Em um espaço de tempo de 11 dias, os grandes rivais Boca Juniors e River Plate se enfrentarão três vezes: uma pelo Campeonato Argentino, e as outras duas pelas oitavas de final da Copa Libertadores. O primeiro duelo acontece neste domingo, às 18h15 (de Brasília), válido pela 11ª rodada do reformulado torneio nacional. Palco do clássico centenário, o gramado da Bombonera guarda resquícios de 74 anos de intensa rivalidade desde a fundação do estádio em 1940, mas a sua localização no mapa explica ainda melhor a origem da animosidade entre as duas torcidas, conforme apurou a reportagem da Gazeta Esportiva.
O sentimento começou a crescer em 1915, quando o então jovem River Plate adotou o hoje quase extinto Aristóbulo del Valle y Caboto como seu estádio, situado no mesmo bairro de La Boca onde o rival construía suas raízes. Curiosamente, a região tem esse nome em referência à “boca” (foz) do rio Riachuelo, no ponto onde este deságua no Rio da Prata – que, por sua vez, dá nome ao River Plate, em inglês. A 800 metros de distância, estava a sede do clube xeneize. Antes disso, em 25 de agosto de 1913, a reportagem do jornal La Gaceta de Buenos Aires já havia relatado brevemente o primeiro confronto entre os dois, em Avellaneda, ressaltando o "equilíbrio de forças da partida, transcedental no que se refere à rivalidade das duas maiores entidades esportivas de um bairro".
A Bombonera será o palco de dois dos três confrontos seguidos que aguardam os rivais (Foto: Ana Carolina da Silva/Gazeta Press) - Credito: Gazeta Press
Décadas antes do surgimento das duas torcidas barra-bravas (como são conhecidas as polêmicas organizadas) La 12 e Los Borrachos del Tablón, a cordialidade já não era comum entre os primeiros fãs das duas agremiações do então chamado clássico boquense. Porém, nem o mais anti-River dos auriazuis poderia imaginar que ela ficaria ainda pior 23 anos depois, quando a equipe rival decidiu desbravar o rico bairro de Palermo e, posteriormente, outro território.
No norte da capital Buenos Aires, no bairro de Belgrano, está a atual casa do River Plate. Fazendo jus somente a parte de seu nome, uma vez que o endereço não tem ligação com a vizinhança de Núñez (com a qual apenas divide as proximidades da beira do Rio da Prata), o Monumental de Núñez impressiona principalmente pelo tamanho de sua estrutura – que acomoda cerca de 60 mil torcedores em arquibancadas à moda antiga –, mas as belas casas da elite portenha, que se situam ao lado do estádio, também contribuem para esse contraste com La Boca.
Hoje praticamente esquecido, o estádio de Aristóbulo del Valle y Gaboto foi a primeira casa do River Plate (Foto: Ana Carolina da Silva/Gazeta Press) - Credito: Gazeta Press
A partir daí, a disputa ganhou novas cores, com contornos de “povo x elite”. Em uma das regiões mais nobres da cidade, o River viveu sua ascensão quase meteórica após a década de 30, ao revelar grandes promessas (como Alfredo Di Stéfano, que viria a fazer história também no Real Madrid), quebrar recordes nos valores de transferências e receber o notório apelido de Millonarios, além do apoio dos públicos mais agraciados financeiramente. Do outro lado, o Boca reafirmava sua imagem de clube operário ao conquistar a torcida das classes mais baixas, uma vez que o bairro homônimo era sustentado pelo trabalho braçal, e a contrastante alcunha de Bosteros, em referência às olarias que produziam concreto e tijolos com argila e barro através da mistura de fezes animais.
Com tantas diferenças entre os dois gigantes argentinos, uma semelhança passa quase despercebida: a Bombonera divide seu aniversário com o Monumental e com o próprio River Plate. No dia 25 de maio (de 1940, 1938 e 1901, respectivamente), as três histórias começaram a ser escritas. Atualmente, até mesmo a matemática contribui para a energia do duelo, uma vez que os dois rivais dividem a liderança do Campeonato Argentino com os mesmos 24 pontos, separados apenas pelo saldo de gols. Palco do confronto deste domingo – e também do jogo de volta das oitavas da Libertadores, no dia 14 –, o estádio xeneize terá a chance de traçar novos caminhos para a rivalidade do Superclássico portenho, em uma sequência de três jogos que tem tudo para entrar para o museu dos dois rivais.
