Bolsas auxiliam medalhistas olímpicos a se manterem nas modalidades

Fernanda Silva - São Paulo,SP

07-08-2017 09:30:45

Wu foi o primeiro brasileiro a subir no pódio em 2016 (Foto: AFP /Pascal GUYOT)

Um ano após se sagrar o primeiro brasileiro a subir ao pódio na Rio 2016, o atirador Felipe Wu já tem o foco em Tóquio 2020. Na última olimpíada, ele entrou para a história de sua modalidade. Desde 1920, o Brasil não conquistava uma medalha olímpica no Tiro, defendida pelo carioca Afranio da Costa, na Belgica. Wu repetiu o feito. Apesar das vitórias, o estudante de engenharia na Universidade Federal do ABC sabe que, viver de esporte no Brasil é um privilégio para poucos, uma realidade que segue firme um ano depois e que faz parte da série especial da Gazeta Esportiva.com sobre o legado deixado pelo Rio 2016 .

Hoje, ele consegue, ao menos, se manter na modalidade. Wu é também terceiro sargento no Exército. Conta com as bolsas para pagar os custos do tiro olímpico, categoria cara. As armas chegam a custar R$ 10 mil Além disso, são gastos cerca de R$ 450 por treino — que hoje, duram entre duas e três horas diariamente. “Em época de competições, os treinos são de quase seis horas”, conta Wu.

Felipe Wu disputou a classificatória da pistola de ar 50m do tiro esportivo, mas não teve o mesmo desempenho que o levou a medalha de prata na pistola de ar 10m (Foto: Pascal GUYOT/AFP)

“Quando comecei a treinar, era bancado pelo meu pai”, conta o paulista. “Fazia até treinos secos, que são sem munição”. Viu-se crescer no esporte pela insistência: sem patrocinador, sem mídia, sem assédio. Ele não tem preparador físico, mas conta com a bolsa atleta do Governo, além do salário militar. Chegou no Exército em 2013, quando foi convidado pelo bom desempenho com armas de pressão para o Programa de Alto Rendimento.

Ao todo, cerca de 627 esportistas são beneficiados pelo Programa. Os atletas militares recebem um salário de cerca de R$ 3,5 mil, valor equivalente aos demais integrantes que ocupam patentes similares na Marinha, no Exército ou na Aeronáutica.

Ele também recebe o melhor valor da Bolsa Atleta — R$ 15.000,00 mensais da Bolsa Pódio, válida para quem tem potencial ter boas colocações em grandes competições. “Essa bolsa é o principal valor que banca minha modalidade”, declara o atleta. “Hoje, o dinheiro é suficiente”.

Verônica agora se prepara para Tóquio 2020 (Foto: Reprodução/Facebook)

A mesma lista que contemplou Wu para o programa do Governo, ajudou também Verônica Hipólito. Aos 20 anos, ela sofre com intensos tratamentos de um tumor que faz com que seu corpo não responda com tanta velocidade quando das demais pessoas. No Rio, a carismática jovem conquistou duas medalhas: prata e bronze, respectivamente nas categorias 100 e 400m na classe T38 feminino. Desde 2013 no movimento paralímpico, ela diz que estar sempre bem colocada no ranking mundial é seu diferencial. “É uma coisa que pesa muito para entrar na Bolsa Pódio. Para fazer parte disso, você tem que mostrar que está conseguindo bons resultados, principalmente no final do ciclo”, conta.

Aos 20 anos, Verônica encerrou a primeira Paralimpíadas com uma prata e um bronze (Foto: Daniel Zappe/MPIX/CPB)

Por ter subido ao pódio duas vezes no Rio de Janeiro, ela acredita que merece a bolsa. “Isso acabava virando um direito adquirido e esse ano eu quero ganhar muitas medalhas representando o Brasil”. No último ciclo olímpico, 91% dos atletas paralímpicos do Brasil recebiam o apoio — 77% dos 465 atletas olímpicos também eram bolsistas. “Com as medalhas no Rio, eu mostrei que o investimento valeu a pena”, conta Verônica. “Eu espero trazer de Tóquio muitas medalhas e muitas alegrias e mostrar novamente que o investimento valeu a pena”.

Wu sente o mesmo. “Meu desempenho na olimpíada mostra meu potencial. Melhores resultados trazem mais visibilidade e investimento, é uma questão de meritocracia”.

Leia a primeira parte do especial sobre o Legado Olímpico. O último episódio você confere nesta terça-feira.

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