Técnico europeu da Ferroviária vê Timão como exceção em futebol com pouca intensidade

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Com suporte da diretoria, treinador português pretende ficar na Ferroviária após o Paulista (Foto: Felipe de Souza/AFE)
Mesmo com a boa campanha, Sérgio Vieira acredita que há muito trabalho pela frente (Foto: Felipe de Souza/AFE)

Mesmo com a boa campanha, Sérgio Vieira acredita que há muito trabalho pela frente (Foto: Felipe de Souza/AFE)

Sérgio Vieira tenta lidar com a fama recente. Desde que iniciou o Campeonato Paulista vem sendo destaque pelo bom trabalho realizado à frente da Ferroviária. Português, o treinador busca implantar em um dos times mais tradicionais do interior de São Paulo uma filosofia de jogo moderna, europeia. No último domingo chegou a sufocar o atual campeão brasileiro, o Corinthians, que sofreu para garantir o empate em 2 a 2 com a equipe de Araraquara.

O treinador destacou a intensidade do confronto, algo que admitiu sentir falta no futebol jogado no Brasil. Para ele, a organização tática das duas equipes fez com que o jogo se tornasse muito mais atrativo e parecido com o modelo adotado na Europa. Não por acaso, Tite, que estava do outro lado, também tenta implementar desde que voltou de sua chamada “reciclagem”, novas ideias no futebol do país.

Sergio Vieira tem apenas 33 anos. Chegou a ser jogador de futebol, mas acabou pendurando a chuteira aos 21. Fissurado pelo esporte, não conseguiu se ver longe das quatro linhas e investiu na qualificação para se tornar técnico. Atuou como observador de campo em grandes clubes de Portugal como o Braga e o Sporting, antes de receber a chance que daria à sua carreira um outro rumo.

Em busca de mais conhecimento, viajou pela Europa, conheceu centros de treinamento, assistiu a alguns jogos de grandes clubes antes de vir ao Brasil. Por aqui fez roteiro semelhante, pôde entender como funcionava o esporte no país e não se limitou aos confrontos da Série A. Foi mais a fundo, se deparou com condições menos glamorosas nas Séries C e D e, enfim, recebeu uma oportunidade para integrar a comissão técnica do Atlético-PR.

Trabalhando nas categorias de base do clube, assumiu a equipe de Curitiba interinamente após a demissão do técnico Milton Mendes no ano passado e foi o responsável pela classificação do Atlético-PR na Copa Sul-Americana em cima do Brasília. Também enfrentou o São Paulo, onde não conseguiu colecionar mais um bom resultado e acabou sendo derrotado no Morumbi. Foi cedido ao Guaratinguetá, assumiu a equipe na zona de rebaixamento da Série C e conseguiu livrar a equipe de ir para a Série D, ganhando jogos contra o Londrina e Brasil de Pelotas, dois clubes que subiram para a Segunda Divisão no ano passado.

Com uma ascensão meteórica, Sérgio Vieira não se empolga e mantém os pés no chão. Continua dando prioridade ao trabalho ao invés das entrevistas, não se deslumbra com o sucesso e adiantou que pretende ficar na Ferroviária mesmo após o fim do Campeonato Paulista. Conseguir uma vaga para a disputa da Série D do Brasileirão é a principal meta dele e do clube, como admitiu em entrevista à Gazeta Esportiva.

Com suporte da diretoria, treinador português pretende ficar na Ferroviária após o Paulista (Foto: Felipe de Souza/AFE)

Com suporte da diretoria, treinador português pretende ficar na Ferroviária após o Paulista (Foto: Felipe de Souza/AFE)

GazetaEsportiva.com: Como você veio parar no Brasil?

