Quem são os Kushner, aliados de Trump a quem a Fifa quer vender ações

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Foto por FRANCK FIFE / AFP

Dez dias após o fim da Copa do Mundo de 2026, a Fifa anunciou o plano de criação de uma nova empresa para atrair investidores externos e levantar até US$ 10 bilhões (cerca de R$ 51,4 bilhões) para financiar o desenvolvimento do futebol. Entre os grupos interessados está a Thrive Eternal, companhia fundada por Joshua Kushner. O empresário é irmão de Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

"A administração da Fifa está analisando a ideia de consolidar todos os direitos comerciais, abrangendo transmissão, patrocínio, venda de ingressos e licenciamento, juntamente com a execução operacional de seus torneios, por meio da criação da Fifa Forward Enterprise (FFE)", declarou a entidade máxima do futebol mundial.

"A Fifa convidará terceiros para realizar investimentos minoritários, sem poder de controle, nesta entidade", acrescentou o comunicado.

Segundo diversas reportagens, essa participação externa seria inicialmente de cerca de 20%.

A FFE concentraria os direitos comerciais da Fifa, incluindo receitas de transmissão, patrocínios, ingressos e licenciamento, além da operação de suas competições. A entidade afirma que manterá o controle da nova empresa por meio de maioria no conselho de administração, bem como a autoridade exclusiva sobre governança, regulamentos, calendário e competições.

Caso saia do papel, a Fifa Forward Enterprise deve gerar US$ 4,2 bilhões (R$ 21,6 bilhões) somente neste ano e, segundo a Fifa, "todos os lucros líquidos serão reinvestidos no futebol". A entidade também promete ampliar os recursos para suas associações-membro por meio de um novo mecanismo de financiamento, o Programa Fifa Fast Forward (FFFP).

Ao consolidar os programas de financiamento já existentes, a Fifa pretende acumular um fundo superior a US$ 10 bilhões (R$ 51,4 bilhões) ao longo dos próximos quatro anos para financiar o desenvolvimento do esporte.

Gianni Infantino, presidente da FIFA. (Foto por: FRANCK FIFE / AFP)

Gianni Infantino, presidente da FIFA. (Foto por: FRANCK FIFE / AFP)

Quem são os Kushner?

Para tirar o projeto do papel, a Fifa informou que trabalha com o banco JP Morgan e a Thrive Eternal, empresa criada por Joshua Kushner. Segundo a entidade, a Thrive Eternal liderará um consórcio internacional de possíveis investidores interessados em adquirir uma participação minoritária na nova estrutura, enquanto o J.P. Morgan atuará como assessor financeiro da operação.

Joshua Kushner fundou a Thrive Capital em 2009. A gestora se especializou em investimentos de tecnologia e ficou conhecida por apostar em empresas como Instagram, Stripe, OpenAI e Nubank ainda em fases de crescimento.

Seu irmão, Jared Kushner, ganhou notoriedade política ao atuar como conselheiro sênior de Donald Trump entre 2017 e 2021 - além de ser casado com Ivanka Trump, filha do presidente americano. Durante esse período, Jared vendeu sua participação na Thrive Capital para evitar potenciais conflitos de interesse.

Já a Thrive Eternal, lançada em 2026, foi criada com uma proposta diferente da Thrive Capital. Em vez de investir em startups, a empresa busca participações de longo prazo em ativos considerados duradouros, como franquias esportivas, marcas históricas e instituições de relevância cultural, como a Fifa. Um dos primeiros investimentos foi uma participação no San Francisco Giants, tradicional equipe da MLB, liga de beisebol.

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Empresa já ganha terreno na Fifa

A aproximação entre o grupo de Joshua Kushner e a Fifa não se limita ao novo projeto de investimentos.

Em maio de 2026, a entidade anunciou que a parceria histórica com a Panini será encerrada após a Copa do Mundo de 2030. A partir de 2031, os direitos de produção de figurinhas, álbuns e outros colecionáveis oficiais da Fifa passarão para a Topps, marca controlada pela Fanatics.

A mudança tem uma conexão indireta com a Thrive Capital: a gestora de Joshua Kushner é uma das investidoras da Fanatics, empresa que adquiriu a Topps e vem ampliando sua presença no mercado global de colecionáveis esportivos.

Assim, embora Donald Trump não tenha qualquer participação direta nesses negócios, a proximidade entre a Fifa e empresas ligadas ao ecossistema de Joshua Kushner ajudou a aumentar a atenção sobre o projeto, especialmente por causa da relação familiar entre Joshua e Jared Kushner, genro e ex-conselheiro do presidente americano. Ainda assim, Joshua tem um histórico político próprio e já manifestou posições contrárias a Trump em eleições anteriores.

Foto por ALEX BRANDON / POOL / AFP

Reação negativa na Europa

A proposta da Fifa encontrou forte resistência na Europa. A Uefa, que reúne as federações nacionais do continente e costuma adotar uma postura crítica em relação às decisões da entidade, foi uma das primeiras a se manifestar.

"A alma e a governança do futebol não são ativos passíveis de especulação, especialmente sem transparência sobre o destino dos lucros financeiros. Nenhum de nós é dono do futebol. Não cabe à Fifa vendê-lo", afirmou a entidade em comunicado.

As críticas também partiram de antigos dirigentes do futebol mundial. Sepp Blatter, presidente da Fifa entre 1998 e 2015 e antecessor de Gianni Infantino, declarou que a proximidade entre a cúpula da entidade e o governo dos Estados Unidos estaria levando o futebol a uma lógica financeira excessiva. "Ninguém tem o direito de vender o nosso esporte", escreveu em publicação nas redes sociais.

A proposta também gerou reações no meio político. Entre os críticos está Andy Burnham, primeiro-ministro do Reino Unido, que afirmou que "o futebol não pertence aos investidores", mas aos torcedores que acompanham seus clubes semanalmente. Em outra publicação, acrescentou que a Copa do Mundo "não é um produto", mas sim a principal competição do esporte mais popular do planeta.

"A Copa do Mundo", acrescentou ele no X, "não é um produto. É a maior competição do esporte mundial e nunca pertenceu a ninguém para ser vendida", insistiu.

Além da Uefa, a FA (Associação de Futebol da Inglaterra) também demonstrou forte preocupação com a iniciativa. A entidade afirmou que foi pega de surpresa pela proposta de criação da FIFA Forward Enterprise e pela busca por investidores privados.

"Estávamos completamente alheios a essa proposta e não temos detalhes substanciais sobre ela, incluindo qual é exatamente a proposta e quais condições estão associadas", declarou a federação.

A FA também questionou a forma como o projeto foi conduzido até agora. "Com base nas informações limitadas disponíveis, estamos profundamente preocupados com a falta de processo e governança que levou a este ponto, bem como com o aparente teor e os princípios envolvidos."

Por fim, a entidade afirmou que só adotará uma posição definitiva após receber mais informações da Fifa. "Quando a proposta for apresentada de forma completa e transparente, conforme agora prometido pela Fifa, deixaremos clara nossa posição e faremos novos comentários sobre o assunto."


*Com conteúdos da AFP

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