Especial

2017: ano em que o cerco aos corruptos se fechou

Gazeta Press - Rio de Janeiro , RJ
01/01/2018 09:00:13 — 01/01/2018 10:30:55

Em: Bastidores, Especiais destaque, Futebol, Mais Esportes
Del Nero e Marin tiveram problemas com a justiça internacional em 2017 (Foto: Yasuyoshi Chiba/AFP)

O ano de 2017 não foi muito fácil para dirigentes que se acostumaram a usar o esporte em benefício próprio. A confirmação da condenação de José Maria Marin, ex-presidente da CBF, nos Estados Unidos, foi mais uma prova de que o cerco está se fechando para quem se habituou a cometer atos ilícitos na certeza de que eles jamais seriam investigados. Marin foi acusado de receber quase sete milhões de dólares de suborno em troca de contratos de transmissão e marketing em jogos da Libertadores e da Copa América.

José Maria Marin foi considerado culpado de seis das sete acusações de crimes do “caso Fifa”: inocentado de lavagem de dinheiro na Copa do Brasil, Marin acabou condenado por três crimes de fraude financeira (Copa América, Copa Libertadores, Copa do Brasil), dois de lavagem de dinheiro (Copa América e Libertadores) e um por conspirar/formar uma organização criminosa. Ele está detido numa prisão federal, mas sua pena só será definida no próximo ano pela juíza Pamela Chen.

Com o auxílio do FBI, o governo dos Estados Unidos vinha investigando desde 2010 o pagamento feito a dirigentes por empresas esportivas. Neste processo, foram acusados 42 dirigentes de vários países e 24 já se declararam culpados. Dirigentes da Conmebol e da Concacaf estão entre os principais investigados, inclusive Marco Polo del Nero, presidente afastado da CBF e Ricardo Teixeira que comandou a entidade durante vários anos.

Por temer ser preso pela justiça americana, Del Nero não arreda o pé do País desde maio de 2015, quando autoridades dos Estados Unidos e da Suíça deflagraram a operação para investigar um megaesquema de corrupção e lavagem de dinheiro instalado na Fifa.

Formalmente indiciado pela Procuradoria de Justiça de Nova York em dezembro daquele ano, Del Nero foi incluído na lista de foragidos da Interpol em julho de 2017. Deixou de acompanhar a Seleção Brasileira em 20 partidas no exterior e acabou afastado da presidência da CBF pela Fifa.

O ex-atacante e agora senador Romário sempre foi um dos maiores críticos dos dirigentes que comandam o futebol brasileiro. Uma CPI instalada no Senado para discutir a corrupção no futebol brasileiro terminou, no fim de 2016, com dois relatórios. O texto oficial, do peemedebista Romero Jucá, não pediu nenhum indiciamento. Outro documento, de autoria de Romário (PSB) e Randolfe Rodrigues (Rede), pediu a abertura de inquérito contra nove suspeitos, entre eles Teixeira, Marin e Del Nero, mas não foi aprovado pelo colegiado. O “relatório paralelo” foi encaminhado para o Ministério Público Federal e para a Polícia Federal. Com base nas informações descobertas durante a CPI, Romário lançou um livro: “Um olho na bola, outro no cartola”, onde denuncia o que tem sido feito de irregular nas entidades que comandam as entidades esportivas no país.

Para o Baixinho, o livro é uma forma mais didática de apresentar para o público em geral os resultados das investigações. Ele disse que através da CPI do Futebol, se conseguiu provas do que os dirigentes do futebol, principalmente os da CBF, fazem com o esporte. “Descobrimos que eles enriquecem ilicitamente, tiram esse dinheiro do nosso futebol. Um dinheiro que poderia ser investido na base, no futebol feminino e na melhora das competições que existem no país. Mas eles preferem colocar no bolso e enriquecer”.

Para Romário, a mudança só será possível se for alterada a estrutura do sistema vigente. Para o ex-atacante da Seleção Brasileira, a corrupção na CBF é sistêmica e estrutural. “Se o sistema não mudar, se continuar a CBF com as pessoas que estão ali, infelizmente nada vai mudar”.

Em relação a Marco Polo Del Nero, presidente afastado, Romário disse que as investigações da CPI mostraram que o dirigente é corrupto e que vem enriquecendo de forma ilícita desde que assumiu o cargo na CBF.
Romário também lamenta que outros ídolos do futebol brasileiro não usem seu prestígio para lutar contra o atual estado de coisas no esporte brasileiro. “Muitos hoje falam que é fácil o Romário falar porque tem imunidade parlamentar. A verdade é que temos muitos ídolos que são frouxos, não tem coragem ou são mancomunados com a CBF”.

Desvios no COB

Quem também segue investigado é Carlos Arthur Nuzman, presidente licenciado do Comitê Olímpico Brasileiro. Nuzman foi alvo da Operação Unfair Play, desdobramento da Lava Jato, Nuzman teve bens bloqueados, passaportes retidos e chegou a ser detido por algumas semanas. Hoje está foi proibido de deixar o País. Em seu apartamento, a Polícia Federal apreendeu 480 mil reais em espécie, de cinco diferentes moedas (real, dólar, euro, libra e franco suíço). O Ministério Público Federal investiga se o cartola intermediou o pagamento de propina milionária para o presidente da Federação Internacional de Atletismo, o senegalês Lamine Diack, em troca do apoio à candidatura carioca para sediar as olimpíadas de 2016 que foram realizadas no Rio de Janeiro.
Segundo os procuradores da Operação Unfair Play, Nuzman seria o elo entre corruptos e corruptores

O esquema investigado pelo Ministério Público Federal conta com a participação de um agente público: o ex-governador fluminense Sérgio Cabral. Cabral está preso desde novembro do ano passado e suas condenações somadas já passam dos 80 anos de prisão. Cabral é acusado pela Operação Lava Jato pelos crimes de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e associação criminosa. Até a reforma do Maracanã para a Copa do Mundo serviu para que empresas pagassem propinas a políticos e dirigentes. De acordo com as investigações já divulgadas pelo Ministério Público, Cabral estaria envolvido diretamente na transferência de recursos, através de Nuzman, para o senegalês Lamine Diack, em setembro de 2009, um mês antes de o Comitê Olímpico Internacional escolher o Rio como sede olímpica. Os depósitos no valor de dois milhões de dólares foram feitos pela Matlock Capital Group, offshore nas Ilhas Virgens Britânicas controlada por operador escolhido pelo ex-governador.

Impedido de deixar o país e frequentar as dependência do Comitê Olímpico Brasileiro, Nuzman tenta se defender, alegando que os crimes praticados por ele no exterior não são passíveis de punição no Brasil. É o mesmo argumento utilizado pela defesa de Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF. A exemplo de Del Nero, Teixeira também evita sair do país para não correr o risco de ser preso.

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