Fã dos Wanderers, escritor chileno critica Bachelet e vê 7 a 1 como lição

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Nascido em Valparaíso, Roberto Ampuero é um ícone da cidade portenha, embora tenha vivido mais de 40 anos no exterior. Fã de futebol, o escritor chileno, integrante da diretoria do Santiago Wanderers, reprova o comportamento da presidente Michelle Bachelet durante a Copa América e vê a goleada aplicada pela Alemanha no Mundial 2014 como uma lição para o Brasil.

A vida de Ampuero foi profundamente influenciada por suas convicções políticas. Apoiador do presidente socialista Salvador Allende, ele deixou o Chile após o golpe militar do general Augusto Pinochet. De 1973 a 1993, passou por Cuba e pelas Alemanhas Oriental e Ocidental – na ilha caribenha, casado com a filha de um integrante do alto escalão governamental, ficou desiludido com o regime de Fidel Castro.

Como um bom "wanderer" (viajante, em inglês), Roberto Ampuero ainda viveu em países como Suécia, Estados Unidos e México. Aos seus livros, o escritor chileno incorpora as experiências acumuladas em diferentes realidades, de Berlim Oriental à Iowa City. Ainda assim, o porto de Valparaíso, às margens do Oceano Pacífico, não perde o protagonismo.

Assim como seu criador, o engenhoso detetive Cayetano Brulé, personagem principal dos livros policiais, é torcedor do Santiago Wanderers. Ao descrever o cotidiano do investigador em Valparaíso, uma das sedes da Copa América, Ampuero cita o Paseo Gervasoni, o Bar Cinzano e a Plaza Echaurren, além do time de futebol fundado em 1892, fazendo com que seus leitores tenham curiosidade de conhecer “La Joya del Pacífico”.

Durante o governo de Sebastian Piñera, o escritor de 62 anos atuou como embaixador no México e ministro da Cultura. Atualmente, de volta ao Chile após turnê de divulgação de seus livros no Reino Unido, segue a Copa América e reprova o comportamento de Michelle Bachelet durante o torneio. “Prefiro vê-la trabalhando do que posando no vestiário com nossos jogadores em trajes menores”, disse à Gazeta Esportiva.

O selo Benvirá, da Editora Saraiva, publicou obras do escritor chileno Roberto Ampuero no Brasil

O selo Benvirá, da Editora Saraiva, publicou obras do escritor chileno Roberto Ampuero no Brasil - Credito: Divulgação

Gazeta Esportiva - Poucos clubes no mundo são tão ligados a uma cidade como o Santiago Wanderers, verdadeiro “Patrimonio de Valparaíso”, como diz a inscrição na camisa dos jogadores. Na condição de portenho e “wanderino”, como você sente que o clube e sua gente influenciaram a identidade da cidade, uma das sedes da Copa América?
Ampuero - É uma história de mais de 120 anos, de um clube fundado sob a égide de imigrantes britânicos que deram uma marca muito especial a Valparaíso, um porto cosmopolita, o mais importante – depois de San Francisco - do Pacífico americano. Eram comerciantes que trouxeram a modernidade e também as ideias modernas e liberais ao Chile, pois Valparaíso continua sendo o principal porto do país, lendário em nível mundial. Depois, o clube foi se alimentando dos jogadores dos cerros, onde todos são wanderinos, porque Wanderers é Valparaíso. Elias Figueroa é um dos wanderinos mais conhecidos pelos brasileiros, um símbolo da cidade e do time. O Santiago Wanderers é uma equipe aguerrida, sofrida e enraizada no povo de Valparaíso, em sua história, presente e imaginário. Temos poucos títulos em comparação a Colo-Colo ou Universidad de Chile, mas como clube nos nutrimos da vitalidade, dos sonhos e do entusiasmo dos portenhos.

