Rodado no exterior, Muriqui vislumbra volta para se firmar no Brasil

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Vislumbrando volta ao Brasil, Muriqui aproveita experiência no estrangeiro com família (Foto:Divulgação)
Vislumbrando volta ao Brasil, Muriqui aproveita experiência no estrangeiro com família (Foto:Divulgação)

Vislumbrando volta ao Brasil, Muriqui (E) optou pelo exterior para dar qualidade de vida à família (Foto:Divulgação)

"Sou bem realista", confessou em um momento da conversa. É assim que o carioca Luiz Guilherme da Conceição Silva, mais conhecido como Muriqui, mostrou saber lidar com frustração de nunca ter vestido a camisa da Seleção Brasileira principal. Multicampeão no chinês Guangzhou Evergrande, hoje liderado por Luiz Felipe Scolari, o atacante está há um ano no Al Sadd e atualmente divide elenco com o espanhol Xavi Hernández. Mas, apesar da boa qualidade de vida e da realização profissional, o atacante planeja encerrar a carreira no Brasil, onde não conseguiu se firmar num primeiro momento.

Aos 29 anos, Muriqui vive no exterior desde 2010, quando foi contratado como aposta pelo Guangzhou, mesmo admitindo que o futebol chinês era um produto pelo qual "nunca pesquisaria na internet". Primeiro brasileiro contratado pelo clube em parceria com a Evergrande, empresa do ramo da construção civil que migrou para os investimentos no futebol, Muriqui conquistou o título do acesso logo em seu primeiro ano, emendando, a partir daí, a conquista do tricampeonato chinês, da Liga dos Campeões da Ásia e da Supercopa da China.

Além dos títulos, o brasileiro se tornou o maior artilheiro da história do clube ao marcar 78 gols em 134 jogos. No último dia 25 de outubro, porém, Muriqui teve sua marca igualada pelo compatriota Elkeson, que chegou à China em 2012, contratado do Botafogo. A rivalidade pela marca, no entanto, não incomoda o jogador. "É um grande atleta, tem muita qualidade. Eu sei que uma hora ou outra a marca seria batida. Não me incomoda não, eu nem penso muito. Se eu tivesse preocupado com a marca teria continuado lá, mas meu pensamento era buscar novos desafios", comentou Muriqui em bate-papo com a Gazeta Esportiva, por telefone.

Eleito como melhor jogador da Champions asiática em 2013 após ser o artilheiro da competição, Muriqui decidiu trocar os requintes de Cantão (ou Guangzhou), capital da província de Guandong e conhecida por sua capacidade portuária e intenso comércio, pelas inovações de Doha, capital do Catar e símbolo de investimento em tecnologia. Depois de marcar a história no futebol chinês, o que lhe faz receber propostas até hoje, Muriqui agora experimenta atuar no futebol dos Emirados ao lado de Xavi, atleta icônico do Barcelona e da seleção espanhola.

Autor de quatro gols em cinco jogos pelo Al Sadd nesta temporada, Muriqui observou as diferenças em termos de futebol e cidadania nos dois países, contou causos de sua adaptação, relembrou sua passagem rápida e cheia de reviravoltas pelo futebol brasileiro e falou até de Seleção. Também comentou as impressões que tem dos atletas brasileiros no futebol chinês e até vislumbrou uma volta ao Brasil no futuro para deixar seu nome marcado no futebol nacional.

O ônus e o bônus de cruzar o mundo

Após não se firmar em nenhum dos oito clubes pelos quais passou em um intervalo de seis anos, Muriqui, que era agenciado pela Traffic, mudou seu plano de vida e trocou a casa no centro de Belo Horizonte (MG), onde passou só seis meses com a camisa do Atlético-MG, para viajar a Guangzhou, cidade no sul da China, a 120 quilômetros de Hong Kong. Sincero, o atacante não titubeou ao admitir que a principal razão para a mudança foi o lado financeiro.

