Neilton e Luan Pereira relatam como vivem em quarentena nos Emirados Árabes

Pedro Guedes, especial para a Gazeta Esportiva - São Paulo,SP

31-03-2020 08:00:36

A pandemia do coronavírus forçou a paralisação do futebol nos mais diversos campeonatos do mundo. Além das dificuldades naturais desse momento, alguns brasileiros estão em quarentena longe de casa, como são os casos de Neilton e Luan Pereira, que estão nos Emirados Árabes. Em entrevista exclusiva à Gazeta Esportiva, os dois atletas comentaram sobre a situação no Oriente Médio.

Atacante do Hatta Club, Neilton explicou como está seu cotidiano: “Estamos em quarentena também, nos resguardando ao máximo para que o número de casos não cresça. Temos mais ou menos 400 casos. O país entrou numa quarentena bem severa. Fecharam praias, negócios, estão higienizando tudo. O pessoal está se cuidando bastante”, comentou o atleta formado pelo Santos e que vive em Dubai.

"Quando dá 8 horas da noite tem um toque de recolher. Mandam um alerta no celular de cada um, parece uma sirene, avisando que não pode sair na rua, que toma multa se sair. Mas a maioria segue as orientações certinho”, acrescentou.

A situação parece ser padrão no país. Morando em Sharjah, o meia Luan Pereira, ex-Avaí, vive situação parecida: “É um momento complicado, temos que pensar no próximo. Sabemos que a situação é delicada, mas temos que ficar em casa e logo vai passar. Aqui em Sharjah nós podemos transitar na rua até às 8 horas da noite. Depois disso eles limpam a cidade, então não podemos sair”.

Neilton ainda tem contrato com o Vitória, mas está emprestado ao Hatta Club (Foto: Divulgação)

Um dos problemas recorrentes no Brasil tem sido a falta de alguns produtos nos supermercados, muito por conta dos estoques feitos pelas famílias. Nos Emirados Árabes, essa questão não tem ocorrido, segundo Luan Pereira: “Não tivemos esse problema aqui. Até porque nenhum mercado fechou. Então quando falta algum alimento em casa, as pessoas vão lá e pegam o necessário, ninguém faz estoque. Precisei ir no mercado esses dias e ninguém sai pegando tudo, está muito tranquilo".

O Brasil vive uma realidade muito diferente dos Emirados Árabes em muitos aspectos, mas principalmente na questão cultural. Em um país com a grande maioria muçulmana, as regras e leis são diferentes em diversos pontos. Para Neilton, a diferença não é tão gritante na cidade onde vive, mas o atacante reconhece que, em outras regiões do país, a situação pode ser diferente.

“Não estou sentindo muita falta do Brasil. Como eu moro em Dubai, que é uma cidade turística, não tem muita diferença, não tem muitas regras, porque aqui tem muitos estrangeiros. Em Abu Dhabi tem mais, mas aqui não. E aqui tem muitos restaurantes brasileiros, então nem da comida sentimos muita falta”, comentou.

Luan Pereira fez seis jogos pelo Sharjah, sendo quatro como titular (Foto: Divulgação)

A rotina de treinos para cada um dos atletas é diferente. O clube de Neilton prefere controlar mais as atividades de seus jogadores, como o próprio atacante destaca: “O clube manda todo dia os exercícios. E eles arrumaram um aplicativo que todo mundo treina ao vivo. Coloca o celular onde dá para te ver e o time inteiro treina junto”.

Luan Pereira, por outro lado, tem mais autonomia e treina mais por conta própria: “Tenho que improvisar com treinos aqui em casa mesmo, para não ficar parado e não perder o preparo físico. O clube passa um cronograma e nós seguimos o máximo que dá para fazer”, disse o jogador, que está vivendo sozinho nos Emirados Árabes. “Por enquanto estou sozinho. Minha família vinha para cá, mas por conta da pandemia eles resolveram ficar no Brasil. Na próxima temporada eles devem vir comigo. Mas estou tranquilo, sempre conversando com os outros brasileiros daqui, tudo numa boa".

Neilton disputou seis partidas e marcou um gol pelo Hatta Club (Foto: Divulgação)

Uma das perguntas que mais surgem quando se conversa com jogadores que foram tentar a sorte no Oriente Médio é sobre a diferença do futebol brasileiro para o asiático, tanto em questão de nível técnico como preparação física. Surpreendentemente, para os dois entrevistados, a maior diferença está no extracampo.

“É muito diferente. A competitividade não é do nível do Brasil, rivalidade e essas coisas. Tem um pouco de diferença na força, no nível técnico e principalmente no extracampo. Você chega num hotel e não tem o calor da torcida, chega no estádio e não está cheio. Você é jogador, mas vive uma vida normal. Se o time perde você pode sair com a família... No Brasil, se você perde um jogo, parece que você é um criminoso”, destaca Neilton.

Luan Pereira confirma e cita a qualidade do futebol asiático: “No Brasil rola uma euforia, essa coisa de 'jogo da vida', torcida cobrando. Aqui é mais tranquilo”, comentou. “Aqui não tem essa cultura de querer ser jogador desde pequeno, igual no Brasil. Mas o nível é muito bom também, não fica muito atrás”, completou.

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