COPA DO MUNDO 2018 RÚSSIA

Para além do espetáculo, da emoção e do clima festivo, esta Copa do Mundo da Rússia também foi marcada por episódios negativos. Fora de campo, por exemplo, ficou evidente que a mulher ainda não possui seu devido espaço no universo do futebol. Como apontou a ONG Fare Network, parceira da Fifa, nesta quarta-feira, foram documentados 45 casos de assédio e sexismo a mulheres que chegaram ao torneio como torcedoras, jornalistas, e voltarão como vítimas.

“Tivemos notícia de 30 incidentes de sexismo, geralmente de mulheres russas sendo assediadas por estrangeiros. É um número subestimado. E também tivemos 15 casos de jornalistas mulheres assediadas por torcedores. Alguns desses casos tornaram-se notórios no mundo todo”, afirmou o presidente da instituição, Piara Powar, em coletiva de imprensa realizada para discussão de casos de discriminação ao longo deste Mundial.

Mulheres se tornaram alvos de atitudes machistas e desrespeitosas na Rússia (Foto: MANAN VATSYAYANA/AFP)

Dentre os casos mais famosos citados pelo presidente da Fare Network, estão o dos brasileiros que assediaram uma mulher russa com uma música machista, de alusão ao órgão genital feminino, e os episódios de torcedores tentando beijar repórteres enquanto estas trabalhavam, ao redor de estádios e em pontos de circulação de torcida.

Atitudes como essas são inaceitáveis e já deviam ter deixado de existir há anos. Em um esporte tão plural como é o futebol, todos merecem espaço, independentemente de raça, etnia, sexo ou gênero. Se, em 2018, os ocorridos mostraram que nem todos podem aproveitar uma Copa do Mundo sem que sejam alvos de desrespeito e discriminação, é sinal de que ainda há muita coisa para mudar. E que em 2022, no Qatar, o controle sobre os casos seja ainda maior.



Após a França derrotar a Bélgica e avançar para a final da Copa do Mundo, o irmão do zagueiro Marquinhos, Luan Aoás, utilizou as redes sociais para publicar uma mensagem bastante polêmica. Na postagem, o agente do defensor que representou a Seleção Brasileira durante o Mundial elogiou a equipe francesa e elogiou o trabalho de Didier Deschamps, aproveitando a oportunidade para supostamente alfinetar o trabalho de TIte na Seleção Brasileira.

“Allez les bleus! Só mulecada, sem nenhum jogador ‘experiente’ para encher o saco. Time joga solto… treinador (Deschamps) firme com suas escolhas, coerente de verdade. Pode até não ganhar a Copa, mas é o melhor time!”, publicou.

Irmão e agente de Marquinhos causa polêmica com publicação (Foto: Reprodução)

Na parte final da postagem, o irmão de Marquinhos parece dar outra alfinetada sobre o ambiente da equipe brasileira, citando as mulheres dos jogadores. “Não vejo nenhuma postagem de mulheres dos jogadores franceses falando m… e atrapalhando o time!”, completou.

Vale lembrar que Marquinhos fazia dupla de zaga com Miranda no começo da era Tite no comando da Seleção Brasileira. No entanto, já na fase final dos jogos das Eliminatórias, o defensor acabou perdendo espaço para o companheiro de Paris Saint-Germain, Thiago Silva. Durante a Copa do Mundo, Marquinhos esteve em campo por apenas 6 minutos contra o México.



Uma das figuras mais polêmicas desta Copa com o microfone na boca, o goleiro Thibaut Courtois deu mais uma prova de sua fama após a Bélgica ser derrotada pela França na última terça-feira. Questionado se a eliminação de sua seleção foi algo justo, o arqueiro de 26 anos deixou claro a sua insatisfação com a maneira que o resultado foi construído.

“É uma partida frustrante. A França não jogou nada, eles jogaram para se defender atrás da bola. Eles jogaram no contra-ataque, com Mbappé e Griezmann, que são muito rápidos. É direito deles. Eles jogaram muito embaixo, e nós sempre tivemos problemas com isso, eles fizeram isso muito bem”, avaliou.

