Nem mesmo quem já goleou o Timão pela Ponte acredita na virada

Tiago Salazar - São Paulo,SP

05-05-2017 11:00:56

“Teria de vir uma graça lá de cima, do céu”, diz Jair Picerni, ao ser questionado pela Gazeta Esportiva sobre a possibilidade da Ponte Preta conquistar o título do Campeonato Paulista no próximo domingo, em Itaquera. A derrota por 3 a 0 no Moisés Lucarelli, semana passada, abalou até mesmo aquele que já conseguiu superar o Corinthians pelo placar que hoje os torcedores da Macaca tanto sonham. Em fevereiro de 1977, o então lateral Jair Picerni marcou um dos quatro gols da Ponte naquela que foi a maior goleada sobre o Timão até hoje, a única por 4 a 0.

“Eu lembro mais daquele jogo porque eu fiz gol. E gol de atacante. Isso se deve ao Carlos Alberto Torres, que começou a mostrar que os laterais podiam avançar e fazer mais do que só marcar”, recorda Jair, sem esquecer da decepção ao fim da competição, contra o mesmo adversário. “Ganhamos quatro e perdemos a final. A expulsão do Rui (Rei) atrapalhou muito, ele era a nossa referência”, lamenta.

Quem esteve do outro lado reconhece a superioridade e a força da Ponte Preta à época. Para o ex-centroavante Geraldão, famoso artilheiro corinthiano no histórico Estadual de 77, a derrota em Campinas foi dolorosa, mas por se tratar apenas da segunda rodada da competição, não teve efeitos tão desastrosos.

“Lembro mais ou menos. Essa derrota por 4 a 0 não deu. Estávamos jogando bem, era questão e momento, coisas do futebol, acontece. Apesar disso, nós não nos abalamos. Mas é ruim. A ponte tinha uma boa equipe, jogadores mais novos que os nossos, corriam mais, tinham mais preparo físico, mas o Corinthians daquela época era consciente, sabia que estava atrás de chegar na final para ser campeão. Aquele 4 a 0 não abalou”, conta, sempre reconhecendo a boa fase do time campineiro.

“Eu lembro que, em 77, até chegar à final, tínhamos jogado quatro jogos com a Ponte e não ganhamos nenhum. Sabíamos que era um jogo difícil, como foi, mas a gente entrou mais tranquilo do que eles na final”.


Se golear o atual Corinthians na Zona Leste Paulistana parece tarefa quase impossível, uma vitória por 3 a 0 ao menos dá a Ponte Preta a chance de decidir o título nos pênaltis. E a equipe já conseguiu realizar o feito duas vezes, uma em agosto de 1979 e outra em novembro de 1980, quando Jair Picerni já era o técnico.

“A gente era favorito mesmo. Nosso time jogava o fino da bola. A gente mesmo, no campo, apesar do ótimo trabalho do Zé Duarte (técnico, em 77), a gente conversava muito, acertávamos como íamos fazer”, admite. “Nós éramos completamente diferentes (do atual time da Ponte). Nós éramos bem superiores. Nosso time era bom mesmo, você pode perguntar para o Wladimir, o Zé Maria”, exclama Jair, com a anuência de Geraldão, que participou das três categóricas derrotas do clube do Parque São Jorge.

“A ponte daquela época era bem melhor do que a de hoje. Era um time de excelentes jogadores e um time que não podia descuidar. Nós conversamos e procuramos ver como íamos fazer para jogar com a Ponte Preta. E conseguimos superar ela dentro de campo”, reconhece, mas, com um adendo, já que acabou sendo campeão Paulista tanto em 77 quanto em 79/80 em cima da tão temida Macaca.

“Final é sempre um jogo diferente. O time que está mais tranquilo é o time que consegue seu objetivo. Nosso time estava tranquilo, apesar de saber que a Ponte era um time muito bom. Nós conversamos e colocamos nossa experiência em campo, e acabamos vencendo”, explica Geraldão.

