Futebol/Amistoso

Fã de Tevez, goleiro chora com carinho da Fiel e quer luvas de Cássio

Helder Júnior - São Paulo , SP - Brasil
20/01/2015 09:10:00

Em: Corinthians, Futebol

O goleiro Danny Bracken sempre foi incentivado por seu pai a se tornar um jogador profissional de futebol. Chegou a treinar no West Ham (clube de coração de toda a família) dos 12 aos 15 anos, porém não resistiu às exigências de estatura das categorias de base do futebol inglês. Virou funcionário de uma escola e camisa 1 do Corinthian-Casuals ao atingir a maioridade. E seria naquele humilde – e histórico – clube amador que o fã de Cássio e Tevez finalmente vivenciaria as sensações do estrelato como atleta.

Na noite de domingo, Danny e os seus companheiros de time foram recepcionados como ídolos no Aeroporto de Cumbica por dezenas de torcedores do Corinthians, cuja fundação foi inspirada pela Corinthian-Casuals. Ele concedeu autógrafos, posou para fotografias e até se comportou como um torcedor ao tentar repetir algumas canções entoadas pelos brasileiros.

Quando entrou no ônibus da delegação britânica e seguiu para um hotel na capital paulista, Danny não conseguiu mais conter as lágrimas. “Meu pai me levava a todos os lugares para treinar desde os meus cinco anos, querendo fazer de mim um jogador profissional. Ele não pôde estar aqui para me ver sendo aplaudido por todos esses torcedores”, lamentou, mesmo registrando tudo o que pode da excursão do Casuals em fotos e vídeos. “Mando isso para o meu pai. Ele me disse que está orgulhoso. Nós nos falamos todos os dias”, sorriu.

Anônimo na Inglaterra e tratado como ídolo no Brasil, Danny Bracken deixou o pai orgulhoso à distância
Anônimo na Inglaterra e tratado como ídolo no Brasil, Danny Bracken deixou o pai orgulhoso à distância – Credito: Gazeta Press
Diretor comercial do Corinthian-Casuals (além de atacante nas horas vagas) e responsável por viabilizar o reencontro com o Corinthians Paulista em um amisto festivo no sábado, Chris Watney se comoveu com a história do seu goleiro. Antes mesmo do embarque para o Brasil, ele havia tentado alertar o elenco sobre o carinho da Fiel. “Vocês sabiam que as pessoas gostam de vocês no Brasil? Que são populares lá? Que será algo incrível?”, advertiu. Danny e o restante do time deram de ombros.

“Mas, quando cruzamos o portão do aeroporto, eles se surpreenderam com toda aquela gente celebrando. Os rapazes ficaram muito emocionados. Danny realmente chorou. Ele estava muito triste porque o pai dele, que está com problemas de saúde, não pôde vir para cá. Vivenciar aquele instante com a torcida do Corinthians fez ele pensar: ‘Meu Deus, eu queria muito que o meu pai estivesse aqui para ver isso’”, contou Chris.

Aos 60 anos e sem condições de custear uma viagem ao Brasil, o pai de Danny estimulou o filho não apenas na carreira de atleta. Também fez dele um fanático torcedor do West Ham, famoso pelos seus hooligans. “Somos parecidos com a torcida do Corinthians. Quando os brasileiros vão nos visitar em Londres, dez deles fazem barulho por um estádio inteiro. Aqui, centenas me pareceram milhares. Eles gritam alto, são apaixonados. No West Ham, também cantamos sempre. Se o time não ganha, voltamos na semana que vem e cantamos de novo”, comparou.

Tevez deu adeus ao Corinthians e foi defender o West Ham, clube de coração do goleiro do Casuals
Tevez deu adeus ao Corinthians e foi defender o West Ham, clube de coração do goleiro do Casuals – Credito: Gazeta Press
Há até um ídolo em comum entre Corinthians e West Ham – Tevez. Quando deixaram o Parque São Jorge, o atacante argentino e o seu compatriota Mascherano rumaram para o clube britânico. E Carlitos conquistou novos fãs (inclusive Danny Bracken) com a sua raça característica. “Tevez é o segundo melhor jogador que atuou no West Ham em muito tempo. Só perde para o Paolo Di Canio. Os fãs amam Tevez. Ele dá tudo de si pela camisa que veste. O que mais um torcedor pode querer?”, comentou o goleiro.

Os torcedores do Corinthian-Casuals já têm o seu próprio Tevez. Trata-se de Jamie Byatt, atacante comparado pelos corintianos do Brasil ao goleiro Julio Cesar (atualmente no Náutico, o prata da casa é careca como o inglês). “Jamie é como Tevez: baixo, forte e corre, corre, corre, corre, corre… Ele não para nunca”, enalteceu Danny, antes de fazer uma ponderação alvinegra (ou marrom e rosa, cores do seu clube). “Mas temos que ser todos assim no nosso time. Saímos exaustos de campo sempre. Só ficamos satisfeitos se deixamos toda a nossa energia ali.”

Danny prometeu provar essa disposição no amistoso de sábado, quando voltará a sentir saudades do seu pai ao enfrentar o Corinthians em um estádio de Itaquera lotado. “Gostaria também de aproveitar o momento para falar com o Cássio. É o meu jogador favorito do Corinthians. Adoraria levar as luvas dele para casa. Seria legal conversar sobre defesas, perguntar como faz nos pênaltis, esse tipo de coisa”, almejou, já satisfeito por ter usado a estrutura do CT Joaquim Grava (local de trabalho do seu ídolo) para treinar na segunda-feira. “Ali, fica mais fácil agarrar.”

Cássio tem as suas luvas cobiçadas pelo fã que cativou no próximo adversário do Corinthians
Cássio tem as suas luvas cobiçadas pelo fã que cativou no próximo adversário do Corinthians – Credito: Divulgação/Agência Corinthians
A admiração de Danny por Cássio foi cultivada também com o Mundial de Clubes de 2012, quando o goleiro corintiano acabou premiado pela Fifa por causa da grande atuação na vitória por 1 a 0 sobre o Chelsea. “Assisti ao jogo em família, com o meu pai. Como torcedor do West Ham e rival do Chelsea, fiquei muito feliz com o resultado”, brincou.

Desta vez, será Danny quem terá o autor dos gols corintianos no Mundial pela frente. “O Guerrero é só mais um atacante que preciso impedir de colocar a bola na rede”, minimizou, com a confiança de quem, aos 23 anos, ainda partilha do sonho do pai. “O jogo contra o Corinthians vai ser o mais importante da minha vida, sem dúvida. Você nunca sabe o dia de amanhã, né? Continuo com a ambição de jogar em um nível mais alto. Fazer uma boa partida no fim de semana me ajudará a alcançar o meu objetivo”, pregou, em tom sério.

Com as lágrimas derramadas no Brasil, contudo, Danny Bracken já se tornou patrimônio da história gloriosa do Corinthian-Casuals. E agora há quem não o imagine em outro lugar. “Temos bons jogadores no nosso elenco, mas, eventualmente, as pessoas vêm e os compram. Porque não temos dinheiro para pagá-los. Só que eventos como esse aqui fazem os atletas quererem permanecer no clube. Se conseguirmos manter o nosso goleiro por mais alguns anos, só pela paixão dele pelo Corinthians, será incrível”, sonhou o diretor Chris Watney, que decidiu nunca mais deixar o time inglês depois de disputar um amistoso com o Corinthians, em 2001, no Parque São Jorge.