Doze anos após episódio de racismo que marcou sua carreira, Aranha leva debate a adolescentes

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Foto: Colégio Marista Arquidiocesano

Por Victor Figueiredo

Doze anos após ser vítima de um dos casos de racismo de maior repercussão do futebol brasileiro, o ex-goleiro Aranha participou, na última quarta-feira (16), de uma palestra para adolescentes de uma escola na zona sul de São Paulo.

O encontro integrou um ciclo de atividades promovido pelo Colégio Marista Arquidiocesano. Com o tema Racismo no Esporte: o jogo só muda quando todos entram em campo, a atividade reuniu alunos do 7º ano do Ensino Fundamental à 3ª série do Ensino Médio para discutir o combate ao preconceito e o papel de quem presencia situações discriminatórias.

Diante de uma plateia formada por jovens entre 12 e 18 anos, Aranha transformou o auditório em uma grande conversa. Ao longo da palestra, o ex-goleiro misturou histórias pessoais, reflexões sobre racismo e referências do universo adolescente. Em meio aos relatos, citou o influenciador Felca e recorreu a expressões populares entre os jovens, como "aura" e "six seven", arrancando risadas da plateia e aproximando um tema pesado do cotidiano dos estudantes.

A escolha foi proposital. Em entrevista exclusiva à Gazeta Esportiva antes do encontro, Aranha explicou que procura adaptar a linguagem para despertar o interesse dos jovens pelo tema.

"Eu não venho aqui ensinar sobre racismo ou dar letramento racial. Eu venho sensibilizar os alunos para que eles se interessem pelo assunto e entendam o quanto isso faz mal", explicou.

Ao longo do encontro, o ex-arqueiro também respondeu a perguntas de estudantes que sequer eram nascidos quando ocorreu o episódio de racismo que o tornou conhecido nacionalmente, em 2014.

Durante a conversa com os alunos, Aranha ressaltou que o caso ocorrido durante a partida entre Santos e Grêmio, pela Copa do Brasil, foi apenas o episódio mais conhecido de uma realidade que o acompanha desde criança.

"Apesar de o episódio do Grêmio ter ficado muito famoso e a galera achar que foi só aquilo que aconteceu comigo, está enganado. É a minha vida inteira. É de quando eu nasci até os dias de hoje", afirmou.

Foto: Victor Figueiredo/Gazeta Press

O futebol como transformação

Aos alunos, o ex-goleiro relembrou um episódio marcante da infância e explicou como o futebol teve papel fundamental em sua formação pessoal.

Aranha contou que, aos 11 anos, era apaixonado por uma colega de escola. Segundo ele, durante uma brincadeira de pega-pega no recreio, passou o intervalo inteiro tentando tocá-la. Quando finalmente conseguiu, ouviu uma frase que mudaria sua vida.

"Quando eu consegui tocar nela, ela falou: 'Não toca em mim, você é preto'."

O ex-goleiro afirmou que o episódio abalou profundamente sua autoestima e o levou a um período de isolamento e dificuldades na escola.

"Eu entrei num buraco tão profundo, tão escuro, que não conseguia mais cumprimentar as pessoas, abraçar ninguém ou conversar olhando nos olhos. Eu estava numa escuridão total", relembrou.

A mudança começou durante a disputa de um campeonato interclasses. Segundo Aranha, o reconhecimento recebido dentro de campo fez com que ele recuperasse a confiança e passasse a enxergar o futebol de outra forma.

"Quando eu jogava bola, as pessoas me abraçavam, me elogiavam e me davam carinho. Aí eu pensei: 'Quando eu jogo futebol, eu sou querido. As pessoas gostam de mim'."

Com o tempo, aquela sensação acabou virando motivação para seguir carreira. "O futebol foi a minha maior descarga. O futebol me salvou. O futebol me tirou daquele buraco em que eu entrei por causa de uma frase. Uma frase poderia ter acabado com a minha vida de vez", completou.

A lição dos caranguejos

Em uma das perguntas feitas pelos estudantes, Aranha foi questionado sobre como conseguiu superar episódios de preconceito ao longo da vida.

Na resposta, o ex-jogador destacou a importância da família e das amizades e utilizou a analogia dos "caranguejos no balde", que impedem uns aos outros de escapar.

"Eu dou o exemplo do caranguejo no balde. Quando um está fugindo, o outro vai lá e puxa ele de volta. Assim é a amizade. Se você não se cerca de bons amigos, você vai querer ir para um lugar melhor, mas aquela amizade vai te puxar para o mesmo lugar."

Segundo Aranha, foi justamente o apoio das pessoas próximas que o ajudou a atravessar os momentos mais difíceis da vida. "O que me ajudou foi ter pessoas legais ao meu lado e minha família. Quando a gente se cerca de boas pessoas, tem mais chance de superar os problemas."

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Palavra e intenção

Antes da palestra, Aranha também refletiu sobre o impacto das expressões racistas e sobre como determinadas atitudes, muitas vezes tratadas como brincadeiras, podem deixar marcas profundas.

Usando como exemplo o termo "macaco", historicamente empregado para ofender pessoas negras, o ex-goleiro destacou que a gravidade está menos na palavra e mais na intenção de quem a utiliza.

"As pessoas não têm noção do peso das palavras. O problema não é a palavra em si. O problema é a intenção com que ela é usada. Você pode ferir alguém profundamente sem dizer um único palavrão", refletiu.