Apesar da história mostrar que uma goleada da Ponte Preta sobre o Corinthians não seria algo inédito, nenhum dos dois personagens daqueles três marcantes confrontos para os ponte-pretanos acreditam que a equipe comandada por Gilson Kleina tenha força para repetir o feito na grande decisão desse domingo.

“Eu acredito que não. Eu botava mais fé na Ponte no primeiro jogo. Não esperava que o Corinthians fosse fazer três gols. Esperava 1 ou 2 a 0, nunca 3 a 0, mas isso é coisa do futebol. O Corinthians aproveitou o descuido da Ponte, entrou determinado. E agora vai entrar determinado de novo, não vão entrar para deixar levar gols. Eles precisam mostrar mais uma vez para torcida e jogar bem”, opina Geraldão, por motivos óbvios, muito menos revoltado com o duelo de ida das finais do que Jair Picerni.

“Fiquei admirado. Nunca disputamos um título aqui (em Campinas). Mas o time começou devagar quase parando. O Corinthians subiu de produção nessas últimas seis rodadas, porque o Jô melhorou muito, e o que fez o Jô no jogo... A Ponte não marcou, não atacou, não merecia mesmo”, esbraveja o ex-lateral e treinador da Macaca. “Igual a esse aí não teve. Foi o pior jogo da Ponte em finais na história. O que a Ponte fez, eles devem ter até vergonha”.

A indignação maior de Jair Picerni com a surpreendente derrota em casa se apega mais as falhas defensivas. Ao criticar o setor ocupado por Yago e Fábio Ferreira atualmente, Jair lembra da dupla Oscar e Palozzi, que jogou ao seu lado quando a Ponte Preta engoliu o Corinthians no mesmo Moisés Lucarelli, por 4 a 0, há 40 anos.

“Tivesse o Oscar jogando hoje, com a idade que ele tem hoje, a Ponte não tomava os três gols. Como pode?", diz, preocupado com o que o time pode apresentar no último jogo. “É o futuro deles. Tem que jogar bem. São mais 15, 20 anos de profissão e só. Tem que usar bem esses 15 anos para chegar bem no fim da vida, ser reconhecido pelo trabalho, mesmo se não ganhar. Porque, se não jogar bem, os caras não devem ficar mais na Ponte. Sabe como é”, conclui.

O retrospecto do confronto entre Corinthians e Ponte Preta no palco do jogo do título dessa edição do Campeonato Paulista pode deixar Jair Picerni ainda mais pessimista. Até hoje, a dupla alvinegra se enfrentou quatro vezes no estádio de Itaquera e a Macaca sequer conseguiu arrancar um empate. Foram oito gols dos donos da casa, ao todo, e apenas um marcado pelos ponte-pretanos: 1 a 0; 2 a 0; 2 a 1; e 3 a 0.

De Geraldão para Jô
Assim como Jô é hoje, Geraldão foi a grande referência do ataque do Corinthians em 1977, quando o clube conseguiu findar o longo jejum de 22 anos sem título. E, coincidentemente, os dois centroavantes marcaram um gol em cada clássico dos respectivos campeonatos. Nesse Paulistão, foram cinco (três contra o São Paulo, um contra o Palmeiras e um contra o Santos). Em 77 foram oito clássicos (cinco contra o São Paulo, dois contra o Palmeiras e um contra o Santos).

“Sim, ele também fez como eu. Eu dei azar. Só não fiz gol nos três últimos jogos. O último sobrou para o Basílio, que não tinha feito gol em jogo nenhum”, brinca Geraldão, antes de cobrar uma mudança de postura do time do Corinthians para que seu conterrâneo de posição possa ter um desempenho ainda melhor.

“O Jô estava jogando muito sozinho. Precisa de um companheiro. Antes desse jogo, nos jogos anteriores, não estava acontecendo, não tinha um companheiro que entrasse nas costas do zagueiro quando ele saia para fazer a jogada na lateral. Nesse domingo aconteceu. Quando ele abria, alguém aparecia na área para preencher o espaço, isso ajudou muito, porque era isso que precisava acontecer, mas que não vinha acontecendo. O Jô estava jogando sempre muito isolado”.

