Após “rixas” do passado, Brasil busca título para diminuir vantagem de rivais

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Maior campeão da Copa do Mundo, o Brasil trata com atenção a disputa da Copa América 2015 para recuperar parte do prestígio perdido após os vexames do ano passado – sobretudo a derrota por 7 a 1 para a Alemanha. No entanto, a equipe canarinho está longe de ter a soberania na competição continental, já que é apenas a terceira na lista dos vencedores, com oito conquistas, atrás de Uruguai (15) e Argentina (14).

A desvantagem na Copa América se deve muito ao fato do País não ter dado tanta atenção ao torneio no passado. Em dez edições, o Brasil não enviou jogadores para participar da competição.

O Campeonato Sul-Americano – como era a nomenclatura da disputa até 1967 – teve início em 1916, na Argentina, como parte das comemorações do centenário da independência do país. Além da seleção anfitriã, participaram Brasil, Chile e Uruguai. Todas as equipes se enfrentaram em turno único e a equipe uruguaia sagrou-se campeã. A Seleção Brasileira terminou em terceiro lugar.

Na oitava edição do torneio, em 1924, o Brasil, já bicampeão sul-americano (1919 e 1922), abriu mão de participar do torneio pela primeira vez. “O que houve na Copa América é que até 1937 existia uma rixa grande entre São Paulo e Rio de Janeiro”, conta o pesquisador e historiador Ivan Soter, autor do livro “Enciclopédia da Seleção – As Seleções Brasileiras de Futebol: 1914 – 2002”. “O estado de São Paulo dominava o futebol brasileiro com os melhores jogadores e força econômica. Só que uma coisa São Paulo não tinha: a sede da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), que ficava no Rio de Janeiro”, completa Ivan.

Enquanto os paulistas queriam trazer a sede da CBD para o estado, a instituição desejava contar com os jogadores que atuavam nos clubes paulistanos. Sem acordo, a Associação Paulista de Esportes Atléticos (Apea), presidida na época por Elpídio de Paiva Azevedo, vetou em diversas ocasiões, inclusive às vésperas da Copa do Mundo de 1930, a participação de jogadores convocados para a Seleção Brasileira. “A literatura oficial diz que aconteceram desentendimentos entre a CBD e a Associação Paulista”, relata Ivan, emendando “Não teve desentendimento coisa nenhuma. Foi um boicote, porque 70% dos jogadores convocados eram de São Paulo”.

A Seleção Brasileira de 1945 foi responsável por uma sequência positiva de três edições consecutivas do Sul-Americano

A Seleção Brasileira de 1945 foi responsável por uma sequência positiva de três edições consecutivas do Sul-Americano - Credito: Divulgação

O Brasil não jogou os Campeonatos Sul-Americanos de 1926, 1927, 1929, 1935, 1939 e 1941. “O monopólio do futebol paulista só termina quando Getúlio Vargas assume a presidência do Brasil e passa a ajudar financeiramente a federação do Rio de Janeiro, que aos poucos se torna o centro das decisões do futebol brasileiro”, conclui Ivan.

No início da década de 40, o país disputou três edições consecutivas do Campeonato Sul-Americano – 1942, 1945 e 1946. Porém, em 1947, pela oitava vez, o Brasil não joga a competição. “Depois da final da Copa América de 1946 entre Brasil e Argentina, as duas seleções ficaram dez anos sem se enfrentar, o que colaborou para que a Seleção Brasileira deixasse de participar de algumas edições”, lembra o pesquisador e professor da Faculdade Cásper Líbero, Celso Unzelte, autor de “O Livro de Ouro do Futebol”.

A final de 46, disputada em Buenos Aires, capital da Argentina, ficou marcada como uma partida turbulenta e violenta na história do futebol sul-americano. Aos 28 minutos do primeiro tempo, Jair Rosa Pinto, em disputa de bola com o zagueiro Salomón, quebrou a perna do argentino. Os jogadores deram início a uma briga generalizada e a polícia argentina entrou no gramado e agrediu os atletas brasileiros. A partida terminou 2 a 0 para a Argentina. “Além desse jogo, o Brasil demorou a valorizar os campeonatos sul-americanos. Algumas vezes enviava equipes estaduais para representar a Seleção e outras nem participava”, arremata Celso.

A Seleção de 1946 antecedeu uma ausência no Sul-Americano: no ano seguinte, os canarinhos se ausentaram do torneio

A Seleção de 1946 antecedeu uma ausência no Sul-Americano: no ano seguinte, os canarinhos se ausentaram do torneio - Credito: Divulgação

Nas edições de 1947 e 1955, o Brasil não participa do torneio. Nas duas ocasiões, a Argentina sagrou-se campeã. Nos campeonatos de 1949, quando a equipe brasileira conquista seu terceiro título, e 1953 é a seleção albiceleste que não participa da competição.

Em 1967, a Seleção Brasileira não jogou o campeonato por priorizar a disputa da Taça Oswaldo Cruz, no ano seguinte, contra o Paraguai. “Procurei em todos os anos que o País não jogou a Copa América, e não há nada registrado nos arquivos que justifique a ausência da Seleção nessas edições do torneio”, esclarece Antônio Carlos Napoleão, jornalista, historiador de futebol e gerente de memória e acervo da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

Depois do intervalo de oito anos, em 1975, o campeonato voltou a ser disputado. Agora com a nomenclatura oficial de Copa América e com as fórmulas que se mantém até os dias de hoje: as seleções são divididas em grupos, as duas melhores de cada grupo se classificam para as finais da competição. No entanto, o torneio só voltou a ter uma sede fixa em 1987. “A partir de 87, o país começa a valorizar a competição. Primeiro porque o Brasil sedia a edição seguinte, em 1989, e depois não tem mais desculpa, a Seleção passa a atuar com o time principal”, comenta Celso.

Desde 1975 aconteceram 14 edições de Copa América, o Brasil nunca mais deixou de participar do torneio e conquistou nesse período cinco títulos – 1989, 1997, 1999, 2004 e 2007.

Em 2004, os brasileiros superaram a Argentina, com grande atuação de Adriano, e levantaram o título

Em 2004, os brasileiros superaram a Argentina, com grande atuação de Adriano, e levantaram o título - Credito: Divulgação

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