Apesar de sua opinião ser forte, Courtois parece não ter tanta razão, já que os le Blues finalizaram 19 vezes durante os 90 minutos, contra apenas 9 dos belgas. Mesmo sendo apresentado a esses números, o goleiro do Chelsea parece não mudar o seu pensamento.

Courtois reclama de jogo francês e afirma que preferia ter perdido pro Brasil (Foto: GABRIEL BOUYS / AFP)

“Eu fiz algumas defesas, mas eles não tiveram grandes chances. Eles marcaram com um escanteio, é uma pena. Nós perdemos contra uma equipe que não é melhor que nós. Nós perdemos contra uma equipe que não jogou nada, que se defendeu. Contra o Uruguai, eles marcaram com uma falta e um erro do goleiro. É uma pena para o futebol que a Bélgica não tenha vencido”, afirmou o goleiro.

Para completar as polêmicas, Courtois relembrou a partida diante da Seleção Brasileira, quando a Bélgica acabou vencendo por 2 a 1, porém o arqueiro precisou trabalhar muito, já que a equipe de Tite finalizou 26 vezes a meta adversária.

‘Preferia ter perdido para o Brasil, uma equipe que se atreve a jogar futebol e que poderia ser melhor que nós’, completou o goleiro em suas críticas.



Quase uma semana após a Seleção Brasileira ser eliminada da Copa do Mundo da Rússia, já é hora de começar a projetar o próximo Mundial, em 2022, no Catar. Entre as jovens promessas do futebol nacional, há uma profusão de opções para o ataque, mas escassas alternativas de renovação para a defesa.

Alguns desses nomes garimpados pela Gazeta Esportiva já chegaram a ser observados pelo técnico Tite antes da sua convocação final para a Copa da Rússia. Havia quem quisesse que o atacante Vinícius Júnior, por exemplo, fosse chamado para ganhar experiência, tal qual ocorreu com Ronaldo no título de 1994 e Kaká na conquista de 2002.

Ficou para a próxima. Após se despedir do Flamengo, Vinícius Júnior chegará à maioridade na quinta-feira já como atleta do Real Madrid. No clube espanhol, ele terá a missão de fazer jus à badalação que o cerca desde as categorias de base para se confirmar como um dos principais nomes da Seleção Brasileira em 2022.

Já sem o astro português Cristiano Ronaldo, vendido à italiana Juventus, o Real Madrid aposta em mais um brasileiro para renovar o seu plantel no futuro. Trata-se do também atacante Rodrygo, que surgiu como mais nova joia do Santos e irá se juntar a Vinícius Júnior no clube merengue em julho de 2019.

Uma revelação que permanece no futebol brasileiro é um antigo companheiro de Vinícius Júnior. Versátil, o meio-campista Lucas Paquetá dificilmente não ganhará uma oportunidade durante a preparação da Seleção Brasileira para o Mundial do Catar. Cabe a ele continuar em alta no Flamengo.

Outro atacante oriundo do futebol carioca, por outro lado, já seguiu o exemplo de Vinícius Júnior e rumou à Europa. Paulinho completará 18 anos no domingo, dia da final da Copa do Mundo da Rússia, e passará a ser jogador do Bayer Leverkusen, clube alemão que o tirou do Vasco.

Há mais peças ofensivas entre aqueles que ainda resistem ao assédio europeu. Pedrinho, por exemplo, busca aprimorar o seu condicionamento físico para corresponder com as expectativas criadas por torcedores do Corinthians. Cedido ao Atlético-MG pelo Palmeiras, Roger Guedes é outro que apresenta idade (21 anos) e potencial para vingar. Luan é mais velho, com 25 anos, mas acumula elogios desde que conduziu o Grêmio à conquista da Copa Libertadores da América.

Alguns novos atacantes brasileiros já têm experiência europeia. São os casos de Malcom, do francês Bordeaux, Richarlison, do inglês Watford, e David Neres, do holandês Ajax, todos com possibilidades de transferência para clubes mais expressivos. O meia Anderson Talisca, por sua vez, esteve no radar de Tite para 2018, porém deixou o Besiktas, da Turquia, para lucrar no Guangzhou Evergrande, da China.

