Pugilista, goleiro que salvou Edílson diz que “derrubaria uns dois” hoje

Helder Júnior - São Paulo,SP

07-04-2018 08:30:23

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Renato de Oliveira merece uma apresentação digna de um pugilista para um dos jogos mais marcantes da sua carreira. No banco de reservas visitante do Morumbi, medindo 1,90m e pesando 86kg, como anunciaria um bom locutor de boxe, estava ele, o goleiro corintiano de apenas 20 anos.

O soar do gongo se deu à beira do campo, com as controversas e históricas embaixadinhas que Edílson resolveu fazer na última final de Campeonato Paulista entre Corinthians e Palmeiras, em 1999. Ao ver o amigo jogado às cordas pelos rivais, que o encurralavam, o novato não teve dúvidas – invadiu o gramado transformado em ringue, distribuiu alguns socos e derrubou o zagueiro Roque Júnior antes de baixar a guarda para não ser nocauteado. Correu, então, para as escadarias que davam acesso ao vestiário do estádio do São Paulo e arremessou-se, em uma queda cinematográfica.

“A queda foi de boa. Eu tinha 20 anos na época, treinava boxe. Pulei tranquilamente, segurando na grade, e desci correndo. Foi uma cena feia mais para quem via de fora”, riu Renato, quase duas décadas depois, ao receber um telefonema da Gazeta Esportiva. Seja como for, cada momento daquele jogo – ou daquela luta – não caiu no esquecimento para o ex-atleta acostumado a calçar luvas de goleiro e de pugilista. Ainda mais agora, em meio a uma nova decisão estadual entre Corinthians e Palmeiras.

Fã de Ronaldo, Renato ficou famoso por ter salvado Edílson após as embaixadinhas (foto: arquivo pessoal)

Torcendo por seu ex-clube, o campeão paulista de 1999 achou graça da confusão que marcou o jogo de ida da final de 2018, em Itaquera, vencida pelos palmeirenses por 1 a 0. Questionado se encararia o volante Felipe Melo para proteger o atacante Clayson – ambos acabaram expulsos –, ele não titubeou. “Ah, com certeza, daria para derrubar uns dois ali”, avisou Renato, com a confiança de quem, nas horas vagas, ainda pratica boxe em uma academia de Jaguapitã (PR), sua cidade natal.

O ex-goleiro só fez questão de pontuar que o entrevero de Felipe Melo com Clayson é ameno se comparado aos socos e pontapés da briga da qual participou em 1999. “A rivalidade com o Palmeiras ficou muito acirrada com a nossa eliminação na Libertadores. Sentíamos que éramos melhores e perdemos por acaso, nos pênaltis. Tínhamos certeza da vitória no Paulista. E eles ainda entraram com os cabelos verdes, tirando onda. Aí, o Edílson, um grande amigo, desenrolou as embaixadinhas para responder. Na hora, esqueci tudo e só pensei em protegê-lo, porque era um cara pequeno”, contou.

Edílson tinha total confiança no seu escudeiro. Em uma entrevista concedida à Gazeta Esportiva em 2009, uma década após as embaixadinhas, o atacante já valorizava as virtudes físicas de Renato. “Era impressionante a força que o garoto tinha. Ele mandava a gente chutar a bola com força, a dez metros de distância, e tirava de peito. Não metia a mão para defender, não. O cara era muito forte”, enaltecia.

Edílson enfureceu Roque Jr., derrubado pelo goleiro reserva corintiano, com a provocação de 1999 (foto: acervo/Gazeta Press)

De acordo com o Capetinha, o goleiro reserva do Corinthians não desferiu somente o golpe que ficou famoso, em Roque Júnior. “O Renato ainda deu um soco e quebrou o nariz do Oséas. Ninguém assistiu a esse lance. Televisão nenhuma mostrou. Quando os palmeirenses viram o Oséas todo ensanguentado, quiseram pegar o Renato. Ele saiu correndo e pulou naquele buraco”, narrou, também em 2009.

Hoje, Renato não contém a gargalhada com o relato de Edílson. “Dei na boca do Oséas, sim, e ele sangrou. Foi tudo muito rápido, e o boxe me ajudou. Entrei em campo, com o Paulo César Gusmão (então na comissão técnica do Corinthians) me segurando, e fui para cima dos caras. Aí, quando vieram o Marcão e o Roque juntos, não dava mais. Foi quando pulei na escada”, sorriu. “Mas nunca pensamos em brigar, nada disso. Era só para provocar. O Edílson era tirador de sarro e foi para o jogo com a intenção de aprontar com os caras”, ressalvou.

