No comando do Santos, Marcelo Fernandes tem 13 vitórias, sete empates e nove derrotas (foto: Ricardo Saibun)
Mais uma vez o Palmeiras está no caminho do Santos nesta temporada de 2015. Prestes a disputar a grande decisão da Copa do Brasil em seu estádio, às 22 horas desta quarta-feira, em São Paulo, o alviverde tentará vingar a derrota nas finais do Campeonato Paulista. Desde o início do ano, os dois rivais têm se cruzado em batalhas apimentadas, repleta de polêmicas, desavenças, vitórias e derrotas para ambos os lados. Mas, reviver o clássico em uma nova decisão é mais especial para uma pessoa: Marcelo Fernandes.
De volta a função de auxiliar técnico, foi contra o Verdão que Fernandes viveu seus maiores momentos no Santos, ainda como técnico. “O Palmeiras só me traz boas lembranças”, admite ex-zagueiro, nascido e criado na Baixada Santista.
Uma vitória por 2 a 1 em cima do adversário desta quarta, na nona rodada do Estadual, fez com que Marcelo Fernandes fosse efetivado no comando do Peixe. Após isso, ele conduziu a equipe até as finais, quando acabou conquistando o inesquecível título, logo em seu primeiro trabalho como treinador, justamente em cima do time de Palestra Itália.
“A final pra mim foi realmente inesquecível, dentro de Vila Belmiro, do jeito que estava. Uma sensação única você comandar um clube de tantos milhões de torcedores. Para mim, foi uma experiência inesquecível, que eu adorei e com certeza quero passar mais”, lembra Fernandes, dono de um retrospecto de 13 vitórias, sete empates e nove derrotas a frente do Peixe, equipe que comandou da 8ª rodada do Paulista até a 12ª do Campeonato Brasileiro.
E esse gosto de quero mais está mais vivo do que nunca. Diante da oportunidade de “fechar o ano com chave de ouro”, caso o alvinegro praiano conquiste a Copa do Brasil, Marcelo Fernandes prefere ser honesto e, apesar de agradecer todo o respaldo da diretoria, que o manteve no clube mesmo após a contratação de Dorival Júnior, confessa que segue com a intenção de se consolidar na carreira como técnico. Além disso, revela propostas e não garante sua permanência no Peixe em 2016.
“Eu não vou ser hipócrita de dizer que não quero ser treinador, por tudo que eu conquistei. Muito pelo contrário. Eu sou campeão Paulista em cima de uma grande equipe e isso tem um peso, sim. E é como falei para você. Eu gostei. Quero mais, sim”, crava.
Com exclusividade à Gazeta Esportiva, Marcelo Fernandes conta detalhes sobre sua relação com Dorival Júnior, garante que os jogadores do Santos estão preparados para fugir da “pilha” palmeirense "no jogo do ano" e analisa as diferenças do adversário desta quarta para àquele que sucumbiu na Vila Belmiro, pela final do Paulista.
Ao lado de Serginho Chulapa, Marecelo Fernandes assumiu o time após a saída de Enderson Moreira (Foto: Ivan Storti)
Gazeta Esportiva - Você foi um dos protagonista nos dois clássicos das finais do Paulista. O que você pode passar em um momento decisivo desse, de novo contra o Palmeiras?
Marcelo Fernandes -Acho que não só na final, mas no dia a dia é importante também. A chegada do Dorival em um momento que nós passávamos dificuldade foi legal. A gente sentou e procurei passar tudo aquilo que eu conheço do grupo, ele mesmo falou que foi fundamental para essa ascensão da equipe. A gente não tinha dúvida que isso iria acontecer pelo que eles trabalham. O Palmeiras é um adversário do ano. Tivemos vários jogos com eles, uma decisão. Mas, o mais importante disso tudo é encararmos o adversário como ele é, como ele merece ser respeitado, e é o que esse elenco sabe fazer bastante. Acho que o Santos conquista as coisas pela sua humildade, o jeito de encarar as coisas. Mas somos sabedores que temos uma grande chance de conquistar o campeonato.
Gazeta Esportiva -Quais as grandes diferenças que você enxerga entre aquele Palmeiras do Paulista e o de hoje, que faz a decisão da Copa do Brasil?
O título Paulista veio logo no primeiro trabalho de Marcelo Fernandes como técnico (Foto: Ricardo Saibun)
MF -O Marcelo (Oliveira) deu uma arrancada boa quando chegou, né? Arrumou mais a equipe, fez uma equipe mais coesa, estão trabalhando mais em bloco e são jogos dificílimos. A atmosfera também é outra, por já terem perdido jogos contra a gente, eles encaram isso como a única chance de ir à Libertadores, como nós. O importante é saber que temos só essa bala no revólver. É um clássico e será resolvido nos detalhes.
