas, exatamente quando a corintiana Gaviões da Fiel passava pelo Anhembi – a palmeirense Mancha Verde havia se apresentado na sexta-feira.

Teve nova sequência de lesões musculares, uma delas sentida após dar seu "chute no vazio", sendo substituído no início da semifinal do Paulista na qual o time foi eliminado pelo Corinthians, nos pênaltis. O problema o deixou fora da derrota por 6 a 0 para o Coritiba que tirou o clube da Copa do Brasil. Foi desfalque também da queda na Copa Sul-Americana, contra o Vasco, por estar com a seleção e, na última partida no ano, recebeu cartão vermelho no início do segundo tempo no Derby sem gols que deu o título brasileiro ao Corinthians.

Em maio, ao Jornal da Tarde, o presidente Arnaldo Tirone disse que "não dá vontade de pagar o Valdivia, ele não está querendo nada, eu toparia trocá-lo pelo Dagoberto com o São Paulo". Fora de campo, o meia teve de lidar ainda com a divulgação da foto de um caso extraconjugal, atropelamento de jornalista na saída do CT da seleção chilena, furto durante amistoso pelo Chile na Suíça e acabou suspenso na seleção após, segundo o técnico Claudio Borghi, ter se apresentado com atraso e em "estado inadequado" por exagerar no consumo de bebida alcoólica durante o batizado de um dos filhos.

Saldo de Valdivia no ano: 28 jogos (41,2% dos jogos do time), quatro gols e nenhuma assistência.

2012: Sequestro, título e rebaixamento

Meia foi desfalque na decisão, mas levantou a taça da Copa do Brasil em 2012 (Foto: Sergio Barzaghi/Gazeta Press)

Valdivia foi desfalque na decisão, mas ergueu taça da Copa do Brasil em 2012 (Foto: Sergio Barzaghi/Gazeta Press)

Valdivia convivia com cânticos de cobrança de torcidas organizada e iniciou o ano sem lesão, mas, no início de fevereiro, já era desfalque por duas contusões diferentes. Por problema na coxa esquerda, participou de menos de meia hora da derrota para o Guarani que tirou o time nas quartas de final do Campeonato Paulista. No jogo seguinte, o meia adotou um bigode, estratégia que tirou o foco de sua condição física. Em abril, biopsia detectou que ele não tinha musculatura de atleta, colaborando com as recomendações para reduzir o consumo de bebida alcoólica - dois anos depois, o mesmo exame apontou condição física igual à dos colegas.

Em junho, sofreu sequestro-relâmpago e foi liberado para voltar ao Chile com a família - sua esposa queria morar fora do Brasil. Colocou a permanência no Palmeiras em dúvida, mas voltou para fazer o gol da classificação à final da Copa do Brasil, sobre o Grêmio, e, na ida da decisão, converteu pênalti e foi expulso. Sem entrar em campo, destacou-se gritando, pulando e cantando na festa do título em Curitiba e em São Paulo.

Já em julho, ao receber oferta de clube do Catar, disse que "contratos são feitos para serem quebrados". Não foi vendido e, em outubro, machucou o joelho esquerdo, ficando fora da eliminação na Copa Sul-Americana, contra o colombiano Millonarios, e da reta final da campanha que culminou com o rebaixamento no Brasileiro. Irritado, Marcos Assunção chegou a dar um soco no meia nos vestiários, acusando-o de pouco esforço.

Saldo de Valdivia no ano: 34 jogos (46,6% dos jogos do time), três gols e duas assistências.

2013: Atraso na volta das férias e ataque em aeroporto

No ano em que jogou a Série B, meia foi protegido pelo elenco de ataque da Mancha (Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press)

No ano em que jogou a Série B, meia foi protegido pelo elenco de ataque da Mancha (Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press)

Valdivia se apresentou para a pré-temporada com quatro dias de atraso e recebeu multa. Alegou que havia realizado trabalho físico no Chile durante o descanso e queria terminar o tratamento e chegou colocando a seleção como prioridade - ouviu a orientação do técnico Jorge Sampaoli para ficar e disputar a Série B. Pouco atuou no primeiro semestre. Quando exames apontavam que uma lesão na coxa direita estava cicatrizada, o meia disse voltar a sentir dores logo após o presidente Paulo Nobre vetar sua ida a amistosos do Chile e, assim, ficou fora das eliminações do Verdão no Paulista e na Libertadores.