O boxe foi útil a Renato também quando Edílson não estava aprontando. O goleiro recorreu à nobre arte para entrar em forma quando defendia os juniores do Corinthians. “Eu tinha problema com peso, então decidi treinar boxe à noite. Fui de 94kg para 86kg. Foi isso que me ajudou a ir para a Seleção Brasileira”, apontou, orgulhoso das convocações para a Seleção pré-olímpica de Vanderlei Luxemburgo e para dois jogos do time principal. Foi chamado para enfrentar a Argentina em Buenos Aires e em Porto Alegre, para que adquirisse experiência.

Suplente de Maurício, Renato saiu no pôster do Corinthians campeão paulista sobre o grande rival (foto: acervo/Gazeta Press)

Na Seleção, Renato encontrou Dida, o habitualmente calmo ídolo corintiano, e Marcos, o ídolo palmeirense com o qual batalhou no Paulista de 1999. “O Marcão é um cara muito simples. Aprendi bastante com ele. Mesmo no dia da confusão, veio me pedir desculpas depois, dizendo que perdeu a cabeça. Ele quase acertou uma voadora em mim, mas morreu ali. Isso é coisa do jogo. Fica lá dentro”, comentou, exaltando a carreira do rival. “Ele sempre nos dizia que, mesmo com proposta, não sairia do Palmeiras de jeito nenhum, que ficaria lá. Parece que sabia que construiria toda essa história.”

Já Renato – que, mesmo na reserva, passou a ter o seu nome entoado pela torcida após a pancadaria de 1999 – não saiu do Corinthians por vontade própria. Campeão da Copa São Paulo em 1999, ele rompeu os ligamentos do tornozelo direito durante um amistoso da Seleção olímpica contra o Paraguai, o que prejudicou a sua longevidade no clube. Rodou, emprestado, por Atlético-PR, Portuguesa e Internacional. Ainda assim, fez seis jogos pelo time profissional corintiano, contra as seleções de São Roque e Rio Claro, o Boca Juniors, da Argentina, o Cruzeiro, o Botafogo e o Rio Branco, antes de seguir outros rumos.

O número de partidas seria maior se o Corinthians não tivesse contratado Gléguer, vindo do Guarani. Quando descobriu que o técnico uruguaio Darío Pereyra optaria pelo seu concorrente, Renato quase colocou os conhecimentos de boxe em prática outra vez. “Quem segurou a onda foi um assessor do Corinthians. Parti para cima do Darío, dizendo que iria matá-lo. Mas o Gléguer é meu amigo até hoje”, relatou, rindo tanto quanto ao recordar uma excursão à capital francesa para um amistoso contra o Paris Saint-Germain, em julho de 2000. “Foi f...! Fui dar uma volta no quarteirão com o Dinei, mas não conseguimos mais voltar para o hotel. Ele ficou apavorado e se jogou em cima de um táxi. Quase foi atropelado. A sorte foi que o taxista era torcedor do PSG e nos reconheceu.”


Com tantas boas lembranças, Renato sonha em retornar ao futebol – e, de preferência, ao Corinthians –, agora como técnico. Formado em Educação Física pela Unopar Londrina, ele é secretário municipal de Esporte de Jaguapitã (PR) desde meados de 2014 e está estudando para dar início à nova carreira. Por enquanto, observa com atenção o que Fábio Carille prepara para surpreender o Palmeiras no domingo, no Allianz Parque.

“É claro que acompanho. Fui e sou corintiano. Entrei no clube com 13 para 14 anos e saí com 23. Foi uma vida lá dentro. O Corinthians é tudo para mim. Defendi outros times e a Seleção Brasileira, mas nada se comparou”, declarou-se Renato, otimista para jogar na lona as provocações dos “muitos, muitos mesmo” palmeirenses da sua cidade. “Pode até ser meio a zero, mas vai dar Corinthians. Se o Corinthians tivesse vencido o primeiro jogo, eu até desconfiava. Agora, não. O Corinthians gosta de adversidade. Será 1 a 0, o Cássio salvará nois nos pênaltis, e colocaremos mais um caneco na conta.”

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