Gazeta Esportiva -Os confrontos contra o Palmeiras marcaram o teu nome no Santos. Que momento você destaca como uma lembrança inesquecível?
MF -O Palmeiras me traz lembranças boas. Na hora que eu fui efetivado, foi depois de um clássico na Vila, no meio do campeonato (Paulista), que ganhamos de 2 a 1. É um adversário dificílimo, mas que só me traz lembranças boas. A mais legal delas é desse grupo maravilhoso, de tudo que ele fez por mim, a torcida, a própria diretoria. Sabe, ser campeão com essa camisa é uma coisa inesquecível, como fala até no hino: “nem todos podem ter”. Para mim, foi fundamental. Foi uma arrancada muito grande na minha carreira. Estou muito feliz no Santos, muito feliz com a chegada do Dorival. É mais um com quem estou aprendendo, é mais um que está me dando uma experiência legal. É fazer o trabalho, nunca querer atropelar ninguém, fazer tudo com dignidade, que tudo vai se encaixar.
A final pra mim foi realmente inesquecível, dentro de Vila Belmiro, do jeito que estava. Uma sensação única você comandar um clube de tantos milhões de torcedores. Para mim, foi uma experiência inesquecível, que eu adorei e com certeza quero passar mais.
Gazeta Esportiva -O Santos de hoje impõe mais respeito do que no começo do ano?
MF -Não. Acho que hoje eles tratam o Santos diferente, de fora para dentro, com certeza. No começo, ninguém acreditava. Diziam que ia cair e não sei o quê, todo mundo indo embora e salário atrasado. Com certeza hoje a atmosfera é diferente. Por que que é diferente? Pelo que os jogadores fizeram dentro do campo. O título Paulista foi um, o Brasileiro e a Copa do Brasil têm demostrado. Hoje o Santos é visto diferente, mas não que naquela época não merecia. Eu até dei uma entrevista naquela época em que eu disse que um time que vem de nove finais de Paulistas nos últimos dez anos não pode ser tratado como azarão em lugar nenhum do mundo. O Santos fez por merecer e os jogadores são o diferencial.
Na primeira final do Estadual, no Allianz Parque, Marcelo Fernandes foi expulso no intervalo (Foto: Ivan Storti)
Gazeta Esportiva -Com as divergências entre Ricardo Oliveira e Fernando Prass e a rivalidade acirrada nesta temporada, o clássico tem sido muito brigado. O Santos está preparado para um Palmeiras pilhado nesta final e Copa do Brasil?
MF -Nós não estamos preparados para “pilha”. Nós estamos preparados para enfrentar o Palmeiras, que é uma excelente equipe, que está em uma final de Copa do Brasil e nada é mais pesado ou tenso do que isso. O peso é a equipe do Palmeiras, que é uma equipe de tradição, como o Santos também é. Estão mordidos na questão de perder um título para a gente, por tudo que vem acontecendo, mas essa questão de Ricardo Oliveira e Prass não tem nada a ver, só jogadores hiper-experientes e não têm que passar isso para os elencos. Agora, o Palmeiras usa as armas que tem. Não sei se eles estão usando isso, querendo se motivar dessa maneira. O Santos não. O Santos procura trabalhar e jogar. O Santos está pronto para, se Deus quiser, conquistar seu objetivo.
Gazeta Esportiva -Terminar o ano com o título da Copa do Brasil depois de conquistar o Paulista é para fechar a sua temporada com chave de ouro?
MF -Não só para mim, mas para o Santos, para essa diretoria, para os jogadores que estavam desacreditados. Acho que é um ano realmente muito importante, que está no final agora, para a gente fechar com chave de ouro, por tudo que a gente passou. Eu mesmo, hoje como auxiliar, o Dorival me dá liberdade e eu procuro conversar com eles até na frente do Dorival e falar o quanto nós penamos aqui, tudo que a gente passou. Só nós sabemos o quanto foi difícil reverter esse quadro. E é o seguinte, cara. Para chegar lá em cima é difícil, mas para perder esse espaço você sabe que é uma queda que não tem retorno. O importante disso tudo é que os jogadores são sabedores disso. São jogadores que não têm qualquer tipo de vaidade, não se vangloriam de estar em final de Copa do Brasil, de serem campeões Paulistas, muito pelo contrário. Cada dia a gente mata um leão aqui, porque o Santos é grande e equipe grande vive de resultado.
Talvez a maior virtude de Marcelo Fernandes no Santos seja ter o respeito de todos os atletas (Foto: Ivan Storti)
Gazeta Esportiva -Essa alavancada na sua carreira te faz planejar um 2016 diferente, talvez como treinador em outra equipe, ou você prefere seguir como auxiliar no Santos?
MF -Olha só. Muita gente me pergunta isso. Desde que eu estou no futebol, quando entrei nessa função, que o Muricy (Ramalho) me colocou, logicamente é pensando em ser treinador. Eu quero aprender bastante, quero ser treinador e as coisas aconteceram na minha carreira, na minha vida e, graças a Deus, por tudo que eu vinha fazendo direito, sem passar por cima de ninguém, me ajudou bastante para que nesse Paulista a gente conquistasse o título. Agora, tenho que dizer também que quando tudo isso aconteceu, a diretoria me chamou para uma conversa e foi bem sincera e bem honesta comigo, entendeu? Eles estavam muito preocupados comigo. Não queriam me perder na questão de auxiliar, pois eu estava fazendo um grande trabalho no Santos e eles foram honestos comigo. Até porque se eu tivesse tomado três porradas, eu tinha voltado para auxiliar e amanhã ninguém mais ia pensar em mim como treinador. E como eu falo. Eu não vou ser hipócrita de dizer que não quero ser treinador, por tudo que eu conquistei. Muito pelo contrário. Eu sou campeão Paulista em cima de uma grande equipe e isso tem um peso, sim. E é como falei para você. Eu gostei. Quero mais, sim. Mas hoje estamos fazendo o que a diretoria concordou comigo. E o futuro a Deus pertence. Eu estou ai para o que der e vier, foi uma experiência que eu gostei, mas também estou muito feliz no Santos, fazendo meu trabalho e a gente tem que saber que as coisas, quando tem que acontecer, acontecem na hora certa.
Gazeta Esportiva -Algum clube já te procurou?
MF -Procurou, sim. Algumas equipes andaram sondando. Muitas equipes que aconteceram algumas situações no Brasileiro, Série B também. A gente tem que ter calma nessa hora. Não adianta a gente achar que é o melhor do mundo, muito pelo contrário. Eu sou bem pés no chão. O importante foi esse trabalho aqui, em conjunto com todo mundo, com o Dorival que chegou, e não é diferente dos outros que eu peguei por aqui.
A chegada de Dorival Jr causou certo um desconforto por Marcelo Fernandes seguir na comissão técnica (Foto: Ricardo Saibun)
Gazeta Esportiva -O Dorival revelou à Gazeta Esportiva que não sabia como agir com você logo que ele assumiu o time e que te chamou para uma conversa em particular. Também foi muito desconfortável para você? Como foi essa conversa?
MF -É assim. Aquele começo de Brasileiro, que a gente perdeu muitos jogadores, eu tive muito problema com isso, tive que colocar a molecada, não teve jeito. A gente estava fazendo jogos bons, entendeu? E a bola não estava entrando, as coisas não estavam acontecendo. E a gente sabe como é o futebol. É como seu sempre digo: o futebol não vai mudar por minha causa. Mas uma coisa que eu acho legal é o que os jogadores, outro dia, lembraram no meio da roda ali. Teve aquele jogo contra o Goiás, que nós levamos 4 a 1, naquele segundo tempo horrível, e o próprio Ricardo (Oliveira) falou: ‘Pô, Marcelo. Você falava para a gente não ter dúvida de nada e nunca perder o foco, porque a gente ia estar lá em cima. E olha onde a gente está agora’. Então, isso é um momento único. Eu tinha certeza que isso ia acontecer.
Nessa hora que você comentou, o Dorival me chamou e disse ‘preciso falar contigo. Nunca passei por isso, estou vendo você carregar trave, levar colete...’. E uma coisa nesse momento que foi fundamental para mim foi não ter me empolgado com nada. Isso eu aprendi com o Muricy e com o Tata (auxiliar do Muricy). É não ser nem mui mui nem tam tam. Não adianta você achar que é o melhor do mundo, mas também não adianta você achar que está lá embaixo acabado. Então, isso me ajudou muito. E eu não tenho qualquer tipo de vaidade, cara. Dorival é um cara sensacional, um cara que estava preocupado comigo, falou que eu tinha que estar mais junto, que eu tinha que estar junto com ele nas viagens. Pô, está sendo show de bola nas viagens. No intervalo de jogo, antes de jogo, ele pergunta, a gente conversa. Logicamente, a decisão é dele. É aquilo que eu falo: ‘Dorival, falamos o que tinha que falar. Agora, tu vai na tua intuição. É teu momento, vamos embora’.
E, graças a Deus, está dando tudo certo. É um cara sensacional. Acho que a diretoria acertou em cheio naquela mudança, naquela hora. É um cara experiente. Para aquele momento foi importante. E pra mim também. Foi um aprendizado. Fui ao céu, cheguei perto do inferno. Pra mim foi um aprendizado para a vida. Eu tinha certeza que o Santos não ia passar perto dalí (zona de rebaixamento). Que viva o Santos.
