Rosângela Santos alinhou na tarde desta quinta-feira na raia 6, com o número de peito 1091. Diante do bloco de partida, enxugou as lágrimas e correu seus últimos 100 metros no Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro (CTPB), em São Paulo. A medalhista olímpica do revezamento 4x100 metros e recordista brasileira e sul-americana dos 100 metros despediu-se das pistas no primeiro dia do 44º Troféu Brasil Interclubes de Atletismo.
A agora ex-velocista não conteve a emoção, apesar de dizer que o fim da carreira como atleta não precisa ser necessariamente triste. Aos 34 anos, Rosângela está em plena atividade no mundo esportivo: é gerente esportiva na Secretaria Municipal do Rio de Janeiro, onde vive, e comentarista das transmissões de atletismo no SporTV. Além disso, está cursando o segundo semestre da graduação em jornalismo, aproveitando os ensinamentos recebidos no curso de transição de carreira do Comitê Olímpico do Brasil (COB). Também faz parte do programa Ídolos do Atletismo, da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt).
"Eu estava me preparando para parar desde 2020. Conversei muito com a minha psicóloga e ela disse que o processo não precisava ser doloroso, que eu poderia ir aos poucos, ir destreinando. E foi exatamente o que eu fiz ao longo desse tempo: fui destreinando", explicou. "E aí eu tive oportunidades de trabalho, estou na faculdade, então não dava mais para treinar. Eu sempre fui muito competitiva e eu não ia entrar em competição para perder."
Rosângela tinha, no entanto, o desejo de correr pela última vez. "Eu quis fechar esse ciclo correndo. Agradeço muito à CBAt, que abraçou a ideia e fizeram uma despedida muito além do que eu esperava. Eu estou muito feliz."
Após a prova, Rosângela foi homenageada com uma medalha com a imagem da lendária Aída dos Santos.
Ver essa foto no Instagram
Carreira de Rosângela Santos
Rosângela Santos nasceu em Washington, nos Estados Unidos, em 1990, mas veio ao Brasil ainda bebê para tratar uma pneumonia e acabou sendo criada aqui. Cresceu em Padre Miguel, na zona oeste do Rio de Janeiro, sob os cuidados da tia Graça, ao lado dos primos. Seu avô foi um dos fundadores da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel. Na infância, foi descoberta por um professor de educação física, que identificou seu talento para o atletismo. Aos 9 anos, começou a treinar velocidade na Vila Olímpica de Padre Miguel, sob a orientação da treinadora Edileuzimar Medeiros.
Além de atleta, Rosângela também atua como gerente esportiva, sendo responsável por 28 vilas olímpicas municipais do Rio. Seu trabalho inclui palestras, clínicas com crianças e a coordenação do projeto Time Rio, que reúne 60 atletas olímpicos e paralímpicos. Ela reforça a importância da inclusão e da formação esportiva de base, refletindo sua própria trajetória iniciada em uma dessas vilas. Sua atuação fora das pistas é marcada pelo compromisso com a formação de novos talentos e a democratização do esporte.
Rosângela começou a se destacar internacionalmente aos 16 anos, quando conquistou a prata nos 100 metros do Mundial sub-18 de Ostrava, em 2007. No ano seguinte, integrou a equipe brasileira de revezamento 4x100 m na Olimpíada de Pequim, conquistando o bronze após a desclassificação da Rússia. Desde então, acumulou outras conquistas nas categorias de base e na elite do atletismo, como a medalha de bronze no Mundial sub-20 e recordes importantes no revezamento 4x100 m.
Em sua carreira, Rosângela quebrou barreiras e recordes. Em 2017, tornou-se a mulher mais rápida do Brasil e da América do Sul ao correr os 100 metros em 10.91 segundos. Foi finalista olímpica em Londres-2012 e disputou várias finais de Mundiais. No Pan, conquistou três ouros e venceu os 100 metros do Troféu Brasil seis vezes. Em 2025, foi homenageada com o Prêmio Melânia Luz, reconhecimento a mulheres negras que marcaram o esporte brasileiro, consolidando seu legado dentro e fora das pistas.