O Brasileirão é realmente mais competitivo do que as ligas europeias?

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Como capitão, Dudu ergueu a taça de campeão brasileiro de 2016 no Allianz (Foto: Divulgação/Cesar Greco)

Como capitão, Dudu ergueu a taça de campeão brasileiro de 2016 no Allianz (Foto: Divulgação/Cesar Greco)

Um jargão sobre o futebol brasileiro é costumeiramente repetido em programas esportivos antes, durante e depois do torneio nacional de clubes: “O Brasileirão é o campeonato mais equilibrado do mundo”. Ou ainda: “O Brasileirão é muito mais competitivo do que as ligas europeias”.

Porém, será que todo esse equilíbrio ainda se mantêm nos dias atuais? Para além disso, o que quer dizer essa ‘competitividade’? Com o objetivo de responder tais perguntas, analisamos a Série A do Campeonato Brasileiro a partir de diferentes pontos de vista e a comparamos com as ligas inglesa, italiana e espanhola; confira o resultado.

Alternância dos campeões ao longo dos anos

Para analisar a competitividade de um campeonato, vamos verificar o número de campeões diferentes em um determinado período de tempo. Com o objetivo de traçar contextos ao longo dos anos, separamos o recorte de toda a história e o do presente século.

Alternância em toda a história

Campeonato Inglês

Desde 1888, em todas as fases de Football League, Football League First Division e Premier League.

24 campeões diferentes em 120 edições.

Maiores campeões: Manchester United (20), Liverpool (19), Arsenal (13), Everton (9) e Aston Villa (7).

Campeonato Espanhol

Desde 1928 até o formato atual da La Liga.

9 campeões diferentes em 90 edições.

Maiores campeões: Real Madrid (34), Barcelona (26), Atlético de Madrid (10), Athletic Bilbao (8) e Valencia (6).

Campeonato Italiano

Desde 1977, passando por todos os formatos até a atual Serie A.

16 campões diferentes em 112 edições

Maiores campeões: Juventus (36), Internazionale (18), Milan (18), Genoa (9), Pro Vercelli (7) e Bologna (7).

Campeonato Brasileiro

Desde 1959, passando por todos os formatos até chegar ao Brasileirão atual por pontos corridos.

17 campeões diferentes em 63 edições.

Maiores campeões: Palmeiras (10), Santos (8), Corinthians (7), São Paulo (6).

Levando em conta todo o histórico, o Brasil realmente apresenta uma variedade maior dos campeões de seu principal torneio nacional.

Alternância no século XXI

Veja os campeões do século XXI, compreendendo das temporadas 2000-2001 a 2019-2020 para os europeus; e dos anos 2000 a 2019 para o Brasileirão.

Serie A italiana

20 títulos: 11 da Juventus, 1 da Roma, 3 do Milan e 5 da Internazionale.

4 campeões diferentes em 20 temporadas.

Premier League

20 títulos: 7 do Manchester United, 5 do Chelsea, 4 do Manchester City, 2 do Arsenal, 1 do Liverpool, e 1 do Leicester.

5 campeões diferentes em 20 temporadas.

La Liga

20 títulos: 10 do Barcelona, 7 do Real, 1 do Atlético e 1 do Valencia.

4 campeões diferentes em 20 temporadas.

Brasileirão

20 títulos: 4 do Corinthians, 3 do São Paulo, 3 do Cruzeiro, 2 do Santos, 2 do Flamengo 2 do Palmeiras, 2 do Fluminense, 1 do Vasco da Gama e 1 do Atlhetico-PR.

8 campeões diferentes em 20 temporadas.

Pelos números da Serie A italiana, é possível perceber que o país se organiza em ‘dinastias’. O Milan já dominou o país por anos seguidos, e o mesmo aconteceu com as outras potências. Na Inglaterra, os times financeiramente privilegiados se alternam na conquista da Premier League. Já na La Liga, Barcelona e Real Madrid revezam sozinhos o título, com poucas aberturas para outros times.

O Brasil, ainda no século XXI, mostrou uma variedade maior. Porém, será que isso realmente significa ser competitivo?

Alterância dos primeiros colocados

(Foto: Acervo/Gazeta Press)

Outro ponto de análise importante é a variação dos quatro primeiros colocados. Em todas as competições analisadas, esse ‘G-4’ classifica para o principal torneio continental. Para termos uma amostra atual, separamos as últimas quatro temporadas de cada liga nacional. Valendo-se das tabelas de classificação dos campeonatos, percebemos que nas últimas quatro temporadas da Premier League, cinco equipes diferentes ocuparam os quatro primeiros lugares ao fim da liga. No Brasileirão, no período de 2016 até 2019 (também quatro edições), sete times distintos terminaram o torneio no G-4.

