Na virada de 2014 para 2015, enquanto milhares faziam pedidos diversos na praia de Copacabana, a resolução de ano novo nas Laranjeiras era de renovação. O rompimento do patrocínio da Unimed com o Fluminense deixou o clube em estado de alerta, precisando preencher uma lacuna de bons jogadores. E a principal esperança do Tricolor se voltou para os jovens atletas da base, fruto de um investimento da gestão de Peter Siemsen, que já previa o fim da parceria.
“Isso faz parte de um projeto desenhado em 2011, já prevendo uma saída da Unimed. Naquele ano, o Fluminense começou com esse investimento pesado na base na questão estrutural, com profissionais de ponta, viagens para o exterior… Tudo feito de modo que pudesse qualificar melhor os atletas para o momento em que a Unimed saísse, o Fluminense tivesse dentro de casa os jogadores que já pudessem suprir isso. Foi tudo planejado e é fruto de algo que vem correndo ao longo dos últimos anos”, explicou o gerente da base do Flu, Marcelo Texeira, à Gazeta Esportiva.net.
O contrato com a Unimed ia até 2016, mas a empresa tinha a opção de reavalia-lo e rompê-lo a cada ano. E assim optou por fazer em dezembro de 2014, fechando um ciclo de 15 anos de parceria com o clube das Laranjeiras. A antiga patrocinadora justificou a decisão oficialmente como “fruto de uma revisão da estratégia de marketing da empresa”.
Fred foi um dos jogadores com o qual o Fluminense decidiu renovar - Credito: Nelson Perez/Fluminense FC
Com a saída da Unimed, o Fluminense precisou priorizar alguns jogadores, conseguindo segurar Diego Cavalieri, Gum e Fred no clube. Mas acabou assistindo Bruno, Carlinhos, Rafael Sóbis, Walter, Chiquinho, Diguinho e o argentino Dario Conca se despedirem das Laranjeiras. Na contramão, nomes como Gerson, Kenedy, Marlon e Robert, todos vindos da base tricolor, vem ganhando espaço no elenco principal, atraindo os olhares novamente para Centro de Treinamento dos jovens atletas, localizado em Xerém.
Os planos do Fluminense foram modificados algumas vezes durante o Campeonato Carioca. A queda de Cristóvão Borges, cujo posto de técnico foi assumido por Ricardo Drubscky revela a preocupação financeira em conter os gastos. A eliminação no estadual na fase semifinal também acrescentou maior pressão ao elenco por um bom Campeonato Brasileiro, mirando principalmente os quatro primeiros lugares. Após terminar o Brasileirão de 2014 em sexto lugar, a grande esperança da comissão técnica é nas jovens promessas.
A estreia do Tricolor no Brasileiro deste ano será diante do Joinville, neste sábado, às 21 horas (de Brasília), no Maracanã. O clube, que sempre revelou grandes nomes, voltou a se preocupar com o maior investimento da base. E a formação de atletas é a “carta na manga” do Fluminense para esta temporada, com projetos ambiciosos e preocupação com a qualidade da infraestrutura em Xerém. O gerente Marcelo Teixeira, em entrevista exclusiva, explicou detalhes do atual planejamento.
Gazeta Esportiva.net - O maior aproveitamento de atletas da base no time principal este ano foi fruto do fim da parceria com a Unimed?
Marcelo Teixeira- Sim, com certeza. Com a saída da Unimed, o Fluminense deixou de ter uma receita importante de patrocínio e naturalmente fomos obrigados a reduzir nosso orçamento. Com isso abriu-se o espaço e a oportunidade de aproveitar os meninos na equipe principal.
Kenedy é um dos principais nomes da 'nova geração' das Laranjeiras - Credito: Nelson Perez/Fluminense FC
GE.net - A Unimed já direcionou alguma verba para a base? Existia algum acordo no clube que previa investimentos em jogadores ou mesmo na estrutura de Xerém?
A verba era exclusivamente destinada ao salário dos atletas do time principal. Todo o investimento do Xerém veio de dentro do próprio clube.
GE.net - Durante o período de fortes investimentos da Unimed, a base sentiu, de alguma forma, que o patrocínio "minava" a ascensão de jovens ao time principal?