Já Gabriel, campeão olímpico em 2016, saiu da Europa por outro motivo. Após fracassar no Campeonato Italiano pela Internazionale, o jogador tenta resgatar o seu melhor futebol no Santos para voltar a ser visto como alguém com chances de defender o Brasil em uma Copa do Mundo.

O comando do ataque canarinho, setor que poderia ser ocupado por Gabigol, é uma posição crítica no mundo. E é por isso que Felipe Vizeu, vendido pelo Flamengo à italiana Udinese, alimenta esperanças de ser lembrado em futuras convocações. O posto na Copa do Mundo da Rússia pertenceu a outro novato, Gabriel Jesus, contestado por ter passado em branco e com esperanças de vingar daqui a quatro anos.

Os jovens volantes brasileiros também deverão ser aproveitados por Tite ou quem o suceder. Casemiro ainda é novo (26 anos) e, badalado, provavelmente estará no Catar. O mesmo não vale para Paulinho (29) e Fernandinho (33), que deixaram a Rússia com as suas imagens arranhadas por má atuações.

Sendo assim, atletas preteridos por Tite já cobiçam disputar espaço com Fred, que trocou o Shakhtar Donetsk pelo Manchester United em meio à preparação brasileira para o Mundial e foi mantido no elenco da Seleção mesmo após se lesionar. Os principais candidatos a despontar são Arthur, ex-gremista do Barcelona, Fabinho, do Liverpool, Maycon, do Shakhtar, Douglas Luiz, emprestado pelo Manchester City ao Girona, e Thiago Maia, ex-santista do Lille.

Para a defesa, o Brasil não dispõe de tantas promessas assim. As laterais da Seleção poderão passar por uma reformulação para a Copa do Catar, já que Daniel Alves está com 35 anos e Marcelo, com 30. Fagner (29) e Filipe Luís (32), utilizados na Rússia, não deverão ter fôlego para suprir as eventuais ausências dos titulares habituais dos últimos anos.

Danilo, que tem 26 anos e foi convocado para a Copa, é o herdeiro imediato da lateral direita. Atrás dele, surgem jogadores que ainda não são unanimidades, como Éder Militão, do São Paulo, e o campeão olímpico William, do Wolfsburg. Na esquerda, Guilherme Arana, do Sevilla, e Jorge, do Monaco, estão na mesma situação, competindo com o já maduro Alex Sandro, da Juventus.

A zaga é considerada ainda mais problemática para a Seleção Brasileira. Thiago Silva e Miranda, os mais recentes titulares de Tite, têm 33 anos e só deverão participar de uma eventual transição em suas posições nas próximas temporadas. Marquinhos, aos 24 e titular na maior parte das Eliminatórias, tem tudo para se firmar de vez.

O futuro parceiro de Marquinhos é uma incógnita. Um pouco mais experiente, Jemerson, revelado pelo Atlético-MG e hoje no Monaco, chegou a ser cotado para estar no Mundial da Rússia e vem facilmente à lembrança. Ao contrário de Igor Rabello, do Botafogo, ainda desconhecido por muitos torcedores, bem como outros colegas que buscarão chamar a atenção até 2022.

No gol, se Tite ou um sucessor seu assim desejar, não será necessário pensar tanto. Alisson está com 25 anos. Ederson, com 24. Os dois companheiros de Cássio na Rússia, portanto, poderão disputar titularidade para a Copa do Mundo seguinte.

Seja como for, a Seleção Brasileira precisará lapidar os seus talentos para também ter uma ótima geração no Catar, exatamente como se dizia da algoz Bélgica. Tite deverá ser o encarregado de escolher esses atletas, uma vez que a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) pretende renovar o contrato do treinador – conferindo-lhe, agora, maior gerência também nas categorias de base nacionais.



