Conhecida pela boa estrutura e por revelar grandes nomes no futebol brasileiro, as categorias de base do Fluminense ficaram em maior evidência este ano, com o alto aproveitamento dos meninos de Xerém na equipe profissional. Historicamente, o Tricolor sempre revelou bons nomes – desde Telê Santana, o “Fio de Esperança”, até jovens como Kenedy, que vem conquistando espaço no atual elenco. Durante os últimos anos, com a parceria com a Unimed rendendo boas contratações, os mais jovens tiveram as chances de subir ao time principal reduzidas. Em 2011, porém, com a mudança da diretoria, entrou em ação no clube um projeto que dedicaria um olhar mais atento aos jovens de Xerém, prevendo justamente o fim do patrocínio da empresa médica no futuro.
A aposta de Peter Siemsen, recém-empossado como presidente do clube, foi ‘repatriar’ Marcelo Teixeira, que havia sido diretor das categorias de base entre 2002 e 2007. Trabalhando como olheiro do Manchester United no Brasil, Marcelo deu adeus aos ingleses para retornar ao Fluminense como gerente de futebol. Em 2014, porém, voltaria a cuidar da formação dos atletas após uma troca com Fernando Simone, então gerente da base. Fernando assumiu a direção de futebol, e Marcelo ficou à cargo de zelar novamente pelos meninos de Xerém.
Cuidando dos interesses dos jogadores, o antigo olheiro do Manchester comanda hoje toda uma estrutura voltada para a experiência internacional. Para Marcelo, a diferença do Fluminense em relação a outros clubes, hoje, é justamente a oportunidade de atuar em partidas no exterior e ter o contato com grandes escolas de futebol mundo afora. O alto aproveitamento dos rapazes na seleção sub-20, por exemplo, serve de indicador nesta questão. Acostumados a jogar fora do país, os atletas sentem menos o peso da responsabilidade em disputas estrangeiras.
Marcelo Teixeira encabeça projeto internacional na base Tricolor - Credito: Divulgação/Fluminense F.C.
Em entrevista ao site da Gazeta Esportiva, o gerente comparou a estrutura apresentada pelos Red Devils com o que há disponível no Brasil. A principal diferença apontada vinha da filosofia do clube, implantada pelo técnico Alex Ferguson, e que deixava o perfil dos jogadores no mercado mais bem definido.
“Existe uma diferença muito grande pelo que é feito na base aqui e lá. O Manchester é um clube que teve um treinador por mais de 20 anos e criou uma identidade própria muito forte. Ali existia um perfil de metodologia de formação de atletas que era moldada a partir do que o treinador profissional montava. Esse foi um diferencial do Manchester, que acabou como um clube vencedor nas ultimas décadas, e até vem sofrendo nas competições atuais pela falta do perfil imposto pelo Ferguson”, observou.
“Quando buscávamos um jogador de 15 anos, sabíamos exatamente o tipo de perfil que ele deveria ter. Isso tudo tornava o trabalho de formação do Manchester muito diferenciado em relação ao futebol brasileiro”.
Mas algumas diferenças não necessariamente facilitaram a vida de Marcelo Texeira com os ingleses. Um dos problemas enfrentados quando olheiro era com a legislação britânica, muito mais rígida que a brasileira com a formação de atletas.
“A Inglaterra tem uma dificuldade grande com a base, já que a legislação lá é bem rígida. Você não pode recrutar atletas de dentro do país, só se estiverem a 50km de distância. Você tem normas muito rígidas de formação, de exigências que precisam ser cumpridas dentro da base. Por exemplo, os meninos estarem no colégio em boa parte do dia era um impedimento para treinarem por um determinado número de horas. É uma estrutura mais detalhada, maior que aqui. É bastante diferente o processo de formação”, explicou.
Sir Alex Ferguson impôs seu estilo ao Manchester de tal forma que isso era refletido na base do clube (Foto: ANDREW YATES / AFP) - Credito: AFP
“Eles tinham uma dificuldade grande de levar brasileiros para lá por conta do passaporte europeu. Era muita burocracia para resolver”, disse Marcelo, que foi responsável pela ida dos gêmeos Rafael e Fábio Pereira da Silva para o clube.
“Cheguei a apontar o Neymar e o Lucas, e na época até tentaram contratar o Lucas, mas perderam a negociação para o PSG. Além do Rafael e do Fábio, levei também o Rodrigo Possebon”, contou.
A experiência como funcionário de um clube estrangeiro abriu os olhos de Marcelo para as possibilidades fora do Brasil. Com olheiros espalhados pelo país, o Fluminense decidiu ampliar os horizontes e buscar novos jogadores na América do Sul. “Um cara de cada país fica focado aqui e nossos principais objetivos são Uruguai, Argentina e Paraguai. Observamos eles através de vídeos e se gostamos vamos até lá”.
Já em Xerém, os jogadores sul-americanos recebem o mesmo tipo de suporte dos atletas brasileiros que vem de fora do Rio de Janeiro. Com aulas de inglês e acompanhamento pedagógico, ficam em observação dentro do clube, embora não tenham nenhuma ajuda específica para aprender o português.
“Não há aulas de português, mas temos hoje um curso de inglês para todos os nossos atletas, em uma parceria com o Brasas (escola de inglês). Nosso projeto tem um coordenador de pedagogia, o professor Ivan Proença, que é responsável por trazer as famílias aqui e explicar todos os processos. Ele também fica sempre em contato com as famílias, já que somos responsáveis não só pelo futebol, como também pelos estudos dos garotos”.
Delegação do sub-16 em excusão na Índia em 2014; Experiência internacional faz parte do 'currículo' em Xerém - Credito: Divulgação/Fluminense F.C.
Além de receber atletas de fora, o Fluminense também promove amistosos fora do país, em acordo com clubes estrangeiros. Os jogadores têm a oportunidade de atuar pelas equipes no exterior e garantir maior bagagem futebolística. Embora tenham muitos times como exemplo de gestão – o Barcelona é um deles – Marcelo garantiu que o Fluminense não tem nenhuma inspiração específica no exterior e que busca absorver um pouco de cada clube para melhorar a estrutura em Xerém.
“Temos um projeto internacional nas categorias de base onde vamos sempre para o exterior e acabamos absorvendo um pouco de cada escola. Hoje temos uma filosofia que absorvemos de outros clubes europeus”, disse.
Atualmente, com nove jogadores vindos da base na equipe profissional, o Fluminense se prepara para novos desafios. A campanha no Campeonato Carioca não pareceu assustar os atletas que, apesar de novos, saem de Xerém com um mínimo de experiência para integrar o elenco das Laranjeiras. O início do Campeonato Brasileiro e a entrada na Copa do Brasil servirão de testes para o Fluminense reformulado. E se depender de Marcelo, é um time que tende, cada vez mais, a rejuvenescer.