O ex-jogador ainda alertou os estudantes sobre as consequências que atitudes discriminatórias podem trazer para o futuro.

"Quem não entender e não se adaptar vai pagar um preço caro. Você passa a vida inteira estudando e, por causa de uma atitude preconceituosa, pode jogar tudo isso fora."

Aranha vê evolução no debate

Após a palestra, Aranha conversou com exclusividade com a Gazeta Esportiva e avaliou os avanços observados desde o episódio de racismo sofrido há 12 anos.

Para o ex-goleiro, o caso ocorrido em 2014 ajudou a transformar o tema em uma pauta permanente dentro do futebol brasileiro.

"Depois do episódio de 2014, que teve repercussão mundial, o país todo foi obrigado em algum momento a falar sobre esse assunto. Todos os veículos de comunicação do Brasil tiveram que falar sobre esse assunto, coisa que não acontecia."

Apesar disso, ele acredita que ainda existe resistência para discutir o tema, inclusive dentro do próprio ambiente do futebol.

"Para alguns, a ignorância é uma benção. No Brasil, por muito tempo foi assim. Se eu não falo sobre um problema, ele deixa de existir."

Segundo Aranha, o desinteresse de muitos atletas em discutir racismo foi algo que o decepcionou ao longo da carreira.

"Os jogadores não têm interesse. É um assunto que eles não vão desenvolver, não vão estudar ou procurar saber até que os afete diretamente."

Na avaliação do ex-goleiro, os avanços mais importantes aconteceram porque mais pessoas passaram a denunciar e debater situações antes tratadas com normalidade.

"Muitas pessoas se identificaram e se fortaleceram, criaram coragem para conversar, debater, tentar resolver, tentar melhorar e ajudar."

Para Aranha, enfrentar o racismo passa necessariamente pelo diálogo e pela disposição de encarar um problema que durante muito tempo foi ignorado pela sociedade.

"Não tem como resolver um problema sem falar sobre ele."

(Foto: Divulgação/SFC)

A referência que o Brasil procura

Outro tema abordado durante a entrevista foi o papel de Vinicius Júnior no combate ao racismo. Para Aranha, o atacante do Real Madrid pode ocupar um espaço que historicamente tem faltado ao país.

"O Brasil é carente de novos heróis, de novos ídolos. Na questão racial, você pega a África, os Estados Unidos e outros países, eles têm as suas referências. O Brasil não tem", criticou.

Ao analisar o cenário brasileiro, o ex-goleiro lembrou que figuras históricas como Pelé exerceram influência no combate ao preconceito, ainda que de maneira diferente das lideranças atuais.

"O Pelé não foi, porque agia de uma maneira indireta. A luta do Pelé contra o racismo era com a sua presença, era chegar o mais alto possível. O rei do futebol era negro", lembrou o ex-goleiro.

Na sequência, apontou Vini Jr. como um possível símbolo de uma nova geração. "O Vinicius Jr. pode se transformar nessa referência que o Brasil precisa", afirma.

Aranha, porém, acredita que essa construção dependerá dos próximos passos do atacante fora de campo. "Daqui para frente, o posicionamento dele, a maneira como vai se comportar nas entrevistas e o que vai falar podem transformá-lo nessa referência que o Brasil precisa."

Do gramado para os livros

Longe dos gramados desde 2018, Aranha atualmente divide a rotina entre palestras, debates e a divulgação de livros sobre a história da população negra no Brasil.

Durante a conversa com a Gazeta Esportiva, o ex-goleiro explicou que seu trabalho de conscientização não começou após o episódio de racismo sofrido na Arena do Grêmio. Segundo ele, palestras em escolas, universidades, empresas e instituições sociais já faziam parte de sua rotina muitos anos antes de o caso ganhar repercussão nacional.

"Nunca me imaginei escrevendo um livro. Quando aconteceu o episódio do Grêmio, tudo o que eu já fazia ganhou uma projeção maior. Mas eu já dava palestras em colégios, universidades, empresas e até em casas de menores infratores desde 2004."

Segundo Aranha, a ideia de publicar livros surgiu da percepção de que muitos brasileiros desconhecem a própria história. Foi dessa inquietação que nasceram Brasil Tumbeiro, lançado em 2021, e Patrocínio, publicado em 2022. As obras reúnem personagens, acontecimentos e reflexões sobre a história da população negra no país.

"As pessoas não conhecem a história do Brasil. Eu costumo dizer que o Brasil passou por um 'Photoshop histórico'. O que não conseguiram esconder, maquiaram", compara.

Foto: Victor Figueiredo/Gazeta Press

"Em vez de eu ficar explicando as mesmas coisas em entrevistas, resolvi fazer um livro com um mínimo, um básico que todo brasileiro deveria saber da história negra e dos personagens negros da história do Brasil."

Quem é Aranha

Mário Lúcio Duarte Costa, o Aranha, atuou profissionalmente entre 2000 e 2018 por clubes como Ponte Preta, Atlético-MG, Santos, Palmeiras e Avaí. Em 2014, foi reconhecido pelo Ministério dos Direitos Humanos por sua atuação no enfrentamento ao racismo após denunciar as ofensas sofridas durante a partida contra o Grêmio. Atualmente, além das palestras e da produção literária, também integra um grupo da CBF voltado ao combate ao racismo e à violência no futebol.

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