Depois de chegar como forasteiro à China, e se assustar com os costumes à primeira vista, Muriqui se adaptou ao estilo de vida no Oriente. "Não conhecia nada da cidade, do país, fui meio no escuro... Quando surgiu a proposta fiquei pensando: 'Será que vou para um clube que nunca ouvi falar?' Quando cheguei aqui, foi num dia à noite, eu achei que ia passar sufoco", admitiu. "É uma cidade moderna, me pegou de surpresa. Foi uma questão bem familiar além de profissional. Queria estar em um lugar que eu pudesse ter uma qualidade melhor de vida", prosseguiu.

Na China, Muriqui emplacou títulos e fez história como o 1º brasileiro do Guangzhou (Foto:Divulgação)

Na China, Muriqui emplacou títulos e fez história como o 1º brasileiro do Guangzhou (Foto:Divulgação)

Assumindo ter aceitado a proposta "não apenas para ir e passar o tempo, mas sim marcar uma história", o atleta viu na aliança com o grupo Evergrande um fator determinante para alavancar o mercado do futebol chinês. E Muriqui se orgulha de ter sido o pioneiro. "Fui o primeiro brasileiro contratado pela empresa, foi um divisor de águas não só para o Guangzhou, mas para o futebol chinês. Depois desse investimento, outras equipes quiseram montar times competitivos. Hoje há uma liga muito mais forte do que quando eu cheguei, o nível está equilibrado", ressaltou.

A RESENHA COM O PARCEIRO XAVI

Em meio a ganhos e perdas; chegadas e partidas, Muriqui foi brindado com um encontro significativo no novo país. Um dos artilheiros do Al Sadd na temporada, o brasileiro viu o time catari investir na contratação de Xavi, espanhol que se despediu do Barcelona após quase duas décadas conquistando o título da Liga dos Campeões. Vencendo a barreira do idioma ao improvisar o famigerado 'portunhol', surpreendeu-se com a simpatia e as lições transmitidas pelo volante.

"Ele surpreendeu muito tanto dentro quanto fora de campo. Não tinha dúvida que o Xavi viria para jogar, mas muita gente acha que jogador só vem pra cá passar férias e ganhar dinheiro. Ele tem trabalhado muito, tem sido bacana. É um cara respeitador, e o grupo tem que aprender com a experiência que ele acumulou. Ele até tem um trabalho paralelo aqui com a academia de futebol, vira e mexe vai assistir aos jogos do sub-20 da seleção catari", contou.

Planejando se instruir como técnico, Xavi é um dos líderes do elenco do Al Sadd (Foto:Divulgação)

Planejando se instruir como técnico, Xavi é um dos líderes do elenco do Al Sadd (Foto:Divulgação)

Dizendo não saber dos planos de Xavi em se tornar treinador, o que já foi abordado pela imprensa europeia em diversos momentos, Muriqui deu risada ao comentar a 'tietagem' da qual o espanhol foi alvo. "Quando ele chegou, eu reparava que os mais jovens perguntavam muito sobre o Barcelona, sobre as parcerias com Iniesta e outros. Ele sempre respondeu super bem. É um cara bom de grupo", ressaltou.

Agora no Catar, país de dimensões infinitamente menores com relação à China, Muriqui ainda sofre com a falta de exposição em termos esportivos. De acordo com ele, não adianta os discursos de "abrir o leque" de jogadores para a Seleção porque o futebol do outro lado do mundo não é prioridade. Sem demonstrar nenhuma aflição em vestir a camisa amarela, o brasileiro prefere investir no futuro da família e na vivência de novas culturas.

"É preciso saber o que quer, quais são as prioridades. Tem o bônus e o ônus. O bônus é que você vai ter salário em dia, qualidade de vida, tranquilidade com a família; mas o ônus é que você fica escondido. Se você almeja convocação, tem que entender que vai ficar em segundo plano. As pessoas não acompanham muito, e as chances ficam esgotadas", reconheceu.