Gazeta Esportiva - Atualmente, você é embaixador cultural do Santiago Wanderers e integrante da diretoria do clube, encabeçada pelo presidente Jorge Lafrentz Fricke...
Ampuero - Estou começando minha gestão. Integro outras diretorias no Chile, em uma fundação cultural e em uma política, mas isso é diferente. Pretendo contribuir primeiro com meu carinho à instituição como wanderino, portenho, filho ilustre de Valparaíso e escritor. Vou fazê-lo com entusiasmo, paixão e empenho para alcançar o patamar que corresponde ao Santiago Wanderers como decano do futebol chileno e um dos mais antigos clubes de futebol profissional das Américas. Espero me sair bem, e talvez surja um bom relato dessa nova etapa na minha vida.

O Estádio Playa Ancha, casa do Santiago Wanderers, recebeu o peruano Guerrero na Copa América

O Estádio Playa Ancha, casa do Santiago Wanderers, recebeu o peruano Guerrero na Copa América - Credito: AFP

Gazeta Esportiva – Você herdou o amor pelos Wanderers de seu pai e avô, com os quais frequentou o Estádio Playa Ancha desde pequeno. Durante o longo período que viveu no exílio, como foi acompanhar o time de coração desde tão longe?
Ampuero - Uma das coisas que lamento é que meu pai não está mais entre nós para ver seu filho integrando a diretoria de nosso clube da alma. Quando conheci minha mulher, há 28 anos, na Alemanha, entre os poemas de amor que li para ela, também contei de um clube de futebol de muito longe, do outro extremo do mundo, o glorioso Wanderers de Valparaíso. Durante o período em que vivi fora do Chile, e passei mais de 40 anos no exterior, quase sempre a bandeira verde dos Wanderers tremulava aos domingos em minha casa. Os gringos pensavam que eu era irlandês. Graças à Internet e à TV por satélite, pude seguir nas últimas décadas o time desde Suécia, Estados Unidos e México.

Gazeta Esportiva - Durante o exílio, você viveu nas Alemanhas Oriental (1979-1982) e Ocidental (1983-1993). Por isso, imagino que tenha algum carinho pelo país. Gostou do 7 a 1 contra o Brasil na semifinal da Copa do Mundo de 2014?
Ampuero - Vivi nas duas Alemanhas e estudei em um colégio alemão até o ensino médio. Aprendi a ler e escrever primeiro em alemão, depois em espanhol, de modo que a Alemanha me influencia sempre. O 7 a 1 me desconcertou. Sofri uma dor profunda pelo Brasil como latino-americano e por sentir que o país sofria como um rei destronado. Minha dor foi maior, porque quando eu era criança todos queriam ser como os brasileiros Pelé, Garrincha, Gilmar, Amarildo, Gérson e Rivellino, mas poucas vezes como Seeler ou Beckenbauer. Acho que essa dolorosa derrota ensinou o Brasil a se olhar no espelho, a ser humilde e aceitar que precisa se reinventar. Acredito que ainda está em uma busca, que é por natureza a nação com o melhor futebol do mundo, mas que ainda falta um longo caminho para voltar a ser monarca mundial indiscutível e praticar o jogo bonito.

Presidente Bachelet e goleiro Claudio Bravo

Presidente Bachelet e goleiro Claudio Bravo - Credito: Reprodução/Twitter

Gazeta Esportiva - A presidente Michelle Bachelet tem frequentado os jogos do Chile na Copa América. Após as partidas, ela foi aos vestiários do Estádio Nacional para felicitar o técnico Jorge Sampaoli e seus jogadores. Você acha que o sucesso da seleção pode ajudar a melhorar os baixos índices de popularidade da presidente?
Ampuero – Se eu fosse ela e tivesse só 23% de aprovação popular, talvez também estaria tentando tirar uma selfie com a seleção que tem 100% de aprovação dos chilenos. Mas não gosto de um chefe de governo metido, após cada partida, como um fã a mais, no vestiário dos jogadores. Eu os receberia em La Moneda (sede do governo) se conquistassem o título ou o vice-campeonato (somos um país com uma história modesta no futebol mundial), e cuidaria do alto cargo. Às vezes, sinto pesar pela Bachelet. Ela tenta por todos os meios recuperar a popularidade de 85% que tinha, mas os chilenos não são ingênuos. Prefiro vê-la trabalhando em La Moneda, pois enfrentamos graves problemas econômicos e políticos, do que posando no vestiário com nossos jogadores em trajes menores.

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