Na La Liga, no mesmo período, cinco diferentes equipes ocuparam os quatro primeiros lugares nas últimas quatro temporadas. A Serie A italiana traz os números de seis times diferentes no G-4 dos últimos anos, analisando-se o mesmo período.

As análises das classificações também comprovam outros jargões do futebol. Na Inglaterra, os dois principais times históricos, Manchester United e Liverpool, se uniram aos ‘novos ricos’, Chelsea e Manchester City, para ‘mandarem’ nas primeiras posições. O quinto lugar acaba ficando para um Tottenham ou um Arsenal em um ano de ‘sorte’. Na Itália, o cenário está um pouco diferente. O Milan perdeu a força nos últimos anos. A Juve reina absoluta e a Inter de Milão tem voltado às primeiras posições. Já na Espanha, Barcelona, Real Madrid e Atlético de Madrid são figuras carimbadas no top-4, deixando a última vaga para Valencia ou Sevilla, geralmente.

No Brasil, o clube dos 13 ainda faz sentido nas primeiras posições. Os quatro maiores de São Paulo (Corinthians, São Paulo, Palmeiras e Santos), os quatro do Rio (Botafogo,

Flamengo, Vasco e Fluminense), os dois de Minas Gerais (Cruzeiro e Alético) e os dois do Rio Grande do Sul (Inter e Grêmio) são os times que se revezeram no top 4, ganhando a companhia do Athletico-PR no lugar do Bahia.

De fato, o Brasileirão tem mais variação nos títulos e nas primeiras posições. Porém, isso realmente quer dizer mais competitividade?

Diferença de pontos

Outro fator importante para medir a competitivadade no Brasileiro é a diferença de pontos. Assim, vemos se o campeão realmente teve ‘briga com os concorrentes’. Em 2016, o Palmeiras foi campeão com 80 pontos, frente aos 71 do Santos, vice. O terceiro, Flamengo, teve os mesmos 71 pontos, perdendo no número de vitórias. Já o quarto, Grêmio, ficou com 62.

Na temporada de 2017, o Corinthians venceu o torneio com 72 pontos, deixando o Palmeiras em segundo, com 63. O Santos veio logo em seguida com os mesmos 63, e o Grêmio, com 62. No ano seguinte, o Palmeiras foi campeão com 80 pontos, superando os 72 do Flamengo. Em terceiro, o Inter marcou 69, e o Grêmio, em quarto, 66.

Já no ano de 2019, o Flamengo foi campeão com ainda mais folga, chegando aos 90 pontos contra os 74 de Santos e Palmeiras, vice e terceiro colocado, respectivamente. O Grêmio fechou o G-4 com 65 pontos. As outras ligas europeias apresentaram a mesma lógica: um time se ‘desgarrou’ na frente e ganhou o título absoluto, deixando a ‘briga’ do segundo colocado para trás.

(Foto: Divulgação/LFC)

Algumas temporadas europeias mostraram disputas até bem mais competitivas, como a Premier League de 2018/19, quando o City ganhou por apenas 1 ponto à frente do Liverpool; e a Serie A 2019/20, em que a Juventus também ficou com apenas 1 ponto a mais do que a Internazionale.

Conclusão: o Brasileirão é mais competitivo do que as ligas da Europa?

 (Foto: Divulgação/Lucas Merçon)

De fato, historicamente o Brasileirão é mais competitivo do que as principais ligas europeias. A questão é que essa disputa não está mais no título, já que o histórico recente mostra que uma equipe liderou sozinha o campeonato e ganhou sem grande concorrência.

A alternância maior está nas outras posições do G-4, e não apenas por caráter técnico. Diferentemente de outras ligas, em que os times estão financeiramente estáveis, as equipes brasileiras passam por momentos financeiros delicidados. É comum que o time se lote de dívidas para ir bem em um ano e tenha um péssimo desempenho na temporada seguinte.

O Cruzeiro é o maior exemplo desta questão. Após ganhar dois títulos da Copa do Brasil, o time passou por escândalos administrativos e hoje está na Série B. Portanto, a alternância na Europa se dá mais por um equilíbrio entre as equipes. Já no Brasileirão, essa mudança nas primeiras posições acontece muito pela incapacidade de um time se manter estável por anos seguidos.

 

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