Marcelo Teixeira- Não, de forma nenhuma. Criamos um projeto aqui que era internacional, onde colocamos jogadores que não tinham espaço no primeiro time em clubes no exterior, onde ganhavam maior rodagem. O patrocínio foi fundamental porque o clube ganhou diversos títulos e chegou à final da Libertadores (em 2008). Era fantástico ter um patrocínio assim, porque quando os jogadores subiam da base ao time principal acabavam muito valorizados. É o que ocorreu com o Wellington Nem, que se tornou um jogador de destaque quando fomos campeões em 2012.
GE.net - Quais são os clubes de fora do Brasil que tem um acordo com o Fluminense?
Marcelo Teixeira- Temos relacionamento com muitos. O Kansas City, nos Estados Unidos, o Légia Varsóvia, da Polônia, o Espanyol, o Barcelona. Há também times na República Tcheca e na França. São todos parceiros formais. Temos também diversos parceiros informais e jogadores que participam deste intercâmbio.
GE.net - No início do ano, o Fluminense tinha 11 jogadores da base integrando o elenco principal. Com a Copinha e os convocados para o sub-20, os atletas tiveram uma evidência ainda maior - tanto que Marlon Freitas e Stefano foram para os Estados Unidos. Diante de tanta atenção, como vocês fazem para evitar assédios e aliciamentos de outros clubes?
Marcelo Teixeira- Este ano temos o aproveitamento de muitos meninos, o sucesso do Marlon, do Kenedy, do Gerson, até o Biro Biro, que tem jogado bem na Ponte Preta. A gente tem meninos indo muito bem. É evidente que com o sucesso que a base tem recentemente, alguém ia correr atrás. Existe um assédio natural no mercado, mas hoje o Fluminense busca se cercar das formas legais com as quais pode, fazendo contrato de formação, contrato profissional quando fazem 18 anos e oferecendo e mostrando para o mercado que o Fluminense tem um projeto diferenciado na formação, tem estrutura, profissionais de ponta e disputamos competições fora do Brasil o tempo todo.
O gestor do Fort Lauderdale Strikes, André Chaves, entre Marlon Freitas e Stéfano, contratados pelo clube no início do ano - Credito: Divulgação
GE.net - Recentemente o Fluminense teve problemas com o Vasco, que fechou um contrato com o atleta da base Paulo Vitor sem a liberação do Tricolor. Mesmo com o boicote previsto pelo Movimento Futebol de Base, o clube tem medidas internas para estas situações? Existe alguma orientação por parte dos profissionais para com os atletas?
Marcelo Teixeira- Sempre existe. Há toda a uma equipe que está próxima dos atletas. A melhor forma que você tem pra se proteger é a forma legal, fazendo contrato de formação, contrato legal. O Paulo Vitor foi um caso de aliciamento de um jogador que tinha contrato conosco, então, neste caso, estamos amparados pela lei. Um jogador não pode acertar com um clube mantendo contrato vigente com outro. Isso é garantido por lei.
GE.net - O Movimento Futebol de Base Brasileiro modificou alguma coisa na representatividade da formação de atletas no Brasil?
Marcelo Teixeira- Esse movimento é muito bacana e muito importante, que vem contribuindo de diversas formas na formação de atletas no Brasil. A primeira questão é sobre o código de ética: quando ele se estabeleceu, reduziu drasticamente o número de assédios de atletas de um clube para outro, o que facilitou muito, porque hoje desembolsamos cada vez menos com questões legais para manter nossos atletas no clube. Isso (aliciamento dos clubes) praticamente inexiste, são casos isolados. Criou-se uma união entre os clubes para que campeonatos sejam criados. O Brasileiro sub-20, por exemplo, vai ter sua primeira edição. Tem também a normatização de questões como a idade para disputar campeonatos. É uma organização bastante benéfica, que contribui de forma muito atuante na formação de jogadores no Brasil.
GE.net - Vocês ganharam mais espaço entre as entidades do futebol após o 7 a 1 e os exemplos de gestão administrativa alemã?
