Tragédias anteriores acometeram gigantes e mobilizaram até Fla-Flu

Edoardo Ghirotto e Tomás Rosolino - São Paulo,SP

29/11/16 | 17:24 - 15/12/16 | 13:36

Acidente no Peru traumatiza até hoje o centroavante Paolo Guerrero

Acidente no Peru traumatiza até hoje o centroavante Paolo Guerrero (Foto: Acervo/Gazeta Press)
Acidente no Peru traumatiza até hoje o centroavante Paolo Guerrero (Foto: Acervo/Gazeta Press)

As tragédias envolvendo quedas de avião e times de futebol não são novidades, mas sempre causam grande comoção no meio esportivo. Já compadecido pela dor dos representantes da Chapecoense, quase dizimados com a queda do avião do clube, o esporte mais popular do mundo tem em sua história momentos parecidos. Todos tinham um cenário semelhante entre si, um pouco diferente deste último: apesar de mobilizar muitos clubes, até então só envolveram os maiores times dos países à época.

A primeira e talvez mais famosa ocasião se deu no ano de 1949, quando o multicampeão Torino, então detentor do título italiano por três vezes seguidas, estava no avião que bateu na Basílica de Superga, em Turim, retornando de um amistoso contra o Benfica, em Lisboa. Dono de toda a base da seleção italiana à época, o clube era a sensação do pais e, com cinco títulos no total, caminhava para alcançar Juventus e Pro Vercelli, maiores campeões do país, com sete conquistas.

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Ainda que a tristeza que se abateu sobre o time grená não tenha impedido o título no complemento daquela temporada, com diversos jogadores das categorias de base substituindo os ídolos, o Torino nunca mais conseguiu alcançar aquele nível. Quase 70 anos após o fato, só voltou a levar o Scudetto para casa uma vez mais, contra, por exemplo, 25 da Juventus.

A queda do avião teve eco também na seleção italiana. Além de perder sete titulares para a disputa da Copa do Mundo do Brasil (Bacigalupo, Ballarin, Grezar, Menti, Loik, Gabetto e Mazzola), no ano seguinte, o time sentiu tanto o trauma que resolveu fazer o trajeto para o continente sul-americano em um navio.


Geração de ouro do United se vai na decolagem

O inglês Manchester United foi outro time a passar por um processo de reconstrução após um acidente aéreo dizimar parte de uma geração de jovens jogadores. Em 1958, o avião que transportava a equipe caiu imediatamente após alçar voo no aeroporto de Munique, na Alemanha. Vinte e uma pessoas morreram no acidente, incluindo sete jogadores, oito jornalistas, um agente de viagens e um torcedor.

À época, o Manchester United era um time de garotos comandado por Matt Brusby. Eles eram apelidados de Brusby Babes (Bebês de Brusby). A tragédia criou uma forte identidade entre os torcedores ingleses com o sofrimento dos ingleses. A BBC reportou, em 2008, que o desastre fortaleceu a marca do clube, que estava longe de ser o gigante milionário de agora.

O livro A Tale of Two Cities: Manchester and Madrid 1957-1968 (Um Conto de Duas Cidades: Manchester e Madri 1957-1968), escrito por John Ludden, recorda a ajuda dada pelo Real Madrid na reconstrução do United. Busby, que estava no avião e sobreviveu a diversos ferimentos, era um amigo do presidente merengue, Santiago Bernabeu.

Segundo a publicação, o mandatário espanhol chegou a consultar o craque Alfredo di Stefano sobre possibilidade de reforçar o United, por empréstimo, na temporada 1958-1959. O jogador estava disposto a se transferir, mas a Federação Inglesa barrou a transação por questões burocráticas. O Real Madrid, então, realizou o leilão de uma flâmula para arrecadar fundos e convidou jogadores feridos para se tratarem nas dependências do clube. O time também organizou uma série de amistosos com o United para injetar o dinheiro da bilheteria nas finanças do clube.

Em seu processo de reestruturação, o United contou com o talento de Bobby Charlton, que sobreviveu ao acidente e tornou-se um dos maiores nomes do esporte local. O primeiro título conquistado após a tragédia foi a Copa da Inglaterra, em 1963. Cinco anos depois, o time inglês ganhou a Copa da Europa – atual Liga dos Campeões -, superando o Real Madrid nas semifinais.

Bolivianos somem no ar e Fla-Flu tem renda voltada ao Strongest

Em 1969, foi a vez do Strongest, um dos times mais populares da Bolívia, sumir no céu em um trajeto realizado de Santa Cruz de la Sierra a La Paz. Por ter acontecido no mesmo dia de um dos vários golpes de estado pelos quais passou o país em usa história, cogitou-se que o avião teria sido abatido. Até que, um dia depois, seus destroços foram achados no meio do caminho, em uma região montanhosa próxima à cidade de Viloco.

A comoção percorreu todo o continente, com um Fla-Flu do campeonato carioca tendo toda a sua renda voltada para os bolivianos, assim como o Boca Juniors, que organizou um amistoso e cedeu dois jogadores da sua categoria de base ao time aurinegro. Até o Bolívar, arquirrival também da capital La Paz, emprestou atletas do seu plantel para que o clube disputasse o torneio nacional da época.

Dentro todos os acometidos pela tragédia, o Strongest foi o que se recuperou mais rápido, conquistando o Campeonato da Liga de La Paz logo em 1970. Depois, com a criação do campeonato boliviano unificado, levantou a taça quatro anos depois, sem viver a "ressaca" da tragédia. Até hoje, porém, o Tigre homenageia no dia 26 de setembro os "mártires de Viloco", como ficaram conhecidos os jogadores daquele elenco.

Alianza perde o rumo e traumatiza Paolo Guerrero para sempre

O desastre mais recente se deu com a equipe do Alianza Lima, time mais popular do Peru, que, em 1987, montou um forte elenco na busca por encerrar o jejum de nove anos sem título. Com alguns jovens valores já convocados para a seleção, o time liderava o campeonato local quando foi jogar em Pucallpa, na região da selva peruana, e ganhou por 1 a 0 do Deportivo.

No retorno para a capital, o avião apresentou pane elétrica próximo ao aeroporto de Callao, na região metropolitana de Lima, e caiu no mar, sem deixar sobreviventes. Dentre os passageiros estava José Gonzales Ganoza, goleiro titular da equipe e da seleção, que tinha um talismã para entrar em campo: o pequeno Paolo, seu sobrinho, hoje camisa 9 do Flamengo.

José Paolo Guerrero González, que usa o sobrenome do pai em vez do da mãe no nome de jogador, acompanhou o tio  sempre que pôde nos três anos em que eles conviveram. Ligado intimamente ao tio, ele desenvolveu um medo sem solução após o acidente: o de voar.

Sempre que entra em um avião, o antigo camisa 9 do Corinthians, campeão mundial pelo clube paulista, coloca uma blusa em cima do rosto e pede para não ser incomodado. Ele passa quase toda a viagem com os olhos fechados, relaxando raramente na parte de cruzeiro do voo. "Tenho mede de voar porque lembro dos gritos da minha mãe quando o meu tio morreu", explicou o peruano uma vez.

 

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