Ofensas contra Maignan reabrem debate sobre racismo no futebol italiano - Gazeta Esportiva
Ofensas contra Maignan reabrem debate sobre racismo no futebol italiano

Ofensas contra Maignan reabrem debate sobre racismo no futebol italiano

Gazeta Esportiva

Por AFP

22/01/2024 às 18:54

São Paulo, SP

Quem é responsável? Os insultos racistas proferidos no sábado contra o goleiro francês Mike Maignan obrigam o futebol italiano a se perguntar novamente sobre sua responsabilidade em um fenômeno que se repete.

Em 24 horas, Maignan pode ter deixado uma marca mais profunda na história do futebol italiano do que nas duas temporadas em que atua pelo Milan.

No estádio da Udinese, vários torcedores fizeram sons de macaco para atacar o goleiro, que deixou o campo com o incidente, o que obrigou o árbitro a paralisar a partida por alguns minutos.

No dia seguinte, Maignan expôs a responsabilidade do futebol italiano em episódios como este: "Se vocês não fazem nada, VOCÊS TAMBÉM SÃO CÚMPLICES", escreveu em uma mensagem nas redes sociais.

Enquanto a Justiça tenta identificar os autores dos insultos racistas através de vídeos internos do estádio, a Federação Italiana de Futebol (FIGC) está exposta mais uma vez.

"Nosso regulamento definido em 2019 funcionou, ninguém fingiu que não viu (...) A interrupção de um jogo é uma mensagem muito forte", disse em entrevista à Rai 1 o presidente da FIGC, Gabriele Gravina, em referência ao artigo 62 das "regras de organização interna" da federação.

Questão de ordem pública 

Este artigo foi adotado depois que o jogador senegalês Kalidou Koulibaly, então no Napoli, foi expulso em dezembro de 2018 por aplaudir ironicamente o árbitro, que não tinha interrompido a partida após insultos racistas.

"Nosso regulamento é o mais severo da Europa nesse quesito", afirma a FIGC.

O artigo 62 também prevê a suspensão definitiva de um jogo em caso de reincidência dos insultos, algo que nunca chegou a acontecer.

"A suspensão definitiva de um jogo com milhares de espectadores em um estádio é uma questão de ordem pública, não é algo que nós podemos decidir", defende-se Gravina.

No sábado, em Udine, a partida foi retomada depois de cinco minutos de paralisação. "Dissemos ao capitão e ao técnico do Milan que tínhamos feito tudo para garantir a Maignan a máxima proteção", explicou o árbitro Fabio Moresca ao jornal Il Messaggero.

Após o jogo, que terminou com vitória do Milan por 3 a 2, Maignan prestou depoimento no Bluenergy Stadium de Udine durante 40 minutos.

Posteriormente, representantes de segurança da FIGC transmitiram um relatório à comissão disciplinar, que anunciará a eventual punição contra a Udinese nesta terça-feira.

Segundo o artigo 28 do código da FIGC, um clube é responsável pelo comportamento de seus torcedores se seus gritos, insultos ou comportamentos discriminatórios são amplamente escutados ou difundidos.

No entanto, estes não foram ouvidos na transmissão de televisão nem por outros jogadores. Seriam "cerca de 20 pessoas no meio de uma arquibancada com 4.600 espectadores", diz uma fonte com conhecimento sobre o processo.

Volta dos "maus hábitos"

Mesmo que o artigo 8 preveja o fechamento do setor da arquibancada envolvido por um jogo ou mais, a suspensão do estádio ou até a exclusão do clube do campeonato, a Udinese pode apenas ter que pagar uma simples multa.

E, quando os clubes são punidos com o fechamento das arquibancadas durante um jogo, como ocorreu com a Lazio no início de janeiro por insultos contra o atacante belga Romelu Lukaku, da Roma, apresentam sistematicamente um recurso.

"Temos que trabalhar com as pessoas que vêm aos estádios para que não deixem explodir certos impulsos", defende Umberto Calcagno, presidente da Associação Italiana de Jogadores (AIC).

Segundo a AIC, metade dos insultos contra jogadores são de caráter racista.

Em 2023, 2.956 torcedores foram proibidos de entrar em estádios por comportamentos discriminatórios e atos de violência, contra os 1.865 de 2022.

"Depois da pandemia de covid-19, é como se as pessoas tivessem voltado aos maus hábitos", explica à AFP o sociólogo Nicola Ferrigni.

"É como se as instituições tivessem relaxado um pouco, depois de terem conseguido [antes da pandemia] levar as famílias ao estádio", acrescenta Ferrigni.

Segundo o sociólogo, o futebol italiano está atrasado na integração dos torcedores "ultras". "O desenvolvimento dos 'Supporter Liason Officers', que fazem a ponte entre clubes e torcedores, é muito tímido na Itália em comparação ao que se faz em outros lugares da Europa".

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