Luka Modric de um lado e Harry Kane do outro: Croácia e Inglaterra se enfrentam pela semifinal da Copa do Mundo nesta quarta-feira, às 15h (de Brasília) (Foto: Adrian Dennis e Franck Fife/AFP)

Em uma semifinal que tem tudo para ser marcada pelo equilíbrio, a Croácia desafia a Inglaterra nesta quarta-feira, às 15h (de Brasília), no Estadio Luzhnikí, em Moscou, pela Copa do Mundo da Rússia. Os ingleses, que não chegavam às semifinais desde o Mundial de 1990, quando acabaram na quarta posição, eliminaram a Suécia na fase anterior, ganhando por 2 a 0, e agora sonham em repetir o feito de 1966, única vez que deram a volta olímpica.

Em busca do primeiro título de sua história, a Croácia, que foi semifinalista apenas na edição de 1998, quando ficou em terceiro lugar, eliminou nas quartas de final deste ano a anfitriã Rússia, nos pênaltis, após empate por 2 a 2. Ciente da pressão histórica para chegar à final, o treinador da Inglaterra, Gareth Southgate, alertou para a qualidade dos croatas.

“Não vamos enfrentar um time qualquer. Trata-se de uma seleção que desbancou grandes forças para atingir este estágio e por isso mesmo vai exigir demais de nós. A Inglaterra, porém, vem crescendo muito na competição. Conseguimos atingir o nosso melhor estágio contra a Suécia e estamos nos cobrando para evoluirmos ainda mais. O importante é trabalharmos com muita qualidade e compromissados com a nossa maneira de jogar”, disse o técnico.

O desgaste físico é a preocupação do técnico da Croácia, Zlatko Dalic, que viu seu time eliminar Dinamarca, nas oitavas, e Rússia nas cobranças de penalidades, suportando, nas duas ocasiões, o cansaço por prorrogações de trinta minutos.

“Isso é sim um diferenciador a favor da Inglaterra, que chega mais tranquila porque só foi para os pênaltis contra a Colômbia nas oitavas, mas a Croácia está muito disposta a escrever um lindo capítulo em sua história e vamos em busca de gols”, observou Dalic.

O treinador croata aposta as fichas em um meio de campo de grande qualidade, liderado pelo destaque Luka Modric, do Real Madrid. Além dele, Dalic considera que a equipe é capaz de parar o maior artilheiro do adversário, que possui seis gols marcados. “Na fase de grupos conseguimos parar Lionel Messi e ganhamos da Argentina por três a zero. Portanto, mesmo respeitando demais Kane, podemos pará-lo”.

Sobre a escalação, a Inglaterra conta com força máxima. Já a Croácia tem problemas. O lateral-direito Sime Vrsaljko foi vetado pelo departamento médico por conta de uma lesão no joelho esquerdo. Assim, Tin Jedvaj assume o posto. Um dos destaques do time croata, o goleiro Danijel Subasic vai para o sacrifício, pois se recupera de estiramento muscular na coxa direita. Nem tiro de meta ele poderá cobrar para se preservar.

Pelo regulamento, caso esta semifinal termine empatada após o tempo regulamentar, acontecerá uma prorrogação de trinta minutos. Persistindo a igualdade no tempo extra, o finalista será conhecido nas cobranças de pênaltis.

FICHA TÉCNICA
CROÁCIA X INGLATERRA

Local: Estadio Luzhnikí, em Moscou (Rússia)
Data: 11 de julho de 2018 (quarta-feira)
Horário: 15h (de Brasília)
Árbitro: Cuneyt Cakir (Turquia)
Assistentes: Bahattin Duran (Turquia) e Tarik Ongun (Turquia)

CROÁCIA: Danijel Subasic, Tin Jedvaj, Dejan Lovren, Domagoj Vida e Ivan Strinic; Ivan Rakitic, Luka Modric, Ante Rebic e Ivan Perisic; Andrej Kramaric e Mario Mandzukic
Técnico: Zlatko Dalic

INGLATERRA: Jordan Pickford, Kyle Walker, John Stones e Harry Maguire; Kieram Trippier, Jesse Lingard, Jordan Henderson, Dele Alli e Ashley Young; Raheem Sterling e Harry Kane
Técnico: Gareth Southgate




Harry Kane e Luka Modric irão comandar suas seleções na busca do que parecia impensável há 23 dias: uma vaga na final da Copa do Mundo. Destaques de Inglaterra e Croácia, ambos representam seus povos como poucos em campo e, apesar de opostos nesta quarta-feira, têm trajetórias similares, que já se cruzaram e podem voltar a se encontrar.

