O Operário Ferroviário Esporte Clube completou 103 anos na última sexta-feira, 1º de maio, Dia do Trabalho. Na mesma semana do aniversário comemorado no feriado simbólico, o clube conquistou o Campeonato Paranaense pela primeira vez em sua história justamente contra o grande Coritiba, maior vencedor estadual, com 37 títulos. Porém, quem viu as duas vitórias sobre o Coxa – por 2 a 0, no Germano Kruger, e 3 a 0, no Couto Pereira – não imagina quantas dificuldades o Fantasma enfrentou em seu passado recente.
No comando do clube desde 2012, o presidente Laurival Pontarollo (que assumiu o cargo de forma oficial em 2013) revela que já pensou em desistir da gestão por falta de apoio, que o obrigou a investir parte dos lucros obtidos com sua empresa de feijões e cereais, Feijão Pontarollo, para amenizar o déficit orçamentário de 50 mil reais por mês. O que lhe impediu de deixar o cargo foi o projeto implantado no clube, quase inédito em times do interior: o “Amigos do Operário” consiste em um grupo de 40 empresários de pequeno e médio porte da cidade de Ponta Grossa, que contribuem com o time por meio de investimentos mensais. Dentre eles, estão comerciantes, profissionais liberais (como contadores e advogados) e dois deputados. Além disso, o apoio de cerca de 2.200 sócios-torcedores fortaleceu as finanças do Fantasma – carinhosamente apelidado por Laurival como “clubinho”, em comparação com os grandes Atlético Paranaense, Coritiba e Paraná.
Fora de campo, a história e o favoritismo jogavam a favor do Coxa, que não era derrotado no Couto Pereira diante de um time do interior deste 19 de fevereiro de 1986, quando perdeu por 4 a 1 para o Matsubara, de Cambará, também pelo torneio estadual. Para exemplificar o tamanho da disparidade entre as duas equipes, o retrospecto fala por si só: em 72 confrontos, o Coritiba venceu 44, empatou 15 e perdeu apenas 13 vezes, obtendo o expressivo e positivo saldo de 62 gols. Antes da vitória no duelo de ida da final em 2015, o último triunfo do Operário sobre o poderoso adversário havia sido em maio de 1990, em Ponta Grossa.
Ainda empolgado com o título inédito sobre o Coritiba – apenas dois anos mais velho que o atual campeão –, o presidente Laurival Pontarollo contou os detalhes de sua empreitada à Gazeta Esportiva.Net, revelando os objetivos para a sequência da temporada e o provável futuro do técnico Itamar Schülle. Com esforço, simplicidade e até mesmo feijão, o Fantasma do interior começa a escrever sua história como o centenário Operário, que de fato é.
Segundo Laurival, o apoio da torcida tem sido fundamental no crescimento do Operário - Credito: Divulgação
Gazeta Esportiva.Net: Antes de mais nada, parabéns pelo título. Qual é o seu sentimento por ganhar a taça inédita justamente contra o maior campeão?
Laurival Pontarollo: Sentimento de gratificação. O título é um prêmio pelo nosso trabalho, que sempre foi feito com muita dedicação. Nos últimos anos, até abandonei a minha empresa, deleguei funções. É um sentimento de muita felicidade, consegui o feito quase inédito de reunir um grupo de empresários para ajudar o clube.
GE.Net: Por que o senhor acha que o Operário demorou para fazer frente com os grandes do estado, ainda mais sendo só dois anos mais novo que o Coritiba? Faltou apoio da cidade de Ponta Grossa?
Laurival: O Operário sempre foi tocado por um presidente que era obrigado a colocar dinheiro no clube. Alguns empresários apareciam para explorar, só queriam sugar do clube. Por isso, o nosso projeto é tão importante. Mas sempre fomos um time com uma torcida grande que sempre nos cobrou e apoiou na mesma medida, com a imprensa em cima e a cidade de olho.
GE.Net: Em 2012, o Operário tinha um déficit de 50 mil reais por mês, com uma folha salarial de 160 mil. A casa está organizada hoje?
Laurival: Muito organizada. Não só estamos com as contas em dia, como também fizemos sala de imprensa, fisioterapia, academia... Agora temos uma estrutura competitiva, e os frutos estão começando a aparecer.
GE.Net: E como foi esse processo?
Laurival: Nós realizamos o trabalho com os patrocinadores locais, e também contamos com a ajuda da minha empresa de feijões e cereais (Feijão Pontarollo). Não foi fácil, com certeza exigiu muito foco de nós.
GE.Net: A principal fonte de renda do clube hoje vem dos programas de sócio-torcedor e do Amigo do Operário. Como estão os números dos dois programas?
Laurival: No Amigo do Operário, são 40 investidores da cidade de Ponta Grossa. Os sócio-torcedores já são 2.200, temos uma torcida bem presente. Os nossos patrocínios de camisa também nos ajudam muito, temos algumas empresas parceiras que acreditam na gente.
Presidente desde 2013, Laurival trouxe os investidores locais para perto do clube - Credito: Divulgação
GE.Net: O contrato do técnico Itamar Schülle será renovado agora?
Laurival: Sendo bem honesto, acho muito difícil. Alguns clubes grandes já estão atrás dele, até pelo nível do trabalho que ele realizou, e o Operário é um “clubinho”, né? Fica difícil competir com outros times cheios de dinheiro e totalmente profissionalizados.
GE.Net: Dos 11 titulares, só o Juba não está com o contrato próximo do fim (o vínculo do atacante se encerra em 31 de dezembro). Pretende manter os outros 10? Como está a concorrência?
Laurival: Pelo que sei, o Coritiba já está negociando com o Ruy (meio-campista, cujo contrato se encerrou neste 5 de maio), mas temos interesse em segurar todos, se possível. Mas na Série D vai ser mais fácil traçar o planejamento, vamos sentar e definir nossas prioridades.
GE.Net: Então a diretoria tem planos de reforçar esse elenco?
Laurival: Sim, com certeza está nos nossos planos, mas ainda não tenho nenhum nome para revelar.
GE.Net: Qual é a sua opinião sobre a manifestação das duas torcidas no Couto Pereira, pedindo a saída do governador Beto Richa?
Laurival: Fazer o quê, né? Acho importante, o povo está no seu direito de protestar. O que aconteceu com os professores aqui no Paraná foi uma barbaridade, isso não pode acontecer de jeito nenhum. É bonito ver as duas torcidas se unindo.
GE.Net: Você declarou recentemente que já tinha pensado em desistir da gestão. O que te fez mudar de ideia?
Laurival: Olha, vou ser sincero... Já pensei, sim. Foram três anos e meio sozinho, sem apoio, tendo que fazer um pouco de tudo. Agora temos o grupo de empresários para ajudar. É muita responsabilidade, sabe? Eu ainda penso em me afastar por seis meses agora, talvez faça isso, para depois cumprir o mandato até o fim (final de 2016). Se isso acontecer, o meu vice, Paulo Roberto, deve assumir no período. Quando concorri à eleição, já escolhi um profissional capacitado como vice, já pensando nessa possibilidade.
GE.Net: Para finalizar, o objetivo para a sequência da temporada é o título da Série D, ou só o acesso pra Terceirona do Brasileirão já estaria de bom tamanho para ter um calendário fixo?
Laurival: O objetivo é o acesso, vamos dar um passo de cada vez. É claro que agora é difícil não sonhar com algo mais, mas antes vamos cumprir a meta de chegar à Série C e recompensar todos os que estão nos apoiando.