Jogando fora de sua posição original, Muriqui (D) já marcou quatro gols em cinco jogos nesta temporada (Foto:Divulgação)

Jogando fora de sua posição original, Muriqui (D) já marcou quatro gols em cinco jogos nesta temporada (Foto:Divulgação)

"Doha é uma das cidades mais abertas do mundo árabe, eles permitem algumas coisas, não é que nem a Arábia Saudita. É um país com 80% de estrangeiros. É um país que é árabe, mas que a maioria da população é gringa. Os costumes, no entanto, são seguidos. Não é porque predominam estrangeiros que vamos viver como turistas, sem responsabilidades. Eu procurei entender a cultura do povo, do país, talvez por isso tenha feito sucesso", disse.

Garantindo já estar adaptado à rotina no país árabe, Muriqui acredita que a Copa de 2022 - que segue investigada nos bastidores, na esteira de todo o esquema de corrupção que envolveu a Fifa neste ano - pode evoluir em muito o futebol catari. "A China é mais competitiva do que aqui. Uma loucura, uma correria danada, um jogo pegado. No Catar o jogo é mais lento, também por ser muito quente. Eu acredito que daqui pra frente, como o Catar vai sediar a Copa, muita coisa vai mudar. Acredito que pode ser uma força continental", ponderou.

Tropeços e deslizes na juventude: um roteiro itinerante pelo Brasil

"A minha carreira poderia ter tomado um rumo diferente se eu tivesse sequência", reconheceu o atacante ao falar sobre sua passagem no futebol brasileiro. De 2004, quando foi revelado pelo Madureira-RJ, até 2010, quando saiu do Atlético-MG para ir à China, Muriqui teve idas e vindas mas nunca se firmou. Na primeira chance em um clube grande, o Vasco, Muriqui não emplacou por conta de uma lesão que o tirou da disputa por posições.

Depois de deslizes no futebol brasileiro, boa passagem pelo Avaí, em 2009, abriu portas (Foto:Divulgação)

Depois de deslizes no futebol brasileiro, boa passagem pelo Avaí, em 2009, abriu portas (Foto:Divulgação)

De volta ao time do subúrbio, foi difícil lidar com a frustração. "Minha cabeça não assimilou essa mudança. Quando voltei, não estava com a cabeça boa para fazer um bom campeonato e ir para um grande clube. Eu tinha 18 anos, era muito novo e não consegui dar sequência. Fiquei um bom tempo com esse sentimento que poderia ter feito mais. Infelizmente errei algumas coisas, por isso rodei por muitos times. Não tive sabedoria e discernimento para saber o que tinha que fazer", reconheceu.

Depois de passagens por Paysandu, Iraty, Vitória e Ituano, foi no Avaí, em sua segunda experiência, que as coisas começaram a mudar. O ano era 2009. Muriqui teve parte do passe comprado pela Traffic e, depois se destacar na boa campanha do time catarinense, que chegou em 6º lugar no Brasileiro, quase acertou a ida ao Palmeiras, mas acabou chegando ao Atlético-MG. O jogador, inclusive, não escondeu o carinho que tem pela massa atleticana.

"Minha segunda ida ao Avaí abriu as portas novamente. Em todas essas passagens, apesar de algumas não terem sido tão positivas, eu cresci muito como homem e aprendi a dar muito valor àquilo que conquistei. Se, no campo, não deixei uma imagem tão positiva no Brasil, eu cresci muito como homem", afirmou. "Tenho mais um ano e nove meses de contrato com o Al Sadd, e quero ficar no máximo mais quatro anos no exterior. Meu filho ainda é novo e quero que ele viva um pouco mais aqui. Penso em voltar sim, mas não quero voltar me arrastando, quero ter condições para jogar", prosseguiu, vislumbrando o retorno no futuro.

* especial para a Gazeta Esportiva

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