Quando Harry Kane tinha apenas um ano, Modric já sofria com a guerra de sua recém-criada Croácia. Em meio a um sistema comunista em ruínas, seu país anunciou a independência da Iugoslávia em 1991, dando início ao sangrento conflito que seria encerrado apenas em 14 de dezembro de 1995, com um saldo de 20 mil mortos e mais de 400 mil desabrigados.

Uma das vítimas do conflito armado foi o avô de Luka, que junto com o pai do atleta, Stipe, pegou em armas para defender sua pátria. Refugiado em um hotel na cidade de Zadar, o pequeno Modric passou os anos seguintes sonhando com sua mudança de vida, enquanto seus pais tentavam lhe dar uma infância o mais próximo possível do normal.

E como a maioria dos jovens do planeta, mas de maneira pouco usual, Modric conheceu o futebol. Aos 11 anos, com o recente final da guerra, passou a jogar na equipe local de Zadar, para apenas em 2002, aos 17 anos, seguir para o Dínamo Zagreb, o maior clube do país, em transferência que apesar de importante futebolisticamente, segue rendendo dor de cabeça ao craque.

O diretor do Dinamo na época era Zvadro Mamic, empresário que caçava talentos e foi condenado pela Justiça por fazer atletas assinarem contratos fraudulentos, em que parte dos salários e valor de transferências futuras desses jogadores acabavam em seus bolsos. Assim, foi sentenciado a seis anos de cadeia por desviar R$ 68 milhões do clube e sonegar R$ 7,4 milhões em impostos. Ele, no entanto, evadiu para a Bósnia-Herzegovina e segue em liberdade.

Anos mais tarde, em 2017, Modric, que foi agenciado por Mamic quando atuou na Croácia, foi chamado a depor sobre o caso. De início, o atleta confirmou o esquema, mas depois, voltou atrás ao dizer que “não se lembrava”. Assim, o meia se tornou alvo de ofensas de parte dos croatas, em especial, os torcedores do Hadjuk Split, maior rival do Dinamo Zagreb.

Polêmicas à parte, foi em 2003, porém, que sua carreira decolou. Emprestado para o Zrinjski Mostar, da Bósnia-Herzegovina, outra nação recente, ele foi eleito o melhor jogador do Campeonato nacional aos 18 anos. “Eu joguei na Bósnia. Quem joga na Bósnia, joga em qualquer lugar”. Era um passo importante para o garoto que ainda retornaria a seu país para conquistar o povo que viu seu pai defender.

Enquanto isso, em Londres, Harry Kane, ainda com nove anos, apesar da situação social e familiar incomparável, também enfrentava suas dificuldades para ingressar no futebol. Nascido próximo ao estádio White Hart Lane, o jovem inglês, cujo pai nasceu na Irlanda, começou a jogar no Ridgeway Rovers, que lançou David Beckham ao Manchester United. Com apenas nove anos foi chamado para testes no rival Arsenal, mas foi dispensado também por ser considerado “gordinho”.

“Eu não consigo realmente lembrar o que senti no momento. Para ser honesto, eu não acho nem que eu realmente sabia o que isso significava. Eu era muito jovem. Mas eu lembro como o meu pai reagiu e como isso fez me sentir. Ele não me criticou. Ele não criticou o Arsenal. Ele não pareceu especialmente incomodado de modo algum. Ele apenas disse: ‘Não se preocupe, Harry. Nós iremos trabalhar mais duro e nós iremos continuar e iremos encontrou outro clube, certo?’”, contou ao Players Tribune.

O primeiro clube, no entanto, foi o time do bairro em Walthamstow. Lá, o garoto loiro foi descoberto por um olheiro e convidado para um teste no Watford, onde enfrentou o Tottenham, impressionou os Spurs e, aos 16 anos, recebeu o convite para finalmente treinar por sua equipe do coração. “Harry Kane, he’s one of our own (Harry Kane, ele é um de nós)”. A música cantada hoje em White Hart Lane sempre foi verdadeira, mas ainda estava longe de ser entoada em 2009.

