A um ano da Copa, garoto brasileiro atua com alemão e é vice na Rússia

São Paulo, SP

01-07-2017 19:55:04


A Copa das Confederações não é o único torneio internacional de futebol realizado na Rússia a um ano da Copa do Mundo. Neste sábado, um dia antes de Chile e Alemanha se enfrentarem na Arena Zenit, garotos de 64 países estiveram em ação em um campo de grama sintética de São Petersburgo. Entre eles, estavam um brasileiro e um alemão.

A parceria entre Juan Assis, jogador das categorias de base do Fluminense, e Johann Müller, do Schalke 04, foi incentivada pelo formato do “Futebol pela Amizade”. A organização do evento dividiu meninos e meninas de 12 anos, das mais variadas nacionalidades, em oito times com oito crianças cada. O brasileiro e o alemão eram os destaques da equipe roxa.

Durante a estadia em São Petersburgo, Juan e Johann se entrosaram também fora de campo, criando laços que nenhuma goleada por 7 a 1 foi capaz de estremecer. Sempre juntos, os garotos excursionaram pela cidade, jogaram pebolim e dividiram experiências por meio do inglês e, na maioria das vezes, dos gestos.

Quando a bola rolou, a comunicação ficou mais fácil. Juan, que havia trocado petelecos com Johann durante a pomposa cerimônia de abertura do evento, aderiu à seriedade germânica e logo anotou o primeiro gol do time roxo na competição, com assistência do amigo. Com duas vitórias a partir de então, a vaga na final estava assegurada.

O adversário era o time amarelo, que tinha como referência o argentino Iván Casco, do San Lorenzo, e mostrou-se disposto a aproveitar tudo o poderia estar a seu favor para ficar com o título – a baixa estatura do goleiro Esenov Gurbanmuhammet, do Turcomenistão, o campo de formato estreito e principalmente o tempo (os jogos tinham duas etapas de dez minutos, sem acréscimos, e o cronômetro continuava a avançar quando a bola não estava em disputa).

Enquanto o alemão dava carrinho, o argentino fazia uso da malandragem para ficar mais perto do troféu (foto: divulgação)

Com um triunfo por 1 a 0 antes do intervalo, o time de Iván foi cascudo para pressionar o de Juan e Johann, que passou a se irritar com as adversidades. Na fria São Petersburgo, o jovem alemão esquentou o jogo ao reclamar de uma falta e ameaçar iniciar uma confusão com um oponente. Acabou contido pelo árbitro.

O futebol, no entanto, era pela amizade. Capitão do seu time, Johann passou a recorrer a Juan, com quem trocava instruções a quase todo instante, para virar o marcador. Só não contava com uma falha dele próprio, que mandou a bola para dentro, contra, após um cruzamento.

O argentino da equipe amarela, então, provou que já havia aprendido a catimbar. Ele valorizava a posse de bola e as faltas que sofria. “Falta claríssima!”, gargalhou Fernando Armeno, profissional deslocado pelo San Lorenzo para ajudar na preparação de Iván Casco, ao ver uma fotografia em que o seu pupilo caía muito depois de um carrinho desferido por Johann.

Apesar da malandragem argentina – e de ter perdido o seu baixo goleiro Esenov, que se lesionou ao fazer uma defesa difícil –, os garotos de roxo ainda conseguiram reagir. Johann marcou mais um gol no torneio. Juan, outro, em uma reposição de bola de muito longe. O placar, que já havia se dilatado até 4 a 1, foi reduzido para 4 a 3 nos segundos finais.

Desta vez, três anos após a Alemanha ser campeã do mundo em cima de Argentina e Brasil, o jogador alemão chorou junto com o brasileiro ao apito derradeiro. Geralmente sorridente, Juan ficou tão decepcionado com a derrota que foi lacônico ao conceder uma rápida entrevista à beira do campo. Preferiu responder com acenos de cabeça.

Equipe laranja recebeu as medalhas das mãos de Müller, capitão do time vice-campeão, e fez a festa no pódio (foto: divulgação)

Já Johann, cabisbaixo, ainda teve a incumbência de entregar as medalhas douradas aos vencedores, em gesto que enaltecia os ideais de confraternização do evento, prestigiado por Stanislav Cherchesov, técnico da seleção da Rússia, Aleksandr Kerzhakov, atacante russo revelado pelo Zenit e com passagem pelo Sevilla, entre outros atletas e autoridades locais.

Nenhum dos convidados, porém, conseguiu competir em popularidade com o lobo Zabivaka, mascote da Copa do Mundo de 2018 e participante mais assediado pelas crianças selecionadas pelo “Futebol pela Amizade”. Inclusive por Juan e Johann.

“É uma pena eles não terem vencido. O pessoal aproveitou o campo pequeno, que dificulta para quem é mais técnico, para chutar de longe até nas cobranças de lateral”, comentou Lindolfo Melo, técnico do Fluminense que acompanhou o jovem jogador brasileiro. “Mas eles têm futuro. Já tinha visto esse alemão jogar em uma excursão. Chuta com as duas pernas, organiza o jogo, vai de um lado a outro... Dará bastante trabalho”, previu, animado.

Maradona frustra as crianças
Outro argentino provocou lamentações entre os participantes da competição infantil promovida paralelamente à Copa das Confederações. As crianças foram chamadas de volta ao campo cerca de duas horas após a cerimônia de premiação do “Futebol pela Amizade”. A promessa era de que o astro Diego Armando Maradona apareceria no gramado.

“Aposto um café que ele não irá”, desafiou um jornalista argentino, que cobrou o pagamento de uma cerveja depois de vencer a aposta. Àquela altura, frustradas, as crianças já retornavam ao hotel onde estão concentradas em São Petersburgo.

Haverá um consolo e tanto para Juan, Johann e os outros 62 jogadores – além dos 64 jovens jornalistas, de só 12 anos, que foram escolhidos para também representar os países integrantes do evento. Todos serão levados para assistir ao duelo entre Chile e Alemanha, pela decisão da Copa das Confederações, no domingo.

*O repórter viaja a convite da Gazprom.

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