Em março, o chileno apontou seu órgão genital a torcedores da Mancha Alviverde no aquecimento da derrota para o Tigre, na Argentina, e, no dia seguinte, membros da organizada tentaram agredi-lo no aeroporto, ainda em Buenos Aires. O elenco protegeu Valdivia do arremesso de xícaras, e estilhaços acabaram ferindo o goleiro Fernando Prass.

O técnico Gilson Kleina decidiu poupá-lo de treinos para tê-lo em campo e viu seu jogador mais caro presente em boa parte da Série B do Brasileiro, inclusive no jogo do acesso (0 a 0, sob vaias, diante do São Caetano, no Pacaembu). Apesar de um edema na coxa direita tirá-lo da derrota para o Atlético-PR que eliminou o clube nas oitavas de final da Copa do Brasil.

Saldo de Valdivia no ano: 27 jogos (39,7% dos jogos do time), quatro gols e 12 assistências.

2014: Disney e sacrifício

Chileno tomou infiltrações para ajudar o time a escapar do rebaixamento (Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press)

Chileno tomou infiltrações para ajudar o time a escapar do rebaixamento (Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press)

Seguindo o planejamento de maior preparo físico, Valdivia estreou apenas no terceiro jogo da temporada e, mesmo assim, sentiu dores no tornozelo direito que só o deixaram atuar por 24 minutos na eliminação na semifinal do Paulista, contra o Ituano. Mas a diretoria cumpriu a promessa de liberá-lo com antecedência para a preparação com a seleção para a Copa do Mundo.

Durante o Mundial, o Palmeiras o vendeu ao Al Fujairah por € 5,5 milhões (quase R$ 17 milhões na época), e Valdivia foi aos Emirados Árabes Unidos, tirando foto com a camisa do clube. Fez exigências após assinar contrato e partiu para férias na Disney. Garantiu não ter acesso à internet, embora sua esposa publicasse fotos dos passeios no Instagram, e não acompanhou que o negócio se desfez. Voltou ao Verdão e, aos 14 minutos de seu primeiro jogo, sentiu lesão na coxa direita que o tirou do time por todo o mês seguinte.

Em novembro, o meia machucou a coxa direita novamente, dessa vez em treino pela seleção, e tomou injeções analgésicas para entrar em campo pelo Palmeiras no primeiro tempo diante do Coritiba e durante toda a partida contra o Atlético-PR, na última rodada do Brasileiro. Terminou o ano saudado por torcedores pelo esforço para evitar o rebaixamento do clube.

Saldo de Valdivia no ano: 29 jogos (46,1% dos jogos do time), quatro gols e seis assistências.

2015: Briga com Mattos e adeus

No último jogo, Valdivia foi decisivo para o time vencer o Corinthians em Itaquera (Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press)

No último jogo, Valdivia foi decisivo para o time vencer o Corinthians em Itaquera (Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press)

Recém-contratado, o diretor de futebol Alexandre Mattos acatou o pedido de Valdivia para passar alguns dias no Chile se tratando com José Amador, fisioterapeuta cubano que o atendeu particularmente desde 2013 e até no Palmeiras. Mas o dirigente nunca demonstrou convicção na renovação do contrato do meia e foi atacado pelo jogador no Twitter.

Enfim recuperado da lesão na coxa direita que só não o impediu de ir ao Carnaval em Salvador, o camisa 10 estreou no ano em abril, mas desfalcou o time no primeiro jogo da final do Paulista por edema no joelho esquerdo. Fez sua despedida do clube em grande atuação na vitória por 2 a 0 sobre o Corinthians, em Itaquera, em 31 de maio, pelo Brasileiro.

Acertou com o Al Wahda durante a Copa América e, quando se reapresentou, a diretoria preferiu deixá-lo apenas treinando, em horário diferente do resto do elenco, até o fim de seu contrato, cedendo rapidamente a camisa 10 para Lucas Barrios. "Foram cinco anos maravilhosos. Aprendi a amar o Palmeiras. Poderia ter feito corpo mole várias vezes, mas nunca fiz. A diretoria ficou com papinho furado e a minha permanência não aconteceu, infelizmente", despediu-se Valdivia.

Saldo de Valdivia no ano: 10 jogos (27,7% dos jogos do time), nenhum gol e duas assistências.

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