Confira as fichas técnicas dos três jogos que a Ponte Preta conseguiu vencer o Corinthians por três ou mais gols de diferença:

Ponte Preta 4 x 0 Corinthians
Campeonato Paulista – Primeiro Turno
Data: 13 de fevereiro de 1977
Local: Moisés Lucarelli, em Campinas
Árbitro: Romualdo Arppi Filho
Público: 21.962
Renda: Cr$ 443.560,00
Gols: Rui Rei, aos 20, e Dicá (pênalti), aos 24 do 1T. Jair, aos 23, e Parraga, aos 40 minutos do 2T.

Ponte Preta: Carlos; Jair, Oscar, Palozzi e Odirlei; Vanderlei, Marco Aurélio e Dicá; Lúcio (Wilsinho), Rui Rei (Parraga) e Tuta
Técnico: José Duarte

Corinthians: Tobias; Beline (Góis), Moisés, Ademir (Darcy) e Cláudio Mineiro; Ruço, Basílio e Luciano; Vaguinho, Geraldão e Edu.
Técnico: Duque

Ponte Preta 3 x 0 Corinthians
Campeonato Paulista – Primeiro Turno
Data: 5 de agosto de 1979
Local: Moisés Lucarelli, em Campinas
Árbitro: Márcio Campos Sales
Público: 26.030
Renda: Cr$ 1.311.930,00
Gols: Barrinha, aos 33 do 1T. João Paulo, aos 42, e Marco Aurélio, aos 44 minutos do 2T.

Ponte Preta: Carlos; Toninho, Eugênio, Nenê e Ordilei; Vanderlei, Marco Aurélio e Humberto (Rudnei); Barrinha (Édson), Osvaldo e João Paulo.
Técnico: Cilinho

Corinthians: Jairo; Luís Cláudio, Mauro, Amaral e Wladimir; Biro-Biro, Romeu e Palhinha; Vaguinho, Sócrates e Wilsinho (Geraldão).
Técnico: José Teixeira

Corinthians 0 x 3 Ponte Preta
Campeonato Paulista – Segundo Turno / segundo jogo das semifinais
Data: 6 de novembro de 1980
Local: Estádio do Morumbi, em São Paulo
Árbitro: Romualdo Arppi Filho
Público: 72.039
Renda: Cr$ 9.060.170,00
Gols: Abel, aos 25 do 1T e aos 11 do 2T, e Dicá, aos 16 minutos do 2T.

Corinthians: Soltinho; Zé Maria, Amaral, Djalma e Wladimir; Caçapava (Basílio) Biro-Biro, Sócrates e Vaguinho (Gil); Wilsinho e Geraldão.
Técnico: Oswaldo Brandão

Ponte Preta: Carlos; Édson, Juninho, Nenê e Ordilei (Toninho Oliveira); Zé Mario, Osvaldo e Dicá; Serginho, Paulinho e Abel (Barrinha).
Técnico: Jair Picerni

Geraldão nos clássicos do Corinthians pelo Paulistão de 1977:

17/04/1977 - Corinthians 1 x 0 São Paulo - 1 gol
29/05/1977 - Corinthians 4 x 0 Santos - 1 gol
07/08/1977 - Corinthians 2 x 0 Palmeiras - 1 gol
21/08/1977 - Corinthians 1 x 0 São Paulo - 1 gol
28/08/1977 - São Paulo 1 x 2 Corinthians - 1 gol
31/08/1977 - Corinthians 1 x 0 Palmeiras - 1 gol
02/10/1977 - São Paulo 1 x 2 Corinthians - 1 gol
04/12/1977 - Corinthians 2 x 0 São Paulo - 1 gol

Jô nos clássicos do Corinthians pelo Paulistão de 2017:

22/02/2017 - Corinthians 1 x 0 Palmeiras - 1 gol
04/03/2017 - Corinthians 1 x 0 Santos - 1 gol
26/03/2017 - São Paulo 1 x 1 Corinthians - 1 gol
16/04/2017 - São Paulo 0 x 2 Corinthians - 1 gol
23/04/2017 - Corinthians 1 x 1 São Paulo - 1 gol

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