Quase junto com Harry Kane, chegava ao Tottenham o ainda pouco conhecido Luka Modric, que havia retornado ao Dínamo Zagreb após sucesso na Bósnia. Franzino, o croata de 1,74m venceu o prêmio de melhor jogador dos Spurs logo na temporada 2010/11, em que os londrinos chegaram às quartas de finais da Liga dos Campeões, terminando a fase de grupos na primeira colocação da chave que tinha Internazionale e Milan.

Kane e Modric nunca jogaram juntos, mas dividiram vestiário no Tottenham durante algum tempo, enquanto o centroavante, já grandalhão, alternava entre seguidos empréstimos para Bristol Rovers, Milwall, Norwich e Leicester. O inglês rodava tanto, que mesmo tendo ficado no banco de reservas do Tottenham com apenas 16 anos, já começava a ter dúvidas sobre sua carreira.

“O pior momento foi provavelmente quando eu estava no Leicester City e não conseguia ver como conseguiria entrar no time. Eles ainda estavam na Championship [segunda divisão] na época e eu lembro de estar no meu apartamento e ter essa terrível percepção de ‘Se eu não consigo jogar no Leicester na Championship… Como eu poderia jogar pelos Spurs na Premier League?’”, contou ao Players Tribune.

Enquanto Kane se questionava, Modric deixava o Tottenham na temporada 2012/13 pela porta dos fundos. Já com a idolatria tão sonhada por Kane, o croata tentou forçar uma transferência de 40 milhões de libras para o rival Chelsea, não aceita pelos Spurs, que o negociaram com o Real Madrid.

“Meu único arrependimento foi não ter ganho um título pelo Tottenham. Queria ter ido embora de uma maneira melhor, espero que os fãs entendam um dia que segui meus sonhos”, disse à revista Four Four Two.

Para curar o que consideraram uma traição, nada melhor do que ver um torcedor em campo. Com a demissão do técnico português André Villas-Boas, substituído por Tim Sherwood, e a má fase da primeira e segunda opção para o ataque, Adebayor e Soldado, Harry Kane finalmente ganhou espaço no Tottenham.

Foram três gols nos primeiros três jogos como titular e o início da ascensão do centroavante que não apenas não seria mais contestado, como bateria recordes de Neymar, Henry, Messi e Cristiano Ronaldo como o atleta que precisou de menos jogos para alcançar a marca de 100 tentos.

Já consolidado no Tottenham e fortemente especulado no Real Madrid, Kane pode novamente dividir vestiários com Modric após a Copa do Mundo, que já os premiou com três troféus de melhor em campo para cada um. Antes, o filho de irlandês e o Iugoslavo de nascença tentarão levar suas nações, Inglaterra e Croácia, ao último passo pela glória máxima do futebol mundial.

Modric e Kane são os destaques de Croácia e Inglaterra (Foto: AFP)


A Bélgica, de Roberto Martínez, caiu para a França (Foto: Giuseppe Cacace/AFP)

Com a eliminação da Bélgica, que perdeu para a França, nesta terça-feira, em São Petersburgo, a Copa do Mundo seguirá sem conhecer um técnico “estrangeiro” campeão, uma vez que todos os treinadores que conquistaram o título nasceram no país que comandaram.

O espanhol Roberto Martínez, técnico da Bélgica, tentava se igualar ao inglês George Raynor e ao austríaco Ernst Happel, que levaram Suécia e Holanda, respectivamente, à final de um Mundial.

Em 1958, Raynor comandou a anfitriã Suécia na melhor campanha do país até hoje, levando a seleção para final, onde perdeu para o Brasil por 5 a 2, com dois gols de Pelé, um deles uma pintura histórica, na qual o garoto de 17 anos, à época, é lançado, domina a bola no peito, chapela o marcador e bate de prima para o fundo das redes.

