Leandro Damião conta sobre gol do título marcado na estreia e a vida no Japão

Pedro Guedes - São Paulo,SP

17-10-2020 08:00:40

Um dos principais centroavantes revelados no Brasil no início da década, Leandro Damião fez muito sucesso no Internacional, tendo passado também por Cruzeiro, Santos e Flamengo. Mas desde o final de 2018, o atacante está jogando no Kawasaki Frontale, do Japão.

Muitas vezes, mudar de cidade já é um desafio. Quando se fala em mudar de país, e de continente, há sempre um receio sobre a chegada a um novo lugar, com uma cultura diferente e tudo que envolve esta troca. Em entrevista exclusiva concedida à Gazeta Esportiva, Damião conta como foi esta chegada ao país asiático.

“Antes de vir para cá eu estava bem preocupado, por conta da minha família, dos meus filhos. Mas acabei pegando informações com jogadores que estavam aqui e alguns que já tinham passado, como o Tinga. Aí me deu mais tranquilidade. Chegamos aqui ano retrasado, com uma recepção muito boa. Os japoneses têm muito respeito pelos jogadores. Foi muito bacana, eles já gritavam meu nome, mesmo eu não entendendo muito bem no início (risos). Mas foi uma recepção muito boa, não só da torcida, mas do elenco também”. 

Uma das grandes diferenças, sentida já nos primeiros segundos ao pisar num país diferente é o idioma. O japonês, ou Nihongo, como ensinou o atacante brasileiro, não é simples de se aprender. Mas com quase dois anos de experiência, o atleta já consegue se sair bem, além de contar com uma pequena ajudinha dos brasileiros que já passaram pelo país. 

“Eu me viro tranquilo. Não é perfeito, mas consigo me virar bem, pessoal entende muito bem. Uso bastante o inglês aqui e é muito fácil, o pessoal ajuda bastante. Muitos japoneses já sabem falar algumas coisas em português, porque passam muito brasileiros por aqui”. 

Apesar das dúvidas e incertezas antes de decidir aceitar o convite de jogar no Japão, Leandro Damião teve uma adaptação muito rápida, tanto dentro quanto fora de campo. O jogador chegou numa situação inusitada, já disputando a primeira taça, que foi conquistada com a marca do artilheiro.

“Para mim foi bem tranquilo. Não sei se pela experiência, ou por eu ser um cara mais tranquilo. O país é bom de se viver, a minha cidade fica a 30 minutos de Tóquio, tem restaurante brasileiro, você consegue pedir comida pela internet. Então assim, para a minha família está ótimo, estão todos muito felizes aqui”, contou. “No primeiro jogo já foi uma disputa de título. Fiquei muito feliz de ter vindo para cá. Primeiro jogo já consegui fazer o gol do título, foi muito importante para mim ter chegado bem e já ajudado a equipe”, completou. 

 

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Desde que surgiu no Inter, Damião sempre se destacou e foi muito querido pela torcida colorada, que ainda pede seu retorno. Chegou a vestir a amarelinha algumas vezes, disputou campeonatos. Uma ida para o futebol asiático poderia tirá-lo dos holofotes. Mesmo assim, o jogador aceitou o desafio, buscando algo novo na carreira.

“Eu era muito feliz no Inter. Consegui subir com o time para a primeira divisão, classificar para a Libertadores. Só que eu precisava de algo novo e essa oportunidade foi muito boa. Era um time muito bom, tinha sido campeão duas vezes seguidas da J-League. Isso me deixou muito entusiasmado de poder vir para cá e poder participar de um time campeão. E fiquei muito feliz de ter aceitado essa proposta”.  

A questão da visibilidade no Japão, ou em qualquer outro país asiático é um fato. E o jogador não nega que, estando tão longe dos grandes centros do futebol, acaba sendo menos visto. Mesmo assim, destaca a qualidade do torneio que disputa, e diz que a grande diferença do esporte no país é a velocidade do jogo, que exige um condicionamento físico ainda maior.

“Falando a verdade, acho difícil o pessoal acompanhar a Ásia. Porque quem não está aqui, é difícil de falar que o Campeonato Japonês é um campeonato de ponta. Só quem está aqui que vê a correria que é. Tem que estar fisicamente bem, se não não aguenta os jogos. A intensidade é muito maior do que no Brasil. Só que a visibilidade é diferente. Não tem como a gente ser hipócrita e falar que é igual, porque não é. O importante é quem estar aqui dar o seu melhor. Eu dou e sou muito feliz”.

Foto: Divulgação/Internacional

Além do futebol, Leandro aproveita a vida no país asiático. Tão longe de casa, o camisa nove consegue ver algumas diferenças na relação com o povo. Um dos pontos mais destacados pelos atletas que atuam no continente é a tranquilidade e a paz, mesmo após derrotas. Segundo o centroavante, muitos dos que decidem trocar de nacionalidade o fazem pela gratidão ao que o país oferece.

Entre estas qualidades está o respeito, muito destacado pelo jogador. Seguindo a linha do que costuma ser dito por brasileiros ao redor do mundo, o atacante fala sobre a pressão da torcida. Cita também, que independente do resultado, o time é sempre aplaudido após as partidas.

“Eu passei 10 anos jogando no Brasil. Já passei por várias pressões em todos os clubes que estive. Eu não desejo isso a ninguém O respeito não tem no Brasil, infelizmente. É complicado. Todo mundo acha que, porque o jogador ganha o que ganha ele tem que correr mais. E ele corre. Nenhum jogador faz de sacanagem. Já estive em várias equipes e posso falar que nunca vi isso. Só que no Brasil é complicado. O fanatismo é muito maior do que no Japão. Eles têm outros esportes aqui, como o beisebol. No Brasil eu vejo que é muito mais o futebol do que, por exemplo, o vôlei. Não querendo menosprezar, mas o Brasil tem o futebol em primeiro lugar”. 

Diferentemente de alguns jogadores, como Willian, do Arsenal, que diz ter dúvidas sobre uma volta ao Brasil justamente por conta destas questões, Damião reafirma sua vontade de atuar novamente em seu país de origem. O Colorado sempre é o primeiro time ao qual o jogador é relacionado, e ele não esconde seu desejo de um dia retornar ao Beira-Rio.

“Penso um dia em voltar para o Brasil, sim. Não sei quando ainda. Pretendo terminar o meu contrato aqui com o Frontale. Não sei ainda sobre prorrogação. Quero aproveitar o máximo possível, minha família também, porque eu não sei até quando eu vou ficar. Tenho contrato até o final do ano que vem, então até lá vou dar o meu melhor por aqui e, quem sabe um dia voltar para o Brasil. Tenho essa vontade. E tenho vontade de jogar no Inter novamente. É a minha casa, é onde eu fiz gols, ganhei títulos e a torcida sempre me apoiou dentro de campo”. 

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