Marcelo Teixeira- O Movimento tem uma força muito grande desde o seu início, porque fazem parte deste movimento todos os grandes clubes do futebol brasileiro. É claro que depois da derrota para a Alemanha nossas entidades passaram a dar maior atenção a base e ampliou-se o debate. Em função disso, a CBF criou uma coordenação de categoria de base, com pessoas que faziam parte do nosso movimento, colocando um canal para discussão lá dentro que serve para debatermos a melhoria e a evolução das categorias de base no Brasil.
Movimento Futebol de Base reúne principais clubes do país e ganhou canal de comunicação direto com a CBF(Foto: Fábio Manotti/Ag. Palmeiras) - Credito: Divulgação
GE.net - Como você avalia, hoje, o calendário da base do Brasil? As competições são o suficiente? O Movimento hoje trabalha por um campeonato forte?
Marcelo Teixeira- A gente já conseguiu uma evolução muito grande em relação a um passado recente. Hoje temos Copa do Brasil sub-17 e sub-20, já temos Campeonato Brasileiro sub-20. Ainda há o que trabalhar, mas temos uma evolução em relação ao que tínhamos antes. O ideal é ter um calendário nacional para a base. Hoje a CBF disponibiliza e coordena um calendário das equipes profissionais, então ainda temos conflitos com torneios da CBF e torneios estaduais ocorrendo simultaneamente. Isso acaba coincidindo as competições e colidindo com datas importantes. Nossa briga é por um campeonato nacional de base, por um campeonato brasileiro sub-20 e sub-23.
GE.net - Quais são as próximas medidas que vocês pretendem tomar em relação aos rumos da base no Brasil? Quando será a próxima reunião?
Marcelo Teixeira- A gente se reúne periodicamente para abordar novos temas, apresentando as discussões para a CBF ou as federações. Tivemos um avanço muito significativo com a criação da coordenação de base de futebol brasileiro, então agora temos um canal aberto de diálogo. Tem sido bom para colocar em pauta discussões de unificação do calendário nacional.
GE.net - Os atletas recebem alguma ajuda de custo?
Marcelo Teixeira- A partir dos 14 anos os meninos têm a bolsa-formação. Em alguns casos, atletas mais novos têm, e a partir dos 16, todos têm contrato e recebem um salário mínimo. Entre 14 e 16 alguns ganham mais e outros menos. O critério é sempre a qualidade dos atletas. Um atleta que está na seleção sub-15, por exemplo, tem o salário melhor. Todos tem cláusulas de performance, que envolvem convocações para a seleção e bom desempenho em campo.
GE.net - Como é a questão dos estudos com os jogadores da base. Há algum convênio com as escolas próximas? Existe um monitoramento das notas dos atletas?
Marcelo Teixeira- São seis escolas aqui perto de Xerém que temos parceria. A gente tem duas pessoas na coordenação: o chefe da pedagogia, Ivan Proença, e a Lucilene, que é assistente social. É ela quem faz essa conexão com as escolas, que matricula os meninos no colégio. Hoje todos os clubes são obrigados a dar um suporte e cuidar da educação dos jogadores. O Ministério do Esporte avalia se os meninos estão estudando. Então, para jogar, o menino tem que estar frequentando o colégio. E frequentemente acabamos tirando meninos de jogos, ou mesmo afastando eles por um tempo, por não estarem com boas notas ou mesmo em dia com as obrigações da escola. Nosso intuito é formar não só jogadores, mas também bons cidadãos.
GE.net - Infelizmente nem todos os meninos que seguem na base acabam se profissionalizando. Vocês têm alguma conversa com os garotos e dão algum suporte para que escolham outra carreira como opção caso o futebol não dê certo?
Marcelo Teixeira - Temos o projeto de estabelecer parcerias e criar cursos profissionalizantes para apoiar esses meninos num futuro próximo. Nós já temos ciclos de palestras em diversas áreas diferentes. Envolvem área médica, mídia, questões relacionadas a drogas e até planos de carreira em relação ao futebol. Há também uma parte que é relacionada à orientação e ao futuro dos meninos. Procuramos deixar clara a importância do colégio e mostrar que eles têm uma segunda alternativa. Quando digo que este planejamento é em um futuro próximo é realmente algo próximo. Ele já existe e estamos em busca de uma associação que possa nos ajudar com este objetivo.