Happel, por sua vez, dirigiu a Holanda no Mundial de 1978. Depois de sofrer na primeira fase, a equipe se encontrou na segunda e garantiu vaga na decisão, partida em que foi derrotada pela Argentina, de Mario Kempes, por 3 a 1, na prorrogação.

O cumprimento de Deschamps e Martínez (Foto: Adrian Dennis/AFP)

Se Roberto Martínez perdeu a chance de igualar feitos marcantes, Didier Deschamps, treinador da França, pode entrar para história. Se vencer a Copa do Mundo da Rússia, o comandante francês se juntará ao brasileiro Zagallo e ao alemão Franz Beckenbauer, únicos a conquistar o torneio como jogador e técnico.



Com um gol marcado por Samuel Umtiti, a França venceu a Bélgica pelo placar mínimo durante a tarde desta terça-feira e garantiu presença na final da Copa do Mundo da Rússia. Protagonista da jogada que decidiu a partida disputada em São Petersburgo, o defensor preferiu dividir os méritos com seus companheiros.

Após um primeiro tempo sem gols, a França finalmente inaugurou o marcador logo no começo da etapa complementar. Griezmann cobrou escanteio pela direita e Samuel Umtiti se antecipou ao gigante Fellaini para cabecear na primeira trave e superar o goleiro Courtois.

“Os de 1998 fizeram seu trabalho e nós estamos escrevendo nossa própria história”, disse Umtiti, citando o único Mundial da França. “Eu marquei o gol, mas trabalhamos todos juntos. Fizemos o necessário para chegar na final e estamos esperando por ela”, completou.

Responsável pela assistência para o gol de cabeça marcado por Umtiti, Antoine Griezmann também celebrou a classificação à final da Copa do Mundo da Rússia. O atacante do Atlético de Madrid foi bem-humorado ao comentar a sonhada vaga na decisão.

“Eu sou mais acostumado a sofrer do que meus companheiros, então não foi para tanto. Estamos muito felizes e, agora, é desfrutar e descansar, que a final é em cinco dias. Não cheiramos a título, só a perfume. Temos que manter os pés no chão, porque a decisão será duríssima”, declarou.

A final da Copa do Mundo da Rússia está marcada para as 12 horas (de Brasília) deste domingo, no Estádio Luzhniki. Algoz do Brasil na edição de 1998 do torneio, a França acabou derrotada pela Itália em 2006, última vez em que participou da briga pelo título.



Classificada à decisão da Copa do Mundo da Rússia, a França apenas aguarda pelo vencedor do confronto entre Croácia e Inglaterra para decidir o título. Aos 49 anos, o técnico Didier Deschamps tem a chance de repetir um feito logrado por apenas dois homens na história do torneio.

Mario Jorge Lobo Zagallo (campeão como atleta em 1958 e 1962 e como técnico em 1970) e Franz Beckenbauer (campeão como atleta em 1974 e como técnico em 1990) são os únicos a ganhar nas duas funções. Com a chance de igualar os veteranos, Deschamps, capitão em 1998, exaltou seus pupilos após a classificação.

“Isso é excepcional. Estou muito contente com meus jogadores. Sinto muita felicidade, muito orgulho. Esse grupo está junto há 49 dias. Eles passaram muitas coisas difíceis, mas já estamos na final. É mérito de todos”, declarou o ex-companheiro de Zinedine Zidane.

Na Rússia, Deschamps dirige uma equipe essencialmente jovem, com titulares como Benjamin Pavard (22 anos), Samuel Umtiti (24 anos), Kylian Mbappe (19 anos) e Lucas Hernandez (22 anos). Experiente, o antigo capitão tratou de valorizar o potencial do elenco.

“O progresso deles é enorme. Esses jogadores vão estar ainda mais fortes em um período de dois ou quatro anos, mas hoje já são competitivos. Estou muito orgulhoso deles. Com essa mentalidade, podemos escalar montanhas e isso que temos feito até agora”, afirmou.

A decisão da Copa do Mundo da Rússia está marcada para as 12 horas (de Brasília) deste domingo, no Estádio Luzhniki. Algoz do Brasil na edição de 1998 do torneio, a França acabou derrotada pela Itália em 2006, última vez em que participou da briga pelo título.