Sérgio Vieira: Após o fim do vínculo com o meu último clube em Portugal decidi fazer algumas viagens. Estive em alguns países europeus, visitei alguns centros de treinamentos, assisti a alguns jogos. Depois, vim para o Brasil. Conheci algumas cidades do país, assisti jogos de Série A, B, C e D. Conheci CTs, clubes, fiz reuniões, e então acabei recebendo uma oportunidade no Atlético-PR. Me convidaram para integrar um projeto de coaching técnico e tático para todas as categorias do clube e deu certo porque as pessoas conheceram a minha capacidade, meu conhecimento e me convidaram para assumir o sub-23 do clube. Disputamos a Taça Paraná e então fui para o Guaratinguetá, treinar o clube na Série C. Peguei o time no último lugar e conseguimos evitar o rebaixamento da equipe, ganhamos do Londrina que era o líder, do Brasil de Pelotas que também subiu para a série B. Foi um trabalho muito bem feito.

GazetaEsportiva.com: Você foi confirmado como treinador da Ferroviária para a disputa do Campeonato Paulista em novembro. Mesmo com pouco tempo para trabalhar com a equipe os jogadores vêm fazendo um ótimo início de competição. Qual é o segredo desse time?

Sérgio Vieira: Fui apresentado em novembro, mas na verdade começamos a pré-temporada apenas em janeiro de 2016, porque não tínhamos jogadores o suficiente. Chegaram 13 novos atletas em nosso elenco, fizemos a pré-temporada no CT do Atlético-PR, tivemos apenas quatro semanas de preparação. Não conseguimos a vitória na estreia do Paulista, mesmo dominando o jogo, com mais posse de bola e um erro da arbitragem na marcação de um pênalti para o Água Santa, que não existiu. Acredito que o nosso segredo é a forma coletiva como nós jogamos. O nosso objetivo é ter uma visão muito completa naquilo que se refere ao jogo de futebol, nossa organização como time, movimentos, preenchimento de espaços...

GazetaEsportiva.com: Você tem como uma de suas qualificações o curso da Uefa, algo raro no Brasil. Você acredita que falta no país uma formação mais profissional para os treinadores?

Sérgio Vieira: Acredito que falta uma formação mais profunda, mais crítica sobre aquilo que é o processo de treino, a liderança, o que é o futebol. Além da minha experiência como jogador fui para o futebol de base, procurei meu conhecimento não só na licenciatura, mas também no curso da Uefa. Eu vejo que o futebol é uma ciência como qualquer outra. Existem muitos fatores que ajudam no rendimento, não é só treino. Vem de diferentes departamentos, diferentes momentos da concentração, são muito detalhes. E tudo isso vem do conhecimento, da nossa formação.

GazetaEsportiva.com: Você foi auxiliar técnico e trabalhou como observador em alguns clubes de Portugal. O futebol que é jogado lá é superior ao que é praticado aqui?

Sérgio Vieira: Eu sinto que o futebol aqui é diferente daquilo que acontece lá. Por exemplo, no jogo entre Ferroviária e Corinthians houve muita intensidade, as duas equipes se organizaram bem em campo, tiveram muitas finalizações a gol, foi um jogo bem jogado.  A intensidade do jogo, a circulação da bola, a organização das duas equipes, situações de bola parada, tudo aquilo que aconteceu nesse jogo acontece com muito menos frequência em outros jogos no Brasil. Não existe tanta sequência com essas características na Séries A, B, C e D do país.

GazetaEsportiva.com: Quais são seus planos após o fim do Campeonato Paulista? A intenção é permanecer na Ferroviária ou retornar ao Atlético-PR?

Sérgio Vieira: A grande meta nossa, da diretoria e do clube é conseguir uma vaga para a disputa da Série D do Campeonato Brasileiro e conseguir o acesso para a Série C. Temos também os jogos contra o Salgueiro pela primeira fase da Copa do Brasil. Se avançarmos vamos pegar o Fluminense ou o Tombense, então esse também é um grande desafio para a equipe. Não penso muito no futuro, mas devo permanecer na Ferroviária e dar continuidade ao projeto.

*especial para a Gazeta Esportiva

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