As principais causas da perda de paciência do torcedor com Ceni

Tiago Salazar e José Victor Ligero - São Paulo,SP

23/06/17 | 08:00 - 23/06/17 | 19:50

Dia 8 de dezembro de 2016, o presidente do São Paulo, Carlos Augusto de Barros e Silva, apresentou Rogério Ceni, o maior ídolo da história tricolor e goleiro aposentado desde 2015, como técnico do elenco de futebol profissional do clube. Já à época, quando as especulações sobre a possibilidade tomaram os noticiários, constatou-se uma divisão notória até mesmo entre os próprios torcedores são-paulinos. Dois eram os receios: a falta de experiência de Rogério Ceni no cargo e o risco de um ícone do clube ter sua imagem arranhada. Seis meses depois, o Mito, como é carinhosamente chamado pelos fãs, está longe de ser uma unanimidade. As críticas, antes ponderadas, agora esbravejam contra Ceni, que se vê diante de uma situação inédita em toda vida futebolística.

Sob o comando do atual treinador, o São Paulo disputou 33 partidas: venceu 14, empatou 10 e perdeu nove. Foram 54 gols marcados e 39 sofridos. A equipe foi eliminada pelo Cruzeiro na quarta fase da Copa do Brasil, caiu na semifinal do Campeonato Paulista frente ao Corinthians e amargou um dos maiores vexames de sua história ao ser despachada pelo modesto Defensa y Justicia, da Argentina, em pleno Morumbi, logo na primeira fase da Copa Sul-Americana. No Campeonato Brasileiro, já são quatro rodadas sem vitória. O time é apenas o 14º colocado após nove jogos, com 10 pontos, só um a mais que o primeiro integrante da zona de rebaixamento.

Rogério Ceni não gosta de ser avaliado apenas pelos resultados. Esse é praticamente o mantra do técnico a cada entrevista coletiva desde que assumiu o cargo. Entretanto, apesar da obviedade do peso da ausência de sucesso nas metas estabelecidas, as críticas, já em tom elevado, que pairam sobre o trabalho de Rogério Ceni não se limitam apenas aos “números frios”, como o próprio comandante tricolor denomina.

O crédito e a tranquilidade para trabalhar que fora resguardado até aqui em função do escudo constituído pela idolatria do torcedor começam a apresentar vulnerabilidade. Pela primeira vez, Rogério Ceni se vê ameaçado e questionado por boa parte daqueles que sempre o aplaudiram de pé. Os são-paulinos têm se manifestado, e muito. A Gazeta Esportiva listou as principais reclamações e observações sobre o trabalho de Rogério Ceni.


DEMORA PARA DEFINIR UMA FORMA DE JOGAR
Rogério Ceni iniciou seu trabalho à frente do São Paulo apostando em um esquema com três zagueiros. Mas, bastou uma derrota para o Osasco Audax, logo em sua primeira partida oficial, para o técnico rever seus conceitos. Após meses usando a linha de quatro na maior parte dos jogos, Ceni voltou a armar a equipe com três beques de ofício, mas dificilmente chega a terminar a partida dessa maneira. A equipe já foi ultra-ofensiva e depois passou a jogar de forma mais precavida.

Essa alternância constante de estratégias, sistemas, escalações, e as inúmeras vezes que jogadores acabam sendo utilizados fora de sua função de origem, como os casos recentes de Militão, Rodrigo Caio, Thiago Mendes, Marcinho, Wellington Nem e Lucas Pratto, faz com que Ceni pareça perdido e sem convicção. Até agora, o São Paulo não encontrou um padrão de jogo e sequer tem um time titular definido.

DIRETORIA ATRAPALHA COM PLANEJAMENTO MAL FEITO
Até mesmo os mais revoltados com o trabalho de Rogério Ceni têm uma ponderação a fazer. O planejamento mal feito pela diretoria comandada por Leco tem influência direta na situação da equipe. Afinal, desde o início do ano, o clube já perdeu, seja por venda, empréstimo ou dispensa, Breno, Wellington, Lyanco, Luiz Araújo, David Neres e Neilton, e também está prestes a vender Maicon e ver João Schimdt deixar o grupo. Por outro lado, chagaram Neilton (que já figura nas duas listas), Wellington Nem, Sidão, Edimar, Cícero, Lucas Pratto, Jucilei, Marcinho, Morato, Denilson, Maicosuel, Thomaz, Jonatan Gómez, e ainda estão muito perto de um acerto Petros, Matheus Jesus e Arboleda.

Todo esse entra e sai de jogadores, as incertezas quanto ao futuro, além dos problemas rotineiros de todo time com lesões e suspensões, dificultam, na prática, a missão de Rogério Ceni. Aliás, na última quarta o técnico surpreendeu ao revelar que só conhece um de todos os jogadores que deve receber nos próximos dias como ‘presentes’ da diretoria.

CONTRADIÇÕES ENTRE DISCURSO E ESCOLHAS
Nem sempre o que Rogério Ceni diz é o que será visto em campo. E isso tem incomodado muitos torcedores. No último clássico contra o Corinthians, por exemplo, o treinador são-paulino utilizou quatro zagueiros no jogo (Militão, Lucão, Maicon e Douglas). Douglas, que não entrava em campo há quase três meses, foi titular, enquanto Lugano sequer entrou no segundo tempo. Tudo isso dias depois de Ceni pedir a renovação de contrato do uruguaio. O ato causou estranheza até mesmo dentro da diretoria.

No mesmo jogo, Rogério Ceni apostou na dupla de centroavantes Lucas Pratto e Gilberto desde o início. Duas rodadas depois, porém, o treinador, ao tentar explicar o motivo das poucas oportunidades dadas a Lugano, acabou citando a disputa entre Pratto e Gilberto e argumentou que não poderia escalar os dois juntos, exatamente como ele havia feito em Itaquera.

Mais controverso ainda foi Rogério Ceni preterir Gilberto, artilheiro do time na temporada, para promover duas estreias durante a derrota para o Atlético-PR: Denilson e Brenner. O último tem 17 anos e havia feito apenas dois treinos junto ao elenco principal do São Paulo.

USO EXCESSIVO DAS ESTATÍSTICAS E DIFICULDADE EM ASSUMIR ERROS
Que Rogério Ceni tem uma personalidade forte não há dúvida. Isso já foi visto como virtude em diversos momentos da carreira do ex-goleiro, mas também já foi apontado como o principal fator de impedimento para que Ceni assumisse suas falhas na meta são-paulina. Como técnico, esse aspecto pouco mudou. Mesmo em momentos críticos, Rogério Ceni insiste em buscar argumentos positivos sobre o próprio trabalho, costuma fazer uma análise otimista após derrotas e utilizou em demasia as estatísticas para se sustentar.

Essa postura ganhou evidência quando o treinador chegou a utilizar número de escanteios para defender o desempenho de seu time na sequência de uma eliminação para o Corinthians. Na mesma entrevista, Ceni aprovou o próprio trabalho após uma breve análise. Mas o auge da repercussão negativa das entrevistas do comandante tricolor se deu depois da desclassificação da equipe na Copa Sul-Americana perante ao Defensa y Justicia, em pleno Morumbi. Na ocasião, Ceni não qualificou o revés como vexame e minimizou o confronto que ficará marcado de forma negativa para sempre na história do clube.

Desde então, ciente da péssima repercussão que suas entrevistas vinham causando, inclusive entre os são-paulinos, Rogério Ceni decidiu diminuir a dose de uso de estatísticas para justificar sua visão das partidas. As análises, no entanto, seguem positivas em qualquer circunstância, como foi visto depois do quarto jogo seguido sem vitória da equipe no Campeonato Brasileiro.

CRÍTICAS PÚBLICAS A JOGADORES DO ELENCO E ATÉ A TITE
Em sua apresentação, apesar da inexperiência no cargo, Rogério Ceni admitiu que administrar um grupo de pessoas que pensam diferente e manter todos em harmonia é uma das principais atribuições de um técnico e talvez seu maior desafio. Quando se deparou com uma divergência, porém, o ex-goleiro acabou causando mal-estar dentro do vestiário, chegou a criticar Rodrigo Caio em público e ainda questionou Tite, técnico da Seleção Brasileira.

O atitude se repetiu no último domingo. Lucão desabafou aos microfones e revelou que sairia do clube por falta de clima, já que a torcida não vinha tolerando suas falhas. Ao invés de tentar contornar a situação de seu titular da zaga, Ceni condenou as palavras do jovem revelado em Cotia e praticamente sacramentou a saída do atleta. A postura de Ceni nesse caso pode ser ideal para quem está na arquibancada, mas não costuma ser